
Na sofisticação dos meus sentimentos cegos pra os reflexos falsos dos espelhos, só o escrever não me deixa morrer. - Sérgio Janma -
(inspirado no texto da peça antes da coisa toda começar, do Armazém CIA de Teatro)
Tudo bem, nunca suportei o lá fora, mesmo. Não gosto de me sentir um pedaço de carne na multidão.
(Trecho da peça antes da coisa toda começar)
O espelho é só um vidro com uma
fina camada de aço grudado às suas costas. Isto que é tão simples gera a sua
extraordinária magia. Todos os espelhos são mágicos. Refletem o nosso inverso,
mentem sobre as formas de nossos corpos e faces, enganando-nos quanto à idade
que temos. Cansei de ser Narciso a se enganar ao olhar nas águas um rosto que
nada mais é do que o seu contrário refletido em avesso. Nada que existe,
criado, foi pra ser visto, por isso o espelho é necessário na sua função de
enganar. Estou em idade de buscar o real. O avesso do avesso, como já disse
Caetano. Na verdade, busquei-o por todas as minhas idades. Desde a não
vivenciada infância, busquei as verdades reais. Mas as verdades podem não ser
reais. Todas as pessoas têm suas próprias verdades. Viver a vida através do
espelho, por nele refletir as conversas mudas, caras, bocas, roupas adequadas,
ensaios de sedução... sexo. Todos pensam que têm algo muito importante pra
dizer ao outro, à humanidade. Entendi, então, com a idade avançando, que o real
ao qual buscava não é sinônimo de verdade. A verdade é a vida que cada um
acredita ter e viver. O real é outra coisa. É o que integra o nosso mundo
interior, tanto quanto conseguirmos ser íntegros. Interagir com o mundo
exterior é outra história. E quando nos tornamos sombras daquelas pessoas que
escolhemos... Aí somos apenas ação-e-reação-reação-e-ação. Convivência com o
outro é andar na corda bamba. Quem quer manter boas as relações sociais e
amorosas tem que jogar o jogo das previsões do outro jogador. Supor
antecipadamente suas verdadeiras intenções para, nesse espaço chamado
relacionamento, desarmar-lhe o bote que os subjugariam ao seu domínio. Mas na
espera do reconhecimento da vitória, quando ela chega, frustra. Não passa apenas
de um tolo cheque-mate. E o sentimento é de não sermos importantes. No entanto,
não sabemos como e nem quando nos tornamos importantes na vida dos outros.
Outros que não os escolhemos e que, de tantos, nunca os encontramos.
Eu não sou assim. Para não ser preciso
me utilizar de qualquer forma de poder, prefiro o meu mundo, a minha realidade
que suspeito existir só dentro de mim, indiferente aos outros; aos outros
mundos. E eu, sequer, conheço inteiramente o meu mundo; dois mundos tão
distintos. Eu olhando o externo, chamando-o de você; o eu dele a me olhar,
chamando-me de você. Dá a mim a sensação de eu não ser eu e nem eles serem
eles. Sensação de não existirem e nem de eu estar aqui, vivo. É tudo um sonho?
Os espelhos mentem sobre nós,
mostrando-nos apenas as nossas distorcidas imagens, a outra verdade revertida
pelo reflexo dos nossos contrastes. É um sonho? O que é sonho e o que é real? O
real está no sonho? O irreal que nos engana, contendo-nos em um mundo
proliferando-se de coisas e pessoas dentro dele e ao meu redor, inchado. Elas
existem? Como as coisas conseguem viver sem mim? Existem, talvez, apenas no meu
e nos espelhos delas, refletindo um mundo pra cada coisa e pessoa. Meu espelho
me faz crer que as imagens nele, minhas e de todos, ser a verdade, tendo-a como
propriedade exclusiva. Ele deixa a dúvida de apenas existirmos como reflexos,
sem sermos reais. Mortos-vivos... sem extrema unção. Como sei que as outras
pessoas existem? Serei só? Espelhos quebrados a fragmentarem os mesmos
pensamentos, sentimentos...
Tudo que é duplo é apenas um só
ser. Inversamente como num espelho, que só me faz ver as duplicidades dos
contrastes. Opostos o bom e o mau. A parte boa sofre por ser boa. É aquela que
busca a felicidade. Não pode achar, na sua infrutífera procura, o que não
existe. Desiste. A desilusão faz com que ela queira ser a parte má. O nosso eu
bom e o nosso eu mau se amam, mas se rejeitam. O bom é quem quer matar o mau.
Mas o mau só está no seu papel, tornando-se o indesejado, quem nos faz ter
pesadelos e nos acorda quando sonhamos os sonhos de felicidade realizada. O eu
mau deve estar à margem do convívio humano, preso em uma ilha solitária de
rotas perdidas.
Há ainda o meu universo solitário
que inventa pessoas irreais, refletidas em um espelho mágico. Um pequeno
universo. Há a teoria dos físicos: o grande Universo é um só; o que nele vemos
contido é só seu reflexo, por isso ele também é finito. Saber que até mesmo o
Universo terá o seu fim consola a dor que o medo da morte me causa. Esse
Universo tão misterioso pra humanidade, também tem seus espelhos refletindo as
irreais imagens que enganam: estrelas que já há milhões de anos deixaram de
existir e, ainda assim, mantêm-se suas cintilâncias. Nossos corpos, organismos,
mentes... réplicas do grande e finito Universo. Somos também seu reflexo? O que
existe nele existe em nós. E até essa Natureza Universal, que é criadora e
criatura, irá morrer.
Não sei se alguém já disse o que
acabo de pensar e disser. ...Sei que às vezes uso palavras repetidas. Mas,
quais são as palavras que nunca são ditas?, disse o poeta naquela música...
Como ela era mesmo? Todos pensam e quase sempre dizem o que pensam de uma forma
ou de outra, já que há tantas formas de expressão e tantas mentes criativas. É
preciso resgatar o valor das palavras. Até mesmo os que pensam em linha reta
têm sempre os seus pensamentos propensos a se cruzarem com os dos outros.
Caminhar em linha reta é pra quem tem objetivos. Eu não mais os tenho, perdi-me
deles. Reafirmo: meus pensamentos não seguem uma linha reta com medo de serem
pegos pelo trem do destino da minha própria história. A permanente tentativa de
me esquivar da vida e da morte, ambas tão particular. Acumular energia para a
fuga é engordar o corpo e a alma.
Eu já quis morrer! Mas como os meus
pensamentos não seguem em linha reta, agora não estou mais querendo o que é
provável, talvez inevitável: o encontro em um atropelo, antes da hora e local
marcado, com o que chamo de duelo da minha vida contra a minha morte. Sem a
contagem de passos, sem trapaças e nem uma só testemunha, mesmo que haja a
assistência de gente curiosa. A morte não pode ser vista e muito menos vivida
por outros, a não ser pelos dois protagonistas. Morrer é sair de cena. O último
olhar é para o espelho. Reflexo: vulto que volta, antes de cairmos na densa
sombra. Sermos esquecidos. Passamos a ser mais outra estrela morta com a
energia da memória durando só mais um pouco. A morte desfaz o encanto do
espelho, da vida. Aí os pensamentos ferem.
A meia idade torna os homens
adolescentes. Não é por que cheguei nesta idade da inutilidade economicamente
produtiva que penso e sinto da mesma forma a solidão. Mesmo com os anestésicos,
tenho vivo o tesão no meu corpo! Entupo-me de remédios que só servem pra alma,
pro vazio. O que fazer pra melhorar o gosto da vida? Quero um corpo colado ao
meu, dentro um do outro e não fora! O
homem ama o seu próprio pau! O seu feminino, o eu por ele não reconhecido, é o
seu melhor amigo. O feminino no homem dimensiona a relação do macho com a
fêmea. É o feminino inconsciente dele que busca o encontro com o masculino
dela.
A memória só lembra o que quer lembrar. Quando
jovem saia com os amigos, muita gente, encher a cara, som alto com o propósito
de se tornar impossível as conversas...enfim, o resultado da excitante noite
entorpecida: solidão. Pra que haja vida: sexo. Hoje, confesso, a solidão está
mais intensa, insuportável até. Opressão. Minha casa vazia... a morte é a nossa
casa. Pessoas se afastam quando nos revelamos. Quando ando pelas ruas as
pessoas até esbarram em mim por simplesmente não me enxergarem. Elas nem me
olham pra não terem que me ver. Tornei-me invisível como a perna que falta no
saci. Mas, insisto com a coragem de andar em linhas tortas! Tenho ainda duas
pernas e continuo a caminhar ziguezagueando pra todos os lados, tendo em mente
a esperança que, talvez naquele lado, onde haja o tropeço, estará o meu
destino. A ponta do meu arco-íris preto e branco sem tesouros. Só existe agora
o tempo entre o passado e o presente.
Sérgio Janma -Jan/2012

"Deixando a água original
cantamos
sufocando o espelho
do silêncio"
(FONTELA).
cantamos
sufocando o espelho
do silêncio"
(FONTELA).
AO ESPELHO - Jorge Luis Borges -
"ROSA PROFUNDA"
Por que persistes, incessante espelho?
Por que repetes, misterioso irmão,
O menor movimento de minha mão?
Por que na sombra o súbito reflexo?
És o outro eu sobre o qual fala o grego
E desde sempre espreitas. Na brunidura
Da água incerta ou do cristal que dura
Me buscas e é inútil estar cego.
O fato de não te ver e saber-te
Te agrega horror, coisas de magia que ousas
Multiplicar a cifra dessas coisas
Que somos e que abarcam nossa sorte
Quando eu estiver morto, copiarás outro E depois outro, e outro, e outro, e outro...