"Leia como quem beija, beije como quem escreve"
(Maxwell F. Dantas)

sábado, 12 de maio de 2012

Liberdade no Terreiro da Alegria

Sempre quis ir a um terreiro de Candomblé. Sabe aquele sonho de criança? Minha família carola-católica-apostólica-paraibana tentava-me pôr medo: demônios possuem os corpos das pessoas, tudo dá pra trás nas vidas dessas pessoas que ficam amarradas pelo diabo e mais outras afirmações desse tipo. Mas tudo o que me põe medo me atrai. Tenho como objetivo de vida desmistificar os mistérios do que é oculto pra torná-los cultos.
            Até que esse dia chegou. Meu amigo Dartanhã, na época marido, tinha uma colega de trabalho que teria sua iniciação na religião afro-brasileira: A festa de Saída de Iaô. A noite de sábado três vezes adiada finalmente chegou. Fomos nós três: meu marido, eu e minha vontade ansiosa por sua realização.
            Antes de prosseguir com esta narrativa devo adiantar que não sou religiosa, porém não sou ateia. Contraditório? Não. Acredito na vida além dos corpos. Vida maior, total, universal. Pra mim, somos partes desta vida além de nós. Uma nano-célula no organismo vivo do Universo.
            Chegamos, guiados pelo croqui em mãos e informações dos passantes daquelas ruas do subúrbio. Onde é o terreiro do pai Dodô? Impressione-me já na entrada. Esculturas de orixás variados. Expressões assustadoras. Tudo o que eu queria: ser surpreendida pelo o que via. Lá dentro, calor, incensos, fumaças de defumações, cigarros e cigarrilhas. Meu companheiro nessa aventura que não suporta calor, incensos, fumaças de defumações, cigarros e cigarrilhas... saia e voltava do recinto. Eu não me incomodava com esse ambiente. Faz parte do ritual, é da cultura vinda do outro lado do oceano.
            Premeditando o ritual que viria pelos toques dos ogãs nos atabaques e macumbas, lembrei-me dos versos do poeta-brincante Mário Pirata “... toda alma quando solta/ toda alma quando livre/ é percussiva.” A liberdade me vinha aos poucos através dos sorrisos de bem-vindas, abraços, reconhecimento sem nunca ter se conhecido, indumentárias multicoloridas e monocolores. Cores representativas dos orixás, explicou-me meu marido. Não me importava. Só queria aquilo. Esse ambiente onde cabem todos. Ninguém ali traz consigo seu sobrenome, profissão, nem condição social, sexual, ideológica, política... são apenas pessoas na sua condição humana imperfeita.
            Minha alma teve mais liberdade quando o Pai Dodô, mulato velho de estatura mediana, vestido de branco da cabeça aos pés, deu início aos trabalhos com rezas católicas, demonstrando o sincretismo religioso daquela sessão. Acompanhado de seu braço direito, ajudante direto, creio, com uma toga que parecida ter mais cores que o próprio arco-íris. Traziam atrás deles, uma dança circular e cânticos, ora em português cabloco, ora em orumbá.
            Saiu de dentro de um pequeno quarto, que mais tarde fiquei sabendo se chamar roncó, a colega de meu marido com vestido vermelho de cigana, cigarrilha e uma taça de champanhe nas mãos. Era a personificação da cigana Jurema, uma das pombas-gira. Séria e compenetrada, a cigana puxava o cortejo com muita alegria nos cânticos de letras maliciosas e de dúbio sentido. Tudo era uma grande brincadeira. Mulheres e homens mudavam de repente de expressão e simplesmente caiam e eram levantados pelos mestres e voltavam-se cavalos de alguma entidade do mundo dos espíritos. Dartanhã achava assustador, teatro dos horrores, disse, eu achava uma bela e significativa representação antropológica. Jurema gritava palavras chulas, próprias do mundano ambiente de cabarés. A todos ofereceu do seu champanhe e cigarrinha. Sem mais beber e nunca ter fumado, bebi e fumei. Dartanhã, decepcionado comigo, retira-se do recinto resentido. Não me importo. Queria ver onde aquilo tudo iria dar.
            Intervalo. Teria a segunda sessão para outra iniciação da agora também minha amiga. Uns vinte minutos depois, veio ela, ou melhor, ele, o seu Zé Pilintra. Vestido de fraque e cartola sobre a cabeça da mulher-cavalo de coques nos cabelos. Essa entidade é um preto cachaceiro, dado a farra. Bebia cachaça Jureminha (homenagem à cigana?) e fumava charuto. Abraçava a todos com afeto, soprava fumaça em toda a cabeça de quem era a vez e perguntava o que queria lhe perguntar. Bebi da sua cachaça e fumei do seu charuto sem tragar. Ele foi com minha cara e me tirou pra dançar.
Habeas corpus. Ganhei liberdade de corpo e alma, dançando e gargalhando com o meu novo amigo, o malandro Zé Pilintra.
Meia-noite. Hora do táxi-abóbora chamado por meu marido chegar. Chegou. Demorei nas despedidas do apaixonado Pilintra. Voltamos pra casa discutindo com discórdia o ambiente visitado. Só sei que a partir dessa noite, nada foi como era antes. Separamo-nos porque isso se tornou o ônus imposto pelo o que diferentemente experimentamos. A separação aconteceu após nossa experiência com os mistérios do culto afro; para o bem ou para o mal, como apregoa minha família, não saberei dizer. 


Sérgio Janma – 12.05.2012     


             

sábado, 5 de maio de 2012

Morrer é fácil; Difícil é se enterrar



Morreu no hospital de morte conhecida e esperada naquela manhã, sem chegar a acordar para o novo dia. Não precisou de autópsia. Se precisasse talvez a dificuldade fosse grande. Autópsia trabalhosa pela grandeza corporal daquele homem. Teriam muita massa pra serrar. Trabalho ele deu à família, ou melhor, a uma amiga de longa data, quase irmã. Os parentes, apesar de serem muitos, não eram dados às intimidades dos toques físicos, ainda mais numa situação dessas, depois de morto. Sobraram pra a amiga sempre solícita e aos auxiliares de enfermagem e maqueiros as árduas tarefas do derradeiro banho e o de vestir aquele volumoso corpo flácido de gorduras. Metros acima e abaixo, o homem era grande horizontal e verticalmente. Três auxiliares, dois maqueiros e a pobre frágil mulher não conseguiam levantá-lo daquela cama de ferro. Decidiram, então, rolá-lo para a maca estrategicamente colocada ao lado e o conduziram ao frigorífico daquele hospital.
A liberação daquele já rígido corpo pelo IML não fora demorada. Isso, talvez, por ser ele uma pessoa notória e popular naquela cidade. Bem nascido no berço de uma família tradicional, tinha situação financeira em dissintonia com o status social herdado. Demora teve em se encontrar algum caixão que lhe servisse bem, deixando-o confortável para a eternidade. Assim como existem lojas de vestuários para pessoas de corpos avantajados, a família descobriu depois de um tempo de pesquisa no Google que havia na cidade uma casa funerária especializada em oferecer produtos desta natureza, ou seja, caixão que daria pra uma família de sem teto morar.
No meio da tarde do mesmo dia, o defunto devidamente trajado de terno e gravata, o melhor traje do seu guarda-roupa, estava instalado em seu berço definitivo a contemplar a eternidade do seu fim. Alguns familiares e amigas íntimas lhe beijavam o rosto de duro sorriso constante. Não era mais corpo de gente. Parecia um tétrico boneco. Cara de pau beijada sem nojo pelos que o amavam. Lembrou-se alguém em pensamento, talvez um dos amigos mais íntimo, que aquela condição das carnes gordas do falecido, fosse a concretização do que ele era no seu comportamento em vida: um grande cara de pau! Homem de gargalhada fácil, fanfarrão, decidido a viver só o que lhe desse prazer da maneira mais egoísta. Filhos, ele os tinha, mas não os queria, era muita responsabilidade e perda de liberdade. Sua vida financeira era instável. Com sua potente voz rouca fazia alguns shows aqui; música ao vivo em um barzinho acolá... ganhava nesses tempos um bom dinheiro, mas nas vacas-magras, sua mulher, professora,  segurava as pontas.
Já se aproximava o horário do enterro tratado com a administração do cemitério público da cidade e nada de chegar o seu melhor amigo que, de férias, viajava de carro por outro estado, quilômetros e quilômetros de distância. A um amigo em comum coube a desconcertante missão de avisa-lo da morte. Ao atender o celular a notícia lançou-se sem nenhum Oi sequer: O Bola morreu. O quê?! Me liga daqui um minuto. Vou parar o carro no acostamento. Ah, desculpe, não sabia que você tava dirigindo.
E o amigo nada de chegar de Minas Gerais. Mas era necessário o seu último olhar, último beijo, últimas lágrimas. Já se aproximava das 19:00h de um enterro previsto para às 16:00h e nada do amigo aguardado chegar para a despedida. Passada mais meia hora ele chega, cumprindo o ritual esperado em uma situação dessa, não esperada. E o caixão, então, foi erguido pelos seus quatro filhos presentes e mais dois irmãos. Outros dois irmãos não compareceram, uma irmã que estava no Canadá e o caçula, com quem ele não se dava muito bem. O cortejo iniciou-se em adiantada hora e seguiu pelas ruas de uma cidade escurecida pela noite sem lua e sem iluminação nos postes públicos.
Os portões do cemitério ainda se mantinham abertos às 20:00h dada a importância para a cidade da personalidade morta. A cova era cavada devagar, próxima, alguns metros, do portão principal do cemitério, na passarela central. Endereço privilegiado para os de sua classe. Os dois coveiros não tinham pressa, queriam aproveitar os seus 15 minutos de fama, percebendo os holofotes das tevês, flashes dos repórteres e as presenças ilustres das autoridades do local. Tempo suficiente para a mãe do morto, um tanto idosa, gritar aos prantos coisas do tipo... deus, por que não levou a mim... por que ele, meu filho mais querido... Bola, meu Bolinha, volta! Volta!!! Deus, me leva junto! E jogava-se para cima do imenso caixão.
Caixão e seu conteúdo içado e depois arriado como um cargueiro de velas aportando no túmulo com terra, flores e lágrimas jogadas por cima. Os coveiros ajustaram a tampa da cova e cimentaram o fim de tudo, das velas e velório. Choro em silêncio. Inerte produto final de uma vida, viajando na Barca da Morte guiada por rezas e regras. 

Sérgio Janma – 05/05/2012

*Tema do Clube do Conto para esta data.