"Leia como quem beija, beije como quem escreve"
(Maxwell F. Dantas)

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

“Sobre você”


Sobre mim, respondendo a indagação “sobre você” das redes sociais e blogs, sou um mero escritor. Não tenho esse afazer como profissão. Sou amador, no sentido mais literal da palavra: amo escrever. Não faz meu estilo seguir estilos; não os tenho, nem os sigo. É bem verdade que no início, como principiante que era, tentei grotescamente imitar algum ou outro escritor admirado. Não vou aqui citá-los para não os envergonhar em está-los comparando comigo. Hoje tenho minha própria personalidade, gostem alguns ou não. Escrevo sem critérios, sem coerência de contexto textual (isso existe?). Não preservo regras castradoras da minha imaginação fictícia sempre partida do real. Afinal, afirmo e confirmo que a ficção é invenção e não mentira. E nessa minha escrita real ficcional, vêm narrativas que até a mim surpreende, por estranhas que são umas às outras. Admito fazê-las propositalmente para que não me repita e, assim, a paixão que sinto pelo fazer literatura como namoro, não vire casamento e acabe. Necessito continuar sendo amador.
Escrevo sem, sequer, usar técnicas. Aqueles esquemas previamente pensados. Em muitos dos meus textos não se identifica nem ao menos início, meio e fim. Eles existem, mas tem que se ter imaginação de leitor sem critérios. Porém, sou atento ao que meus críticos dizem. Sou aprendiz; amador como já disse e reafirmo.
A impressão que tenho sobre o pretenso escritor que sou é a de que tenho sido vários. O que escrevo autobiográfico, basicamente parte do que vivi em determinado momento do meu dia, é transformado em ficção (“aumento, mas não invento”). E como os dias são seguidos de dias, cotidianamente nem tudo é igual, escrevo o que ocorreu de inusitado pra ter uma maior sensação de intensidade de vida. E para ainda aumentar o grau e diversificar o gênero dessa minha loucura, preciso não ser a mesma pessoa todos os dias da minha vida até que a morte me separe de mim.
Desde que vim pra este mundo, tenho por identidade o nome Sérgio Nascimento e com ele, no passado, assinava meus escritos. Descobri mais tarde já existir um poeta de mesmo nome e mais conhecido do que eu e, para que não se confundissem as qualidades poéticas (confesso, nunca li nada do xará), decidi apenas fazer uma variante, como Nascimento em hindu é Janma... então, Sérgio Janma. Mas ele só já não me basta. Não tenho mais uma só identidade. Agora sou muitos.
Transfiro para esses dígitos toda essa minha ladainha mental, apenas para lhes dizer que, como Fernando Pessoa, atentando, é claro, ao imensurável desnível proporcional entre nós dois, assumirei meus alter-egos. Alter-egos que vinham sendo subservientes ao meu inflado EU. Tenho tentado, já de algum tempo, como se fosse o próprio Teseu, matar esse minotauro dentro de mim, mas são muitas as serpenteadas vias, ruelas e becos deste labirinto interior criado pelo Dédalos que também sou. Ferimo-nos mutuamente. Garanto a mim e aos outros “EUS”, bem como a todos os que chegaram até aqui nessas linhas finais, escritas pelos fios de um desenrolado novelo de lã que me dá a direção das saídas, que estou muito próximo do golpe fatal. Aquela seta certeira da espada mágica do amor que sempre vem salvadora na hora certa, pondo um fim que será o começo de outra nova vida que durará enquanto durar. Desta forma, estarei vencendo mais esse obstáculo que o destino, ou a vida, pôs e impôs no meu caminho. Poderei, enfim, dizer: O MEU EU NÃO MAIS EXISTE. Apenas EXISTO, sendo muitos indivíduos e, ao mesmo tempo, ser todos e ninguém. Tornar-me LIVRE para narrar a vida do jeito que ela quiser se me apresentar.
Bem, quanto aos nomes dos meus alter-egos, não faço a mínima idéia quais sejam; ainda não fomos formalmente apresentados. Só os sinto dentro de mim com todas as suas forças.

Por enquanto, apenas Sérgio Janma.
                 


Delta da Serpente


sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Reverso do meu mal


"Minha alma, cidade das greves sangrentas”.
(Mário de Andrade)

Ruínas de purezas.
Ilha do silêncio.
Labirintos da saudade
com aroma de Sagitário:
almíscar.

Alma:
capital da vida
recortada do pálido mapa de carne,
ossos e sangue-anêmico-rio.
Balbuciar da alma
corporificada na nudez fria,
dançando desesperanças.
Vivificação da morte
de todas as raças de almas,
deitadas sobre o mundo
de um jazz metálico
afinado com os trovões.

Canto da alma
prisioneira nos quatro cantos
da procissão de angústias gasosas...
tecendo mortes em orgasmos artesanais,
feito nuvens sobre minha loucura.
Alma de epiderme alérgica
com cheiro de suor.

Vale de olhos assombrados
pelo olhar que corta a vida.
Olheiras do desespero
vendo o dia ser queimado na caçada da morte.
Covas rasas.
Delírios...
dores escuras oscilando tonturas:
ébrio equilíbrio.
Ideais calados pela febre das flores ásperas,
enfeitando e vestindo de morte
meu estado de espírito
em estado de coma.

“... um tempo de horror mais fecundo."
(Mário de Andrade)

Neste leque de podridão,
saiu por todos orifícios de meu corpo
o vomitar do castigo imposto
pelos deuses-das-lendas-antigas.
Torneando a curva mais fechada da emoção.
Tangente.
Talhada.

Voltando-se sol rebelde
a jantar na noite calores silenciosos...
Primavera trazendo
o cheiro dos fetos
de almas envelhecidas
que nascerão paridas no silêncio das profecias.

Mastigando os vazios da noite,
encaro meu luto nos espelhos,
revidando com a luz do meu avesso.
Lavando o sangue das condensadas mortes,
excessivamente eternas,
que na escuridão um dia sorriram o mal. 

Sérgio Janma



Sombra de Adão













Volto-me à origem
da mulher não-bíblica
(O ventre está para vida,
assim como as costelas
estão para grades de sentimentos):

Lilith.
Mito oriental.
Sentimento de liberdade
encarnado na mulher.

(Sentimentos dos homens:
Medo do desconhecido interior,
do perder-se dentro de si mesmo,
do erro, da entrega.
Medo do acerto...
da vida e da morte).

Mito-Mulher
vivendo no Grande-Útero
das novas idéias.

O real complemento do homem
sem o jogo do domínio.
Sem bons ou maus.
Apenas propriedades
na diferente maneira
de ver e ser.
 
Sérgio Janma

Paz



Nas manhãs
manhamente
choveiro banho nas folhas e
flores espetadas às pontas dos galhos.

Agora
enquanto gira(s)sois
às costas bronzeadas
                        do horizonte oriental
gira-mundo
giro(a)dor
gingo.



Enquanto desenho rastros na poeira
esquivo-me das sorrateiras rasteiras
das rasteiras-ervas-daninhas
jogadas na capoeira.  

Nas tardes calientes 
na rede de renda
rendo-me à siesta
preguiçosamente.

Sérgio Janma

Ciclo Vicioso


Berços dos arrozais.
Berços dos trigais...
Berços queimados na sua passividade.
Passos do calor a ceifar a vida
na estação do sarcasmo.
Insanidade do fogo.
Berços banhados pela lava escaldante.
Feito esperma de homem em orgasmo
explodiu da mansidão dos montes
e veio se perder em passeios
entre plantações e moinhos.
Marcha nupcial do fogo
bailando sobre os campos.
Noite intragável
deságua em rumores
e engole os grãos dos ramos.

Homens e animais
tornados pedras
salinas
expõem-se para a eternidade
cansada
numa proteção de braços caídos.
Silêncio da vida.

Líquido fogo borbulhante
escorrendo entre as aragens
dos campos minados de adubo
umedecendo a fertilidade
do ventre da terra em cio
para o parto de uma nova geração.
Barro da vida.
Força eterna do fruto.

No tempo em que as lagartas
já se terão tornado borboletas
novos homens nascerão crianças
nos berços dos arrozais e dos trigais
preparados para um outro ciclo da vida...
eterna filha pródiga do tempo.

Sérgio Janma


Fim de um tempo


Não sou esse homem
velho e triste
a me olhar do espelho. 

Casa abandonada
não chama atenção na rua.

Despercebido, deito sobre a mesa
o jantar que sem sabor
esfria,
enquanto o vinho seco
gela e molha 
o tempo da espera .

Embaixo do travesseiro
o odorizado látex no envelope aberto
espera cobrir de proteção o meu tesão.

Sérgio Janma


Marinha




Cargueiro içado em alto mar.
Veleiro velado.
Silêncio andando devagar. 
Lentidão vazia.
Esperança vinda do porto...

Não há mais o cantar dos grãos.
Velho cargueiro
transportando o peso morto
de seu morto produto.
Sacas legitimadas?
Sacas clandestinas?
Pesadas.
Mortos grãos vomitados pelos fardos.
Gritos oleosos.
Fumo pesado e fantasma dos grãos queimados.
Incerteza no aroma volátil.
Alimento dos vivos
da degradativa função orgânica.
Progressiva-função-processada
progressivamente...
até chegar ao nada.
Função desativada
                         naturalmente
chegando ao fim.

Cargueiro içado em alto mar.
Velas arriadas.
Paradas.
Veladas sobre águas inseguras.
Massa líquida.
Gargalhada e choro do mar  
                          em sinfonia.
Advertência.
Corrupção que se aplaude:
cérebro do Oceano.
Velas deformadas pelo vento
passando a galopes marítimos.
Indo-se.
Velas sem os açoites do insano vento
e os sopros da tempestade embriagadora
embriagada.
Choro em silêncio.
Inerte produto final.

Sérgio Janma

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Vera(ão)mor







Saí pelo escuro
tropeçando
nas alegrias caídas de minha cama
esparramadas pelo chão do quarto
como estrelas
quando caem do céu.

Tropecei desnorteado
no gozo dos outros corpos
esparramados pelo chão


da sala-de-estar-se-amando.

Por diversas vezes
também
tropecei na felicidade
(visita marota saltitando na sala de mim)
caindo novamente na tristeza
do meu quarto
agora sem ninguém.

A felicidade
sempre foi pedra
por mim nunca vista
onde sempre tropeço
no meio-do-caminho-do-meio
Triste
Sem prumo
Caminho
Sem rumo
Sem norte.


Sérgio Janma

Passagem


Faltam-me todas as vísceras.
Corpo sem sangue.
Seco.
Por sucção o nariz expele
meus miolos.

Abro a boca:
mostro minha fome
            cariada
            carente.
E a sede espumando
            saliva
            salgada.

Quero o Raio
adubando meu corpo.
Energia
abrindo meu crânio
nesta cabeça nua e
seca.
Terra árida raspada
onde semente se vinga.

Sinto a vida
assobiar seu sopro quente
em meus neurônios.
Vapor baforando da terra
            queimada
            molhada
pelas tempestades apocalípticas.

Volto-me ao Ocidente
engolidor do fogo do Sol,
(insistente em nascer todos os dias).
Ulisses em mim
            encarnado
            encarando
minha viagem noturna
na Barca da Morte
guiada por rezas
            e regras. 

Sérgio Janma



Arque-Passarim

Hesperornis
Ave com dentes

Não voa
Não anda
Nada
Nas águas
Que lhe dão
O rumo ao desaparecimento. 

Sérgio Janma









Vaca Profanada


A guerra secou meu leite materno
mesmo antes de se romper
o cordão de nossos umbigos.
Não espera mais nada de mim.
Mata tua fome em outros seios...
mas antes
limpa a baba dos bezerros.
A guerra?
Não.
Nem a angústia.
O afã?
Sim,
apenas o valente afã dos sentidos
na dor da felicidade.
Esta imensurável estrela
plantada nos meus olhos.
Segredo pacífico na luta.

Sérgio Janma



Hai-Kai Que Não Cai


Oito é o número do poder irrestrito


Mesmo caído não morre
Deitado é 


Sérgio Janma




Mote Para uma Estória Infantil








O bobo
boi 
gaga
gago
ficou muuuu
mudo
no essss
touro
da boi
aaaada.

Sérgio Janma

Corpo e Alma



Minha alma carrega
em torno de si
meu corpo.
Sobretudo,
corpo por ela
aquecido. 

Sérgio Janma

Apenas uma nota só (ou do lúdico ao iludido)

O menino lê o livro
A cama adormece seu futuro
com leituras prometidas
debaixo do colchão
E a fada de seus sonhos fabulosos
é negra.

Ao toque mágico
da varinha de condão
surgem estrelas
(as que surgem em todos os poemas)
feito asteriscos a sustenir na pauta
a constelação de notas
monetárias
Nota onde foi anotado
o número que fará o telefone tocar
assombroso
um tango em descompasso
trágico...
dançado sobre algum arranha-céu
de qualquer megalópole.

Sérgio Janma







terça-feira, 13 de dezembro de 2011

“De Bode” se Aproveita até o Couro


         Olhei, gostei e pedi. Quero aquela cabra! Não é cabra, moço, é bode, reponde a simpática moça do Mercado. Hummm... isso não estava nos meus planos. Por uma questão de gênero, cabia mais uma cabra pra minha solidão do que um bode. Meço o bicho cinco vezes com a palma da minha mão direita. Acho que tá de bom tamanho pra o que eu quero. Serve. Por quanto me vende? 45 reais. Reponde-me categoricamente. Pago a vista, digo com bocão. Não tem nenhum descontinho?! Pechincho. Já tá na promoção, não demora já não tem mais, demonstrando não ser afeita à prosa labiosa. Desajeitado, desatolo as cédulas da carteira e a entrego com certo pesar por não ter obtido resultado que me fosse favorável na barganha. Enrola o bode num papel grosso de embrulhar pão. Coloco-o embaixo do braço. Tenho neste momento a nostálgica lembrança de, quando menino, ao voltar do armazém do seu Elói, beliscava o quentinho pão sovado de 500g, transportado embaixo do meu sovaco.
            Mas voltemos ao bode. Devo não ser faltoso com a verdade e dizer que as coisas não foram bem assim, como até agora aqui por mim narradas. Comprei um bode, sim, mas não tão inteiro... assim, na sua integridade física. Faltam-lhe alguns elementos corpóreos que o impede de ser um ser integral, total na sua plenitude de vida física. Obtive-o sem carnes para que não se corasse do sangue que também não tinha, sem ossos para mantê-lo em pé e ereto, que nem mais pés para correrem tinha, nem músculos para deixá-lo resistente e forte, sem garganta, língua e voz pra grunhir socorro, ou pra que aos berros me espantasse pra longe. Esse bode, indefeso, não tem nem cabeça pra me chifrar pelas costas.
   O que, enfim, levei pra casa foi apenas o seu belo couro de pelos ralos e vistosos.
            O couro desse bode me terá muita utilidade. Atenderá algumas de minhas necessidades mais urgentes. Primeiro o pregarei na parede do meu quarto, logo acima da cama, onde fica o buraco da caixa do ar condicionado que não instalei. Solução estética, já que o bloco de gesso com o qual fechei, destoa em textura e cor do restante da parede. Claro que num quadro foi a primeira coisa em que pensei para pregar sobre o gesso, sobre o buraco, mas quando me informei dos preços... Não tenho vocação pra colecionador das artes plásticas! Pensei em um tapete. Deve ser tão caro quanto. Reconheço que o couro de bode foi a solução mais inteligente e barata que me veio a calhar. E não é de todo “politicamente incorreto”, não! Esse bicho foi provavelmente morto pra matar a fome de muita gente em estado de inanição, ou não, talvez  apenas em selvagem comilança festiva. É a lei de Darwin! Nada mais providencial. Restou-me dele o seu couro.
            Mas a questão premente não está no buraco da parede. Está em um buraco qualquer dentro de  mim que não consigo sequer identificá-lo pra fechar... estancar o que lhe sai de dentro. Sinto-me desaçoreando. A vida se esvai feito sangria de rio... até a fossa. Até a solidão. Tô mesmo “de bode”! Expressão que dita em tempos passados, faria todo o sentido. Quero crer, preciso crer que o simples couro de um animal morto já não identificando o sexo que teve em vida, faça companhia à minha solidão. Então, aceito, resignado, na sua inerte companhia passiva, que ele seja o meu bode de estimação. Meu companheiro, minha paixão póstuma. Cúmplice mudo do que vivermos juntos. Desde que fixo na parede, sobre minha cabeça “de bode”.        


Sérgio Janma – dez/2011


quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Isca de Peixe e Espinhas

E que Shiva dance para ele a dança criadora de um novo mundo, podendo nele viver refeito. 

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A noite começou para Dartagnan com seu torpedo para sua ex-mulher e sempre amiga: - Tô angustiado. - Ponto. Só isso. E nenhum torpedo em resposta. Sem os remédios que o fazem dormir, sua angústia crônica levou-o então para as ruas. Caminhou-e-caminhou. Chegou a uma pizzaria onde talvez encontrasse seu melhor amigo. Não estava lá. Lá ficou. A música era boa. Anos 80. Saudosismo de cinqüentões. Na pizzaria não quis pizza. Pediu isca de peixe só para recordar e homenagear um tempo bom em Olinda que acabou mal. Também pediu uma cerveja e vieram logo três em um balde com muito gelo. O garçom adivinhou o quanto o seu organismo agüenta beber, ou serviu mais de uma para lhe poupar o trabalho de ser chamado tão cedo? Dartagnan achou que não terá que pagar as que não beber.
Desliga o celular. É uma maneira de tirar férias do mundo, já que não consegue tirar férias de si mesmo.
Depois das cervejas vem a isca. Após lambuzar a primeira fritura em um molho rosa, Dartagnan abocanha-a por inteira. - Coff! Coff! Coff... - Epa! Uma espinha atravessou sua garganta! - Já não se fazem isca de peixe como antigamente -, resmunga. - Antigamente era só com filé. Essa que serviram nem desossaram, pondera em silêncio, resignado. 
Poderia até ser uma metáfora: quando se isca o passado, ele vem inteiro: carne e ossos. Difícil de engolir como essa isca; ambos engasgam.
A boa música mantém Dartagnan ali. Repara o ambiente. Na mesa em frente, o gordo casal balança os ombros ao ritmo da balada romântica. Os que estão à sua direita falam em inglês... acha, ou em alemão, sabe-se lá, com a música alta não dá mesmo para ouvir nada muito bem. A mesa a sua esquerda o deixa em dúvida. Das duas, uma: como gesticulam muito, ou eles falam por Libras, ou são italianos.
Sente vontade de ir ao banheiro na metade da terceira cerveja. Onde é que fica? Na sua procura pelo alívio imediato não cruza com nenhum garçom para perguntar. Decide se deixar guiar pelo cheiro peculiar. Para sua felicidade, acha a gaiola dos desesperados com facilidade.
Dartagnan percebe que o programa para o resto da sua noite seria aquele. Bom para no máximo uma hora. Pede a conta. Volta de táxi.
Em casa, pensa no amanhã e no que ontem disse sua atual ex-mulher. Essa mulher, por ser amiga, ainda está presente no seu presente. Diferentemente da sua primeira ex-mulher que está em um passado que ela teima em querer fazê-lo presente. Presente grego. Sua amiga-e-mais-recente-ex-mulher disse que amanhã talvez fosse vê-lo. Talvez... talvez ele use sua isca e a puxe para dentro fechando a porta, aperte a bunda rija da moça ao encontro do seu pau em riste. Ou feche a porta, deixando-a do lado de fora, depois de dizer – com licença, não me leve a mal,  fica aí no meu passado, fora da minha casa, fora de mim.
Talvez Dartagnan precise ficar só. Sem querer o mundo que acabou e que, por isso, não pode ser mais seu.
Tenha talvez que parar de lançar suas iscas ao passado na intenção de pescar as sobras do que era gostoso pelo seu frescor. Porque o peixe do passado apodreceu. Trazê-lo, pela simples lembrança do prazer que ofereceu, o sufocará com as únicas coisas que sobraram: suas espinhas.

Sérgio Janma – outubro/2011

"Poesia na Roda, ÊÊÊÊ/Quem Chegou é Bem Chegado" (Oliveira Silveira)

- Canto de chamada para a Roda de Poesia-

                 Hoje as músicas não são de hoje. São antigas. Aquelas músicas latinas: “Guantanamera”, “Los Estudiantes”... um verdadeiro recital com músicas da alma. Músicas cantadas pela voz de Mercedes Sosa. Aquela gorda forte com cara de índia (talvez por ser índia) que canta forte. Voz gorda. Sua voz é a forte expressão de sua personalidade. Forte. Um corpo gordo que dança leve. Penso no peso deste corpo que dá a ideia de conforto de espírito.
            Tenho que escrever rapidamente tudo o que vejo e penso porque o tempo é curto. As luzes irão apagar-se. O recital poético logo irá começar.
            Duas vozes disputam entre si o tom dominante. O volume convence mais? Desculpas seguidas de desculpas: - Não fui lá porque pintou uma janta em MINHA casa com MEU namorado... o “Cavalo”, lembra dele?
Mas não é o que ouço o que mais me importa (até política pintou!), mas sim o que vejo: Coxas! Seios! Coxas de uma meia-morena... tostadas pelo sol. Razoáveis carnes espessas. E os seios... seios de uma branca-gringa-sensual cobertos apenas com uma camiseta branca de fina transparência. Por baixo... seios soltos. Naturais. Leitosamente naturais! Seios! Seios! Eles me fascinam... de qualquer forma... de qualquer jeito. Flácidos como duas geleias, ou os outros seios rijos da puberdade.
O recital demora. Ainda chega gente. E minha roupa é diferente.
A luz clara, aberta, dá lugar à cerrada escuridão negra. E, desflorescendo (abrindo espaços), desciam as luzes multicoloridas sobre o palco ornamentado pelo contrarregra com três decorativas cadeiras. O essencial no palco. E minha roupa é diferente. Os recitantes chegam sem camisas e sentam, sem camisas, nas decorativas cadeiras que o contrarregra colocou no palco pra que acreditássemos ter ali algum cenário.
Estou de terno-e-gravata.
Estou sentado em uma cadeira da plateia de terno-e-gravata quando o guitarista, sentado em uma cadeira, sem cantar, no canto do palco começa a tocar guitarra. Ele toca como se estivesse tocando tamborim-encouraçado-com-pele-de-gato. Batucando um samba-frevo-reggae-blues-bossanova-bolero-tango-milonga. Som rolando feito rock-and-roll. Ele é ótimo!..
Aqui... jazz.
Agora o poeta levanta. O poeta-ator. Traz um cravo branco nos cabelos-louros-longos-encaracolados como as pétalas do branco cravo nos cabelos-louros-longos-encaracolados... como as pétalas do branco cravo nos cabelos-louros-longos-encaracolados-como-as-pétalas. E o guitarista, também com cabelos, porém negro-encaracolados, continua a sambar um rock na guitarra. Os livres negros cabelos da cabeça sobre a guitarra presa pelas mãos do guitarista, acordando com carícias os acordes no braço da guitarra. Cabelos na cabeça e mãos no braço do instrumento!
Começa o recital. – Jacaré não tem pescoço/Formiga não tem coceira/Careço fazer da vida mais que uma simples brincadeira – O ator-poeta, um baixinho sem camisas e de calças brancas, cabelos-negros-compridos-sem-caracóis e de pés descalços, responde ao primeiro verso do primeiro alto poeta-ator, sem camisas e de pés descalços. E minha roupa é diferente. Estou de terno-e-gravata. O segundo, o ator-poeta, acende um Hollywood, oferece ao primeiro, o poeta-ator, e continua a recitar, repetindo o que o primeiro, o poeta-ator, recitou.
Na continuação dos poemas, reconheço alguns lugares de Porto Alegre. Mercado Público, Lomba do Pinheiro, Rua da Praia, Gasômetro... Vieram, então, os poemas de candomblé: - Oixiguidum, Oixiguidum, Oixiguidum, dum, dum... índio chupando seios tenros de índia gorda. – Áhh... os seios!
Depois interromperam e se distribuíram cópias do roteiro do recital. O poeta-ator havia se esquecido de distribuí-las antes. Enquanto isso, o guitarista toca com displicência. (Por que insisto em escrever guitarrista com um R só?!).
Os recitantes esqueceram-se dos poemas? – Os poemas são sonhos que carrego comigo. Os poemas são palavras tontas que carrego comigo... / O poeta que morreu escreveu um bilhete à humanidade. – Um lembrete. Post-script.
O segundo, o ator-poeta, declama com os braços abertos crucificados no ar. E minha roupa é diferente. Estou de terno-e-gravata. O guitarista continua a tocar, assim como continuo a escrever “guitarista”. E veio um palavrão! E veio Porto Alegre a ser novamente citada: - Casas erguidas sobre os túmulos. – Poema baixo-astral: - Tanta angústia na pele da cidade.
De repente, a surpresa: o primeiro, o poeta-ator, chama pelo nome alguns integrantes do grupo teatral de nome Pra Qtê Nome. Propõe-se recitar um poema do roteiro daquele recital poético. Os recitantes vão para a plateia e todos do grande grupo da plateia vão para o palco (a plateia fica quase vazia) e recitam, lendo o poema. Jogral ginasiano. – Falta de ensaio... fomos pegos de surpresa... Desculpas e mais desculpas, seguidas de desculpas.
Agora os recitantes voltam ao palco pra recitarem com toucas de lã. Não sem antes fazerem a devida e justa propaganda de quem às confeccionou que, por mera coincidência, é atriz do grupo Pra Qtê Nome. Toucas de lã para os poemas saírem quentinhos da cabeça?
O ator-poeta recita poemas e o poeta-ator caminha passos sem camisas pelo palco. Ambos de toucas. Uma touca cada um. Toucas diferentes entre si, uma da outra. E minha roupa é diferente. Estou de terno-e-gravata. Sem touca como o guitarista sem touca que toca rock, toca blues. O guitarista toca blues com espírito e o público o acompanha com palmas. Enquanto os recitantes antropofagicamente dançam o blues com  p-e-l-v-e-s-s-i-d-a-d-e. Recitam os conceitos do amor. Incitam o público a acompanhá-los com palmas no ritmo do blues. E em meio a outro poema se falou em seios. Meu maior tesão! Seios pequenos... os do poema. Mas o outro recitante, o ator-poeta-malicioso, interrompe o poeta-ator-puro e diz: - Não tão pequenos assim! – Seios! De terno-e-gravata concordo.
Uiva o solo da guitarra.
Aplausos com as mãos da mesma emoção.
Vieram com cheiro de indignação e sangue os poemas impertinentes dos latinos. Depois de um poema revolucionário de Federico Garcia Lorca, entra uma inesperada bicha desesperada e declama histérica, com muitos gestos requebra-estereotipados, um poema de amor de Lorca. Ao terminar, abraça-se emocionado no primeiro, o poeta-ator, que dos dois recitantes é o mais bonito.
Os dois recitantes levam a plateia a assoviar feito passarinho. Foi uma passarada a cantar em diversos idiomas e tons florestais e eu... passarim, passo a assoviar vento sonoro. Sopro. Ânima macunaimando. E minha roupa é diferente. Estou de terno-e-gravata.
Vieram também os poemas infantis. Alguns até que eram pra crianças. Ao final do recital, os recitantes, o poeta, o ator e o músico passam o chapéu. Nada mais justo, já que o ator vive do teatro, o músico da música... o poeta vive de viver a vida.
O recital terminou, tendo a continuidade dos poemas. Recitais! Recitais!
E minha roupa é diferente. Estou de terno-e-gravata, terno.
Saio do anfiteatro com meu cravo na mão, para depois cravá-lo nos cabelos. Saio do anfiteatro diferente. Estranhamente diferente. Convertido pela vertente dos versos, saio poeta.

Sérgio Janma – 11/85