"Leia como quem beija, beije como quem escreve"
(Maxwell F. Dantas)

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Isca de Peixe e Espinhas

E que Shiva dance para ele a dança criadora de um novo mundo, podendo nele viver refeito. 

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A noite começou para Dartagnan com seu torpedo para sua ex-mulher e sempre amiga: - Tô angustiado. - Ponto. Só isso. E nenhum torpedo em resposta. Sem os remédios que o fazem dormir, sua angústia crônica levou-o então para as ruas. Caminhou-e-caminhou. Chegou a uma pizzaria onde talvez encontrasse seu melhor amigo. Não estava lá. Lá ficou. A música era boa. Anos 80. Saudosismo de cinqüentões. Na pizzaria não quis pizza. Pediu isca de peixe só para recordar e homenagear um tempo bom em Olinda que acabou mal. Também pediu uma cerveja e vieram logo três em um balde com muito gelo. O garçom adivinhou o quanto o seu organismo agüenta beber, ou serviu mais de uma para lhe poupar o trabalho de ser chamado tão cedo? Dartagnan achou que não terá que pagar as que não beber.
Desliga o celular. É uma maneira de tirar férias do mundo, já que não consegue tirar férias de si mesmo.
Depois das cervejas vem a isca. Após lambuzar a primeira fritura em um molho rosa, Dartagnan abocanha-a por inteira. - Coff! Coff! Coff... - Epa! Uma espinha atravessou sua garganta! - Já não se fazem isca de peixe como antigamente -, resmunga. - Antigamente era só com filé. Essa que serviram nem desossaram, pondera em silêncio, resignado. 
Poderia até ser uma metáfora: quando se isca o passado, ele vem inteiro: carne e ossos. Difícil de engolir como essa isca; ambos engasgam.
A boa música mantém Dartagnan ali. Repara o ambiente. Na mesa em frente, o gordo casal balança os ombros ao ritmo da balada romântica. Os que estão à sua direita falam em inglês... acha, ou em alemão, sabe-se lá, com a música alta não dá mesmo para ouvir nada muito bem. A mesa a sua esquerda o deixa em dúvida. Das duas, uma: como gesticulam muito, ou eles falam por Libras, ou são italianos.
Sente vontade de ir ao banheiro na metade da terceira cerveja. Onde é que fica? Na sua procura pelo alívio imediato não cruza com nenhum garçom para perguntar. Decide se deixar guiar pelo cheiro peculiar. Para sua felicidade, acha a gaiola dos desesperados com facilidade.
Dartagnan percebe que o programa para o resto da sua noite seria aquele. Bom para no máximo uma hora. Pede a conta. Volta de táxi.
Em casa, pensa no amanhã e no que ontem disse sua atual ex-mulher. Essa mulher, por ser amiga, ainda está presente no seu presente. Diferentemente da sua primeira ex-mulher que está em um passado que ela teima em querer fazê-lo presente. Presente grego. Sua amiga-e-mais-recente-ex-mulher disse que amanhã talvez fosse vê-lo. Talvez... talvez ele use sua isca e a puxe para dentro fechando a porta, aperte a bunda rija da moça ao encontro do seu pau em riste. Ou feche a porta, deixando-a do lado de fora, depois de dizer – com licença, não me leve a mal,  fica aí no meu passado, fora da minha casa, fora de mim.
Talvez Dartagnan precise ficar só. Sem querer o mundo que acabou e que, por isso, não pode ser mais seu.
Tenha talvez que parar de lançar suas iscas ao passado na intenção de pescar as sobras do que era gostoso pelo seu frescor. Porque o peixe do passado apodreceu. Trazê-lo, pela simples lembrança do prazer que ofereceu, o sufocará com as únicas coisas que sobraram: suas espinhas.

Sérgio Janma – outubro/2011

"Poesia na Roda, ÊÊÊÊ/Quem Chegou é Bem Chegado" (Oliveira Silveira)

- Canto de chamada para a Roda de Poesia-

                 Hoje as músicas não são de hoje. São antigas. Aquelas músicas latinas: “Guantanamera”, “Los Estudiantes”... um verdadeiro recital com músicas da alma. Músicas cantadas pela voz de Mercedes Sosa. Aquela gorda forte com cara de índia (talvez por ser índia) que canta forte. Voz gorda. Sua voz é a forte expressão de sua personalidade. Forte. Um corpo gordo que dança leve. Penso no peso deste corpo que dá a ideia de conforto de espírito.
            Tenho que escrever rapidamente tudo o que vejo e penso porque o tempo é curto. As luzes irão apagar-se. O recital poético logo irá começar.
            Duas vozes disputam entre si o tom dominante. O volume convence mais? Desculpas seguidas de desculpas: - Não fui lá porque pintou uma janta em MINHA casa com MEU namorado... o “Cavalo”, lembra dele?
Mas não é o que ouço o que mais me importa (até política pintou!), mas sim o que vejo: Coxas! Seios! Coxas de uma meia-morena... tostadas pelo sol. Razoáveis carnes espessas. E os seios... seios de uma branca-gringa-sensual cobertos apenas com uma camiseta branca de fina transparência. Por baixo... seios soltos. Naturais. Leitosamente naturais! Seios! Seios! Eles me fascinam... de qualquer forma... de qualquer jeito. Flácidos como duas geleias, ou os outros seios rijos da puberdade.
O recital demora. Ainda chega gente. E minha roupa é diferente.
A luz clara, aberta, dá lugar à cerrada escuridão negra. E, desflorescendo (abrindo espaços), desciam as luzes multicoloridas sobre o palco ornamentado pelo contrarregra com três decorativas cadeiras. O essencial no palco. E minha roupa é diferente. Os recitantes chegam sem camisas e sentam, sem camisas, nas decorativas cadeiras que o contrarregra colocou no palco pra que acreditássemos ter ali algum cenário.
Estou de terno-e-gravata.
Estou sentado em uma cadeira da plateia de terno-e-gravata quando o guitarista, sentado em uma cadeira, sem cantar, no canto do palco começa a tocar guitarra. Ele toca como se estivesse tocando tamborim-encouraçado-com-pele-de-gato. Batucando um samba-frevo-reggae-blues-bossanova-bolero-tango-milonga. Som rolando feito rock-and-roll. Ele é ótimo!..
Aqui... jazz.
Agora o poeta levanta. O poeta-ator. Traz um cravo branco nos cabelos-louros-longos-encaracolados como as pétalas do branco cravo nos cabelos-louros-longos-encaracolados... como as pétalas do branco cravo nos cabelos-louros-longos-encaracolados-como-as-pétalas. E o guitarista, também com cabelos, porém negro-encaracolados, continua a sambar um rock na guitarra. Os livres negros cabelos da cabeça sobre a guitarra presa pelas mãos do guitarista, acordando com carícias os acordes no braço da guitarra. Cabelos na cabeça e mãos no braço do instrumento!
Começa o recital. – Jacaré não tem pescoço/Formiga não tem coceira/Careço fazer da vida mais que uma simples brincadeira – O ator-poeta, um baixinho sem camisas e de calças brancas, cabelos-negros-compridos-sem-caracóis e de pés descalços, responde ao primeiro verso do primeiro alto poeta-ator, sem camisas e de pés descalços. E minha roupa é diferente. Estou de terno-e-gravata. O segundo, o ator-poeta, acende um Hollywood, oferece ao primeiro, o poeta-ator, e continua a recitar, repetindo o que o primeiro, o poeta-ator, recitou.
Na continuação dos poemas, reconheço alguns lugares de Porto Alegre. Mercado Público, Lomba do Pinheiro, Rua da Praia, Gasômetro... Vieram, então, os poemas de candomblé: - Oixiguidum, Oixiguidum, Oixiguidum, dum, dum... índio chupando seios tenros de índia gorda. – Áhh... os seios!
Depois interromperam e se distribuíram cópias do roteiro do recital. O poeta-ator havia se esquecido de distribuí-las antes. Enquanto isso, o guitarista toca com displicência. (Por que insisto em escrever guitarrista com um R só?!).
Os recitantes esqueceram-se dos poemas? – Os poemas são sonhos que carrego comigo. Os poemas são palavras tontas que carrego comigo... / O poeta que morreu escreveu um bilhete à humanidade. – Um lembrete. Post-script.
O segundo, o ator-poeta, declama com os braços abertos crucificados no ar. E minha roupa é diferente. Estou de terno-e-gravata. O guitarista continua a tocar, assim como continuo a escrever “guitarista”. E veio um palavrão! E veio Porto Alegre a ser novamente citada: - Casas erguidas sobre os túmulos. – Poema baixo-astral: - Tanta angústia na pele da cidade.
De repente, a surpresa: o primeiro, o poeta-ator, chama pelo nome alguns integrantes do grupo teatral de nome Pra Qtê Nome. Propõe-se recitar um poema do roteiro daquele recital poético. Os recitantes vão para a plateia e todos do grande grupo da plateia vão para o palco (a plateia fica quase vazia) e recitam, lendo o poema. Jogral ginasiano. – Falta de ensaio... fomos pegos de surpresa... Desculpas e mais desculpas, seguidas de desculpas.
Agora os recitantes voltam ao palco pra recitarem com toucas de lã. Não sem antes fazerem a devida e justa propaganda de quem às confeccionou que, por mera coincidência, é atriz do grupo Pra Qtê Nome. Toucas de lã para os poemas saírem quentinhos da cabeça?
O ator-poeta recita poemas e o poeta-ator caminha passos sem camisas pelo palco. Ambos de toucas. Uma touca cada um. Toucas diferentes entre si, uma da outra. E minha roupa é diferente. Estou de terno-e-gravata. Sem touca como o guitarista sem touca que toca rock, toca blues. O guitarista toca blues com espírito e o público o acompanha com palmas. Enquanto os recitantes antropofagicamente dançam o blues com  p-e-l-v-e-s-s-i-d-a-d-e. Recitam os conceitos do amor. Incitam o público a acompanhá-los com palmas no ritmo do blues. E em meio a outro poema se falou em seios. Meu maior tesão! Seios pequenos... os do poema. Mas o outro recitante, o ator-poeta-malicioso, interrompe o poeta-ator-puro e diz: - Não tão pequenos assim! – Seios! De terno-e-gravata concordo.
Uiva o solo da guitarra.
Aplausos com as mãos da mesma emoção.
Vieram com cheiro de indignação e sangue os poemas impertinentes dos latinos. Depois de um poema revolucionário de Federico Garcia Lorca, entra uma inesperada bicha desesperada e declama histérica, com muitos gestos requebra-estereotipados, um poema de amor de Lorca. Ao terminar, abraça-se emocionado no primeiro, o poeta-ator, que dos dois recitantes é o mais bonito.
Os dois recitantes levam a plateia a assoviar feito passarinho. Foi uma passarada a cantar em diversos idiomas e tons florestais e eu... passarim, passo a assoviar vento sonoro. Sopro. Ânima macunaimando. E minha roupa é diferente. Estou de terno-e-gravata.
Vieram também os poemas infantis. Alguns até que eram pra crianças. Ao final do recital, os recitantes, o poeta, o ator e o músico passam o chapéu. Nada mais justo, já que o ator vive do teatro, o músico da música... o poeta vive de viver a vida.
O recital terminou, tendo a continuidade dos poemas. Recitais! Recitais!
E minha roupa é diferente. Estou de terno-e-gravata, terno.
Saio do anfiteatro com meu cravo na mão, para depois cravá-lo nos cabelos. Saio do anfiteatro diferente. Estranhamente diferente. Convertido pela vertente dos versos, saio poeta.

Sérgio Janma – 11/85 
 

A doença que curou outra doença




            Por Sérgio Janma, para o Clube do Conto 

Na minha pré-adolescência comecei a usar óculos. Eram senhores óculos! Grandes, de acrílico e de cor preta. Ganhei-os de uma tia que era funcionária do INPS (era início da década 70). Na verdade, não foi ela quem me presenteou com tal artigo, apenas aproveitou-se de um dos programas sociais deste instituto para contribuinte de baixa renda. Então, eram óculos de “graça” custeados pelo dinheiro público. Material de baixo custo, grosso e grotesco, sem nenhuma noção de estética moderna que isso é frescura só de grifes e, vá lá, minha também. Óculos sem nenhum look. Bem, o fato é que vestindo meus olhos com esse trambolho, pareceria mais estar com uma máscara se não fosse pelas grossas lentes corretoras da minha alta miopia. Não havia nenhuma sombra de dúvidas pra ninguém que o meu caso era de cegueira parcial por trás de dois fundos de garrafas.
Mas minha vaidade era ainda mais aguda que a miopia. Essa vaidade, própria daquela idade, fora terrivelmente agredida, ultrajada, vilipendiada por aquele par de óculos. Enfrentei minha adolescência, atravessando-a como um Ulisses cego atravessando seus oceanos. Sobrevivi aos naufrágios da puberdade. Mas minha autoestima nocauteada dormia pesada sob a sola dos meus pés. Continuei vivo para só mais tarde, já pré-adulto, comprar o meu primeiro par de lentes de contato. Costumo dizer, digo, pensar que na minha vida existe o antes e o depois das tais gelatinosas lentes de contato. Eu tratava essas lentes como às duas meninas dos meus olhos. Dava-lhes banho-maria na água fervente, além de usar um xampu apropriado para equilibrar o seu Ph. Colocava-os para dormir dentro dos seus respectivos estojos como se eles fossem suas caminhas.
            Um oftalmologista, também cirurgião, acompanhava os meus problemas oculares, entre eles a miopia com seu crescimento galopante, inflamações de todo tipo, alergias, secura e tal. O tal fez-me, então, uma proposta puramente financeira, visto ser muito rentável para ele.  Qual seja: disse ele que aqui na Paraíba não se faz cirurgia para corrigir miopia. Portanto, se eu quisesse ver-me livre dessa deformação no globo ocular que me perseguia durante décadas, teria que viajar até a cidade de Natal e fazer, com ele, a tal intervenção cirúrgica. Juntando os preços da tal cirurgia, clínica, equipe médica que teria que se deslocar até o estado vizinho, minha própria viagem, estadias minhas e dos médicos, dava uns módicos vinte mil reais.
Mentalmente dei-lhe uma banana. Da minha boca saiu apenas um educado não, obrigado.
O mesmo profissional da saúde dos olhos dos outros, estranhou o fato de a minha miopia estar aumentando drasticamente em pouco tempo: em apenas dois meses passou de nove graus e meio para dez e meio. Além das minhas queixas de enxergar tudo nuveado. Então, aventou a possibilidade de os meus olhos terem sido acometidos por cataratas.
O excesso de zelo com meus olhos me fez vítima de mim mesmo, isto é, o uso excessivo de colírios anti-inflamatórios com corticoide não mataram minhas meninas dos olhos, mas foi forte o bastante para destruir seus cristalinos. Perdi minha visão clara das coisas, do mundo fora das minhas órbitas. Cataratas precipitaram-se sobre meus dois olhos. Dez graus e meio de miopia em cada olho foi o caro preço que tive que pagar pelo pecado da vaidade. Mais caro ainda foi o alto preço que paguei pela cirurgia para a remoção dos meus cristalinos opacos, implantando duas perfeitas lentes que os substituíram artificialmente. Eu quis as melhores, importadas, é claro.
            Se minha tia, hoje já aposentada, estivesse ainda trabalhando no seu INSS, solícita me ofereceria essas cirurgias de cataratas de graça. Evidentemente, as lentes não seriam tão sofisticadas quanto as importadas.
            Cirurgia feita no primeiro olho, notícia boa, ainda que tardia. Conseguimos zerar a miopia neste olho. Esperamos obter o mesmo sucesso com o outro olho. Quê?! Como assim? É que nesse tipo de cirurgia invasiva, aproveita-se para fazer uma ou duas pequenas incisões no fundo do olho para encurtar a trajetória da linha da retina... você só vai ficar com a visão curta. Mas o grau de presbiopia será muito pequeno, coisa que o uso de óculos para ler de perto não possa resolver.
            Não usar óculos a maior parte do dia era o sonho de toda minha vida. Minha adolescência veio-me à tona da consciência.    Toda a timidez advinda do uso daqueles óculos... o bullying nas palavras pronunciadas pelos coleguinhas. Olha lá o ceguinho! Que “fundo de garrafa” mais feio! Azarar uma menina?! Improvável. Veja a situação: se ela caísse na lábia que eu não tinha, viria o beijo. Como? Se sem os óculos eu não achava nem minha própria boca!
            Deu-me uma vontade de beijar o cirurgião-oftálmico. Não o fiz. Ele salvou minha autoestima, dando-me muito mais felicidade terrena, mas a lembrança da sua proposta anterior, indecente, de ir à cidade de Natal... uns vinte mil reais... Mafioso! Mercenário da saúde alheia! Filho da puta!
            Só hoje me dei conta do hilário de toda essa história. Se eu não tivesse exagerado na dose de colírios com corticoide, provocando as cataratas ópticas, não teriam as cirurgias. Será que, inconscientemente, busquei as cataratas que acabariam de vez com minha miopia? O certo é que agora vejo que as cataratas curaram minha visão.    

Por causa daquela chuva, choveu lua.





Por Sérgio Janma, para o Clube do Conto.

Por quê estar lá? No início ninguém sabia. Será que alguém um dia ficou sabendo? Algumas perguntas insólitas ficaram no ar: por quê as camisinhas? O “Surubatã” (assim era graciosamente chamado Ubiratã, o anfitrião que transbordava testosterona) ficou de fazer melhor uso desses látex no próximo fim-de-semana, quiçá sem chuva, com seu grupo de marxistas, melhor dizendo, grupo-de-teatro-de-linha-político-social.
Não é disso que interessa falar! Porra! Tenho que falar dos cogumelos brotados depois do fim daquela chuva. Essas plantas que não se plantam merecem melhor e mais consideração da minha parte. Fui o primeiro a avistar os sagrados vegetais, rompendo-se dos estercos úmidos que estavam longe do castelo, perto do lago. Viscosos cogumelos meio beges, meio cinzas... Nós dois, os de sagitário, corremos em disparada até os frutos da merda bovina em eufóricas gargalhadas. Curvamo-nos. Reverenciamos e tal, o tal sagrado vegetal nascido dos despejos do animal, também sagrado, cantando-e-dançando: “A uni cuni ti, a uni ti (2x) Ai, ai, ai, ipi ai, caeni (2x) Aú, aú, a uni qui ti.” Canto indígena que ninguém ali sabia que diabos significava. O que importava era o efeito que ele causava, quando cantado e dançado de forma ritualística.
Não nos importaríamos tomar a chuva que ainda prometia cair, repetindo-se mais uma vez. Como também não teria a menor importância pisarmos sobre as rosetas para colhermos todos os cogumelos nascidos das bostas daquele campo. Na nossa euforia, a dela e a minha, algo se fazia mais urgente. Lançamo-nos ao lago, arrancando nossas roupas molhadas da chuva e da água-barrenta-doce que nos submergia até o peito. Derretido sexo nas águas. Líquidos salgados e doces.
Voltamos, não só com todos os vegetais, como também com uma carcaça da cabeça de uma vaca. Ela não fedia. O forte sol dos dias do verão findando secou o que os urubus deixaram grudado nos ossos. Seria um troféu a se levar para a cidade.
Esperamos até mais tarde, quando o social-latifundiário dormiu em seu castelo feudal. Pra quê esperar? Advinha o que advinha acontecer. Juntando-se a nós, os bons, vieram os outros anarco-visitantes para bebermos o chá e o chimarão. Amarga fitoterapia.
A experiente “Madame Satã”, assim chamada por ser cantora de um inferninho na cidade, fora incumbida de preparar o chá com a devida técnica conhecida só por ela. Ninguém melhor do que uma mulher vinda do fogo, ariana que é, pra nos ensinar o que não é desse mundo... mas que também nasce da terra.
Paulo “Schimia” (menção ao seu sobrenome, Schimit) tornou-se o voluntário que não beberia aquele preparado. Seria o escriba que empunharia a caneta, a fim de registrar todas as reações dos que do líquido bebessem. Quando o chá fora servido quente na cuia, misturado com o chimarão, “Schimia” já havia escrito na primeira folha do seu caderninho: “Noite dos cogumelos em Pasárgada.”
Passado alguns minutos, aguardávamos ansiosos os efeitos daqueles frutos nascidos nos fungos das bostas. Demorou, demorou... mas veio. O efeito da lua, cheia, crescendo... crescendo... e crescendo. Enchendo... enchendo... e enchendo. Enchendo nossas cabeças sugestionáveis, fazendo os nossos sentidos se projetarem. A lua desceu sobre nossas cabeças. Não descendo como estrela cadente desce. Desceu... desceu... e desceu até tomar conta de toda a imensidão do céu, até então escuro. Depois, nossa visão teve seu sentido fragmentado: zil luas; para quantos quisessem escolher uma particular para si.
Dormimos todos ali, naquela varanda, daquele pseudo-castelo, com a íntima e cúmplice esperança de que chovesse novamente... os nossos sonhos-sonhados, chovidos daquela lua.
Não choveu nem sonhos, nem água. Apenas precipitou-se aquela noite perdida num fim-de-verão de um tempo instável e distante.



     

Um tempo cinza irremediável

Em frente ao prédio sobre pilotis: 12h45min. Quinze minutos antes do QUASE-GRANDE-ENCONTRO marcado. O homem-porteiro anuncia meu nome via porteiro-eletrônico. No elevador, aperto o botão dois. Em menos de dez segundos a porta do elevador se abre ao meio. Tenho medo de andar pelo corredor daquele andar escuro. Não acho o interruptor que interrompe a escuridão. Sem que eu igniçasse nenhuma ação, acendem-se as luzes. Fiat Lux. De repente, vejo-me exposto num palco iluminado. Com ilusões ainda por se perderem, me visto com tênis e, para aumentar minha brincadeira de querer ser ainda adolescente, brinco de ônix na orelha esquerda. Pressionando um dos meus pulsos, o relógio a medir freqüência de tempo nas grossas ondas da lenta maré sanguínea. Na cabeça, essa louca touca a esquentar as minhas adquiridas ilusões de palhaço.
Antes de eu fazer a campanhinha soar din-don-din-don, a porta se abre após o olhar no olho através dela, magicamente. O homem é verticalmente alto e de uma magreza mística que sugere ser o seu corpo um templo zen. Revela-se igualzinho às suas aparições na tevê e nas fotos em jornais e revistas: veiazinhas azuis em seu nariz de perfil grego e queixo grande com furinho na ponta.
Pareço ser o discípulo Gorki em visita ao seu grande mestre Korolenko. Nosso PRIMEIRO-GRANDE-ENCONTRO. Confirmando apresentações prévias, trocamos nossos nomes, acenos-de-cabeças e signos. Ele, Virgem, eu, Sagitário.
- Entra. – Sua voz grave, barítono, convida. – Fica à vontade. - É magro, mas tem a voz gorda, pondero espirituosamente, achando graça do que penso.
- Tá tudo uma bagunça. - Desculpa-se. No sofá para dois, ajeita as almofadas para que eu acomode as dores de minhas costas e vai à cozinha. Sento. – Levantei agora. Quer um cafezinho? Tá novo... Passei a noite inteira trabalhando na revisão do meu novo livro. Tá pronto... Acabei de passar. Na verdade, é cevada. Vomitei muito durante a madrugada, depois de chorar por, depois de sonhar com. Ana Cristina César, conheceu? Minha amiga que tecia poesias e... morreu de... Aceita? - Não sei se convém. Afinal, acho melhor café do que cevada, quase digo. – Aceito, mas confesso que a cafeína é meu único vício. – Soa minha voz em pura indelicadeza ingênua.
Esticando seu longo pescoço até a porta da cozinha para a sala, mostra a sua cabeça de cabelos ralos e pergunta: - Gosta de açúcar mascavo? – Respondo que sim. Tudo tão natural. – Quantas colheres? – Duas e meia. – Determino. Na realidade, costumo colocar até quatro colheres de açúcar cristalizado nas minhas tinturas de café.
- Há dois dias fiz uma cirurgia nas gengivas, - anuncia, ao chegar à sala equilibrando as xícaras sobre os pires. – por isso não posso beber nada muito quente.
A cocaína corroendo as cartilagens, deduzo, porém não chego a dizê-lo.
- Acho o teu texto mais louco aquele que conta – jogando o foco da luz sobre ele - a estória de doze pessoas loucas, presas em uma casa cercada por cachorros loucos.
Concorda: - É dele que mais gosto. Mas foi um parto difícil. Teve vezes de eu ter que sair às ruas, impulsionado por personagens torturados que precisavam respirar. Levaram-me às festas, bares... Um zumbi conduzido por estes personagens que ganharam vida com meu corpo. Fizeram-me caminhar chorando compulsivamente, até que a noite me abraçasse para. – Deu com os ombros.
Senti não sei bem o quê com estas revelações. Talvez um tipo de medo ainda não catalogado. E tentando me equilibrar naquela corda-bamba que se mostrou ser a sensibilidade do meu novo amigo, antes que destoasse, dissimulo, retomando o controle do remoto assunto: meu desejo de montar seu texto, adaptando-o para a linguagem do teatro.
- Imagino que deve tê-lo escrito em circunstâncias especiais. – Supus, quase compreensivo. Divaguei em mais suposições. Falei e falei com prazer. Com atenção descansou seus olhos grandes sobre mim. Interessou-se. Passei-lhe segurança no que dizia. Passou a confiar em mim pelo o quanto eu conhecia e dominava o seu texto. Passei então a perceber que havia caído em sua graça, quando começou a me passar dados sobre e em que condições o conto foi escrito.
- É. Comecei a escrevê-lo a partir daquele poema do Henrique do Valle, “Uma Flor Num Buraco de Calçada”, conhece? O poema fala em cachorros loucos, chá de ervas do campo e solidão.
- Em um momento empaquei. – Revela. – Parei. O conto ficou engavetado até que me veio às mãos o “Poema de La Saeta”, de Federico Garcia Lorca: “Cirio, candil/ farol y luciérnaga/ La constelación/ de la saeta/ Ventanitas de oro/ tiemblan/ y en la aurora se mecen/ cruces superpuestas / Cirio, candil/ farol y luciérnaga.” Aí, deslanchou.
- Sabe a qual signo pertence cada personagem? – Querendo saber se eu havia matado a charada.
Como eu vinha experimentando corporalmente o seu texto nas oficinas de teatro, começo logo a ditar os nomes e os signos, alguns deles revelados pelos seus arquétipos. Ele conferindo e eu acertando. Faltaram quatro que nem mesmo ele lembrou. Vai até ao quarto dizendo resolver tudo em um instante. Agora sou eu quem estica o pescoço, conseguindo ver as estantes que fazem daquele quarto algo parecido com uma biblioteca.
Volta de mãos dadas com o seu livro.
- Assim fica mais fácil desvendar todos os seus mistérios. – Exibe a capa, igual a um pai mostrando a cara do filho que muito lhe orgulha.
Abre o livro e, folheando, com algumas leituras chega a quem pertencem os signos que sobraram. BINGO!
- E a Décima Terceira Voz? - Pergunto, como se tivesse caído uma maçã sobre minha cabeça, despertando-nos de repente das considerações que fazíamos. – Ela é fragmentada. – Relembro. – Vem de um personagem não corpóreo, etéreo, ou não, já que tem a cabeça raspada. Raspada por quê?! É uma pessoa louca em uma instituição psiquiátrica? Artaud? – Continuo com minha metralhadora de perguntas que mais parecem respostas. – É Obaluaê? (Oba- Lua- Ê, fica melhor assim?). É o mais provável por ele jogar búzios. – Pondero. - Ou, ela mesma, a Décima Terceira Voz, seria uma personagem? – Questiono, por fim.
- Taí... Gostei. A Décima Terceira Voz tem a ver com tudo isso. – Concorda, dando por suspenso o assunto.
- Bom, já que sou um virginiano com um pé fincado no meu ascendente escorpião e o outro em capricórnio, onde está a minha lua, vou arrumar esta sala.
Ajudo-o. Levo as duas xícaras vazias até a cozinha e as lavo. Da sala ele grita alguma coisa como estar morando só.
Faxina pronta. Ele volta ao quarto para trocar de roupas. Cruza sem camisa pela porta aberta. Vejo um sinal em seu ombro esquerdo. Provavelmente de nascença. Será que é dali que sai a sua luz?
Veste roupas básicas, aciona a secretária eletrônica e me pergunta se tá tudo em cima. Estava.
Saímos pela única porta de entrada-e-saída daquele pequeno apartamento de apenas um quarto. A porta batida às nossas costas se fecha com violência própria. Produzindo som seco que mais me pareceu flecha percorrendo, de cima para baixo, cada uma de minhas vértebras. Senti um frio na espinha. Arrepiei. Porta que o futuro confirmaria se fechar permanentemente para mim.
Passando à minha frente, no corredor novamente iluminado, ele caminha bambo. Pernas longas tentando equilibrar a tenra saúde do corpo e as tonturas da cabeça.
– Esqueci de te perguntar: - lembra. – Qual é o nome do teu grupo? – “Talento... Acelera!” – Respondo em só fôlego.
Encaixotados no elevador social espelhado ao fundo, apenas nós dois somos quatro. Pergunto à sua imagem embaçada no espelho, desde quando mora em Sampa. Respondeu-me, olhando diretamente ao real de mim, que mora esporadicamente, entre idas e vindas de viagens a trabalho, desde 68. De lá pra cá, um tempo no Rio de Janeiro e uma volta a Porto Alegre. No começo de 73 viajou para Europa. Em Estocolmo, foi lavador de pratos e garçom, em Amsterdã, desempregado. E em Londres trabalhou como “cleaner”, lixeiro e modelo de belas artes e fotografia.
- É! Estava, digamos... “ahippieando”. – Brinco com sua resumida biografia. Entendeu, mas não achou tanta graça.
Na rua, eu pelo lado de dentro, ele pelo lado de fora da calçada, como se estivesse responsabilizando-se por minha segurança. Irmão mais velho protegendo o irmão mais novo das ameaças da cidade grande.
- Gosta de comida natural? Tô te levando para um restaurante que só serve isso.
- Há um ano que faço macrobiótica. – Minto esta meia verdade, já que pelo menos em três noites na semana vou às pizzarias me intoxicar.
Chegamos.
Sentados à mesa, um em frente ao outro, sugere que eu escolha o cardápio. Leio como se lê a um dicionário. Escolho. Arroz integral, abóbora, verdura, suflê de chuchu. Ele revela ser o sushi o seu prato predileto... Só que aquele não é um restaurante japonês.
Enquanto a comida não vem, ele pede duas águas de côco que são prontamente servidas in-natura. Por mais esforço que ele faça a água não sobe. Chama o garçom e pede que seja trocado o seu canudo quebrado. Trocam, quando o meu côco verde está seco. É a primeira vez que bebo água de côco.
Chegam os pratos.
- O que querem beber? - Pergunta o garçom a ele que, olhando-me, transfere a mim a escolha. - Água mineral com gás. - Desculpe-me, mas aqui não servimos mineral com gás. – Responde a mim o garçom.
É claro, estamos em um restaurante só de coisas naturais. Água com gás natural não é água gaseificada, penso em retrucar.
Calamos.
Passamos simplesmente a contemplar a imagem do silêncio.
A falta de assunto ameaça a pesar indigesta sobre a mesa. Cinqüenta mordidas nos alimentos a cada vez em que se enche a boca. Incômodo silêncio das nossas mastigações até eu lhe falar (com a presunção própria dos meus vinte e poucos anos): - Também escrevo. – Digo-lhe isso quase que naturalmente, só não o sendo por tão rápida a frase ter saído de minha boca. Como se eu fosse obrigado a me livrar destas duas palavras que me queimavam por dentro. – É quando – prossigo - exorcizo a angústia, diluindo-a até que navegue endovenosa, para fora de mim. Mas na contramão ela volta insistente, como uma diasfixia. É aí, então, que as frases ficam aflitas por um ponto final. – Ele me olha com um olhar interessado. Continuo. - As pessoas ao lerem o que escrevo, acham-me original por usar uma cadeia-de-palavras-que-estão-em-torno-de-uma-mesma-idéia-ou-sentido. Às vezes sou até monofrásico. Utilizo-me também do meu próprio neologismo. Mas digo a elas que não estou sendo original, apenas sigo o estilo Caiu Fernando Abreu de escrever.
- Uma amiga minha- novamente amiga sua - disse que a criação nunca é original. No máximo recolhemos os lixos da arte e os somamos, resultando numa recriação. Já leu Ulisses? – Pergunta à queima roupa.
- Não... - Constrangido por não saber de quem se tratava, indago: - O quê Ulisses escreveu?
- Nada. Ele é que foi escrito por Joyce. James Joyce. – Assume um ar professoral. – Ulisses é o divisor. Existe a literatura antes e a depois deste livro que até hoje é a bíblia dos escritores pós. Em respeito à sua língua mãe, Joyce não assassinou a gramática inglesa, sendo o irlandês que era. Mas com maestria mudou tudo, ultrajando com rigor a ortografia e a morfologia das palavras. Uma obra que conseguiu, apesar do estilo inovador, tornar-se clássica. Recomendo a leitura.
Por causa da cirurgia feita em suas gengivas, não quer sobremesa. Também não quero, por respeito às minhas aftas.
Vêm, por fim, os chás. Maçã para mim. Para ele, banchá, condizente ao perfeito xamã que gosta do gosto das folhas antigas. Prefiro chá de jasmim, penso. Não peço. Não teria. Aquele, definitivamente, não é um restaurante japonês.
Vem a conta. Me coço. Fala que sou seu convidado. Paga com cheque e conversa animadamente com a moça operadora do caixa, mostrando o quanto é assíduo àquele ambiente gastronômico.
Conversamos sobre o possível futuro imediato dos nossos trabalhos, medindo a calçada com nossos milimetrados passos sem pressa.
Uma nuvem cinza carregada de chuva se apressa a armar-se sobre as nossas cabeças.
Chegando a Avenida Paulista, paramos. Abraçamo-nos com bastante ternura. Nosso abraço, humano, ecoa por muito tempo em todo o coração financeiro do país.
Começa forte a chuva, arrastando pelos esgotos as flores náufragas que começávamos a regar.



Sérgio Janma
Outono de mil novecentos e oitenta e sete.

Vampiro no Divã! Hein?!

Por Sérgio Janma, para o Clube do Conto

-... pois é, doutor, sei que só é possível viajar para o futuro...
- Hein?! Fale mais sobre isso.
- É o que diz o físico-filósofo Ludwig Boltzmann que, numa das maiores realizações da história da física, mostrou que a flecha do tempo é um fenômeno estatístico. “A probabilidade de o ancião rejuvenescer é essencialmente zero, enquanto que a de um jovem envelhecer é essencialmente 1”. Então, a razão de eu vir aqui ao seu divã tem esse propósito: Reviver, experienciar, pelos menos no nível das idéias, os meus melhores momentos de vida passados. O passado que, para nós vampiros, é mais digno do que os dias de hoje, considerando nossa mórbida natureza. Bons séculos aqueles! Hoje, não! No cinema, somos retratados como doces vampiros em filmes românticos. Patético! Isso afronta nossa dignidade, nocauteando-nos na lona suja da desonra. Vampiros não são todos iguais. Temos estirpe! Eu mesmo... Sou nobre, da linhagem dos Toreadores. Verdadeiros adoradores do belo. Somos artistas, porque em nós a interação com a natureza é a parte humana que se sobrepõe à de quirópteros como condição de vida. Sabia que cheguei a ser o poeta Lord Byron? Conhecido freqüentador das festas na Londres do século XIX. Mas, admito, essa natureza humana em nós é a nossa fraqueza. Tornamo-nos vulneráveis às cobiças dos que têm poder sobre a vida e morte, os Ventrue, classe dos vampiros que controlam impérios fabulosos e ganham muita fortuna à custa dos fracos mortais que não são capazes de resistir à sua principal disciplina: A Dominação. Ainda bem que há diversidade étnica-racial também entre nós vampiros. Não somos todos do mesmo sangue.
- Hein?!
- Se, infelizmente, existem os Ventrue, chamados de “Sangue Azul”, em contrapartida existem os Brujah que, por defenderem a liberdade acima de tudo, são chamados pelo seu povo de anarquistas. Eles infringem regras, saem do padrão religioso e moral dessa sociedade hipócrita. Quem é o dominador sempre estigmatiza a todos os que fogem ao seu controle e os contesta, sentenciando-os como sendo os perigosos causadores da infelicidade humana. É assim mesmo, doutor, nós vampiros, e toda a escória de “personagens maus”, somos transformados por eles em justificativas para a incapacidade que têm em ser felizes. Tornam-nos destruidores, devastadores da espécie humana. E quem nos vê com simpatia, fica propenso a cometer “pecados” e a “perder a alma”.
-???
- Vejo que seus olhos me perguntam sobre o quê realmente interessa a todos vocês, meros mortais humanos: E o sangue chupado das veias alheias? A origem da minha necessidade nutritiva-alimentar está na natureza dos vampiros. Porém, o fato que deflagrou o meu complexo sugador foi detectado, se é que o doutor irá lembrar, em nossas recorrentes seções hipnóticas-regressivas. Revivi o instante em que me apartava de minha progenitora, quando se concretizou o meu nascimento. O quando do ocorrido não sei precisar. Só consigo visualizar uma aldeia na região Eslávica. O certo é que era um momento pré-histórico da humanidade. Era o momento de eu passar a ser. Instintivamente, comprimi minha boca em um dos mamilos de minha mãe, pontudos feitos dedos, atrás de algo que preenchesse o meu indigesto vazio estomacal. Nada X nada! Insisti. Não desisti. Algo tinha que sair de dentro daqueles seios fartos. Fartos de quê? Farta de minha insaciedade, aquela mulher, atormentada por uma depressão maior do que o seu amor maternal, empurra minha cabeça para trás, desplugando minha boca do seu mamilo em sangue. Foi aí que aconteceu. O sangue-salgado-proteico... É. Em minhas macias gengivas já tinham brotados dois dentes. Como? Se se torna vampiro só depois de morrer, diria o doutor. A única explicação é a que devo ter morrido e, de algum modo, revivido vampiro ainda durante a gestação.
- Fale mais sobre o sangue.
- O divino sanguinolento líquido, viscoso e morno, é a mais completa tradução da vida animal. Há vida só quando ele trafega intravenoso pelos canais do corpo, irrigando-o. Organicamente, o sangue carrega alimento e lixo pelas células. É uma rede, ao mesmo tempo, de alimento e de esgoto. Pra mim, ele é acima de tudo o combustível que ainda me mantém mais humano do que zumbi.
- Sua hora se aproxima. Tem algo a acrescentar? Hein?!
- Tenho sim, doutor. Sei que o senhor, além de ateu, é judeu, mas preciso lhe contar de como me furtei de ser preso dentro do corpo de um porco.
- Hein?! Fale mais sobre isso.
-Vamos lá, recordar é viver: Foi na Galiléia, no tempo da divisão histórica da humanidade. Por todos os dias refazia minhas energias, após bem usá-las à noite, no cemitério da terra dos gadarenos, no outro lado do lago. Convinha-me a fúria de um homem que também encontrava no cemitério o seu refúgio, tornando seguro para mim estar ali. Ele assustava e afastava as pessoas. Nada o podia atar. Nem correntes, tampouco camisas-de-força o subjugava. Corria noite e dia por entre os sepulcros e feria-se com pedras. O povo tinha fé que nele habitava uma legião de demônios. Fé alimentada por ele quando se apresentava pelo nome Legião, por dizer serem muitos a possuírem seu corpo. Sabendo disso, o tal de Jesus, tido como o cristo, embestou de atravessar um mar de água doce para atormentá-lo. O homem do cemitério, ou os que estavam nele, foi (ram) ao seu encontro gritando: “Que tens a ver conosco, Filho de Deus? Vieste aqui para nos atormentar antes do tempo?” 
Fiquei besta. 
Esse cara e mais os caras dentro dele se sentiram incomodados na pretensa relação, haja vista conflituosa, que tinham com esse Jesus! E o “... atormentar antes do tempo...” Que tempo? Que tormento? Até então, eu pensava que “atormentar” os outros era papel nosso, dos vampiros, demônios, lobisomens, bruxas, hereges excomungados, suicidas insepúlcros, pecadores sem arrependimento, adúlteros, mulheres com TPM, a cantora do Calypso (loira do banheiro), sertanejos e fankeiros, assassinos sem causa, bichos-papões, Sacis-Pererês e um e/ou outro boi-tatá. Agora, que também o filho de deus se passasse por ator protagonista nesse papel de atormentador, ah! , isso para mim era novidade!
Fiquei ali parado, ouvindo os colóquios daqueles arquiinimigos tão íntimos. Aos poucos, vi que as coisas por ali esquentaram ainda mais e a minha vida secular estava por um triz. Bastaria o tal cristo olhar para os lados, me ver, e babau... “hasta la vista, vampiro!” Gelou em mim o sangue que eu acabara de beber na boêmia madrugada. Doutor, confesso que, pela primeira vez em séculos de momentos de vida, naquele momento em particular, senti medo. E olha que tradicionalmente temos medo apenas de alho, pelas alterações que provoca no nosso sangue, de estacas feitas de madeiras resinosas com poderes curativos aos humanos (que em nós o efeito é mortal!) e de cruz. Esta, não tanto por ser um símbolo religioso, mas mais pelo quanto agride nossa saúde se feita de prata ou com as tais madeiras resinosas. A prata causa em nós algo como uma reação alérgica.
O homem que enfrentava e metia medo em toda uma legião devia ser mesmo Todo-Poderoso! Na derradeira tréplica dos demônios que ali parlamentavam, houve a rendição deles, e quase também minha, em forma de súplica: “Se nos expulsas, envia-nos para aquela manada de porcos.” Hein?! Taí! Instinto de sobrevivência! Acendeu uma lâmpada na minha moringa esquentando e atiçando as idéias. Como o doutor deve saber, o meu avatar é um morcego. Demônios em porcos; vampiros em morcegos. Amém. Assim foi feito. Tornei-me um morcego na escuridão, invisível entre as catacumbas.
Empurrados pela força sinistra do olhar de Jesus, mais de dois mil demônios foram rechear as entranhas de uma manada de porcos. Os suínos que, não tendo espíritos bons, tampouco maus, não souberam lidar com a novidade incorporada em si, precipitaram-se por um abismo para morrerem no lago. Quanto a mim, para que não chorasse lágrimas de sangue, bati as ratazanas asas de quiróptero e hoje estou aqui, deitado, contando esta minha história de há dois mil anos. 
- Acabou seu tempo. “Hasta la vista, vampiro!”
- Hein?! Já?! No meu gogó, não, doutor! Minha hora ainda não acabou!


Viva até que da vida se separe

        
     Era feliz. Mais do que estar feliz, ela era feliz. Feliz por estar e ser viva. Principalmente por (poder)ter  como mudar tudo isso. Isso de viver apenas por ter nascido ela tinha domínio. Tinha a liberdade de decidir sobre a própria vida e o fim dela.




            Amava a liberdade de viver e de morrer, se assim o quisesse.      
            Era feliz por poder controlar sua vida como se possuísse a si mesma. Assim como se muda de canal, ou quando se assisti a um filme na TV, ela controlava intimamente as suas experiências, mesmo as que ainda estavam para ser vividas. Play, scan para adiantar ou retroceder, ou skip para ir à cena passada ou a seguir. Pausa para segurar as emoções e descarregá-las no banheiro. Volume baixo para momentos íntimos e alto para a ouvirem melhor e melhor se fazer entender. Era esse o menu do seu autocontrole.
            Era feliz da vida por poder, se quisesse, suicidar-se quando essa felicidade se tornasse insuportável, ou não. Não devia nada a ninguém, muito menos a (à) sua vida e satisfações dela aos outros. A autonomia para deflagrar grandes ou pequenas experiências felizes era a mesma para dar a elas um fim, feliz.
            Suicídio, ou a simples possibilidade em cometê-lo, era o seu curinga na manga. Sem mágoas.

Sergio Janma   
 

TRANSLÚCIDO

        Na minha memória a sensação de eu ainda estar sentado na esteira daquela cadeira do teatro. Divã mágico que me faz sentir simplesmente gente por duas horas.
            Olho-me quando olho para o palco. Essa gente ali no tablado joga com seus movimentos no espaço marcado, mostrando as minhas intenções a cada passo, a cada parada. Sentam, levantam, quebram discos de vinil, ficam nus e se banham para lavarem a nudez da minha alma grafitada de cínicos preconceitos. Alma de nudez malhada por sofridas feridas, magoadas pelas minhas próprias setas.
            Eles ali no palco são um só: eu. Mas não me convidaram para o ensaio... Fragmentado, sou todos.
            Agora é só respirar, nada mais. Para eu estar vivo e presente só preciso respirar. Parece simples, mas não é. A crônica apreensão pela insegurança desqualifica minhas emoções caras. Apreensão que segura o ar, fazendo do meu peito uma panela de pressão em ponto de ebulição. Me digo: Calma. Relaxa. Respira sem pressa, sem pressão e apreensão no peito. Solta todo o gás carbônico através do ar carregado de dores. Isso. Suspira. Soluça. Solução: destrava o choro. Desamarra as couraças liquidificadas nesse choro. Rompa as barreiras que comportam teu rio de sentimentos retrôs. Transgrida. Numa dialética transcrita no teu corpo, deixa o prazer quebrar a redoma de tensões, respondendo à dor.
            No palco, o que diz aquele velho alemão, professor de filosofia aposentado, é o que já deveria ter sido dito por mim, pra mim, pro meu coração, pra minha alma. É tudo o que estava sendo fermentado em mim. Há muito tempo venho aprendendo: viver é simples como respirar. Aprender o Ásana. Ser zen sem ser sedado.
           Antagonizo-me, contracenando personagens e antipersonagens  Sou aquela menina monga. Feliz por só entender o que sente. Sou vítima do carrasco que sou. Também sou herdeiro desse teto caindo em desgraça sobre minha cabeça. Abaixo do sétimo céu, esse teto guarda desencapados fios em curtos-circuitos, soltos, programados pelo contra regra. (Ou seria o contra-a-regra?).
           Está em mim a dividida mulher que chora ao rir das verdades que o velho professor lhe fuzila à cara. Com astutos argumentos verdadeiros o sábio velho faz com que os falsos valores sofisticados, caiados, revelem-se como são: vazios e podridões bailando com a morte de cada consciência.


PS: Crônica inspirada no texto O Estranho Dr. Paulo, texto de Tankred Dorst, montada pelo diretor teatral Camilo de Lélis.



Sergio Janma

O Dragão Apunhalado Colhe Pedras na Lua de São Jorge

..."Já se perdeu, não há futuro. Repousa, meu amigo. Deixa-me passar a mão nos teus cabelos. Está amanhecendo. Em voz baixa eu canto para te enganar”.
                                                (Caio F. Abreu - Dodecaedro  - Triângulo das Águas, pág. 54).

                         Regresso ao passado. Início de julho de há dois anos. Nem sei bem o porquê, estou aqui, na janela onde o sol, recém acordado pelo perfume das acácias nas ruas, mostra a cara com olhos orientais maquiados de remelas. Onde está constantemente amanhecendo, dirias.
            Giro, dentro do miolo da fechadura, a única chave do chaveiro. Apenas uma volta. Empurro a porta e o meu pé direito no primeiro passo largo, único, abre-se para dentro da sala escura, chutando a revista deitada ao chão. Acendo a luz que vez em quando me falta. Abaixo-me e levanto-a com cuidado, pensando ter machucado alguma de suas páginas. Abro a revista semanal e deparo-me com a tua fotografia: cadavérico, de braços cruzados, muitas roupas de lã, cabeleira rala, óculos redondos envidraçando esse olhar grande que a tudo viu e viu tudo o que viveu.
             HIV.
            Estas três letras amontoadas em laboratórios estão sempre presentes na tua literatura. Esse vírus guardado no fundo escuro de alguma gaveta. É a face descoberta que precisas encarar. Tornaste-te escravo desse futuro evidente. Futuro assalariando no agora o teu passado.
            Pregado na ponta do teu nariz, como tatuagem, está o Sarcoma de Kaposi. Tipo raro de câncer. Todo câncer tem fome, deu no jornal da tevê. E morre se não for alimentado. Mas tu não gostas da fome de ninguém, não é?
            O tumor amadurece o vermelho-morango do teu nariz sempre empinado, mofando sua cartilagem até apodrecer. Nariz manchado, fazendo-te naturalmente palhaço. O maior, o verdadeiro PALHAÇO-DAS-PERDIDAS-ILUSÕES a dançar, dançar e dançar. E não sendo “O Palhaço”, de Gismonti, O-BOM-PALHAÇO-NÃO-CHORA-E-VAI-EMBORA-SEM-EXPLICAR.
           Somando-se a tua debilidade, vem outro vírus, o surto de Herpes-Zoster, atacando a pele e mucosas com inflamações que dão nos nervos. E em tua pele há também um fungo, istoplasma, transmitido pelos pombos dos telhados de Paris. Ou serão os pombos que não nos deixam pisar no chão da Praça Montevidéu, em frente à Prefeitura de Porto Alegre? É pra onde voltaste, eu sei. Qualidade de vida melhor do que a de São Paulo, dizes.
           Encaro novamente a tua foto colorida. Pálida tez. Chegaste ao teu limite. Os ossos vestidos apenas por tua pele. E a pele se vestindo de febre. Resultado natural da vida indevida de um Rimbaud. Naquela solidão suicida, tanto sexo sem camisinha, tantas drogas que em algumas vezes funcionaram como freios e, em outras tantas, como aceleradores químicos das emoções. Tantos bons sentimentos jogados no lixo.
           Penso na Aids. Também não gosto de sexo pasteurizado, muito menos virtual. Sexo passou a ser O-PÃO-NOSSO-DE-CADA-DIA-QUE-O-DIABO-AMASSOU.
           UNI-DUNI-TÊ... O-ESCOLHIDO-FOI-VOCÊ.
           Mas continua, sobretudo, tua sobrevida. Afinal, teu maior ideal é continuares sempre vivo. E é vivo que te sentes quando tentas salvar tua planta da felicidade, transplantando-a para um pequeno bonsai. Plantaste roseiras de rosas brancas para colheres luz. Teu ikebana muito bem arranjado te dá energia. Livre, tens teu nariz preso ao jardim. No terraço, conversas com as pequenas mudas que em silêncio ouvem tuas confissões e sinalizam-te compreensão com o verde de suas folhas novas e vistosas. E ainda ficas espantado vendo os narcisos se abrindo para o gozo do dia.
          Sem tesão, pelo baixo nível de testosterona a inibir a libido, o teu comportamento e atitudes tornam-se quase religiosos. Como se tu fosses um sacerdote de Odim, aplicas a fórmula da magia do DEUS-VENTO-NÓRDICO, mantendo pedras imersas em jarros de barro para que, criando-se limo nas suas texturas, elas cresçam iguais às plantas, apenas levando mais tempo. Afinal, pedras têm vida! E tu, dizes, não teres pressa, esperas, também és eterno.
           Agora vais arrebanhando as tuas Ovelhas Perdidas há tanto tempo naquele fundo escuro da gaveta. Tempo em que eras protegido por lobos, por teres a inspiração como sabedoria proibida. E ainda hoje reanimas teu clero de doze sábios, nas nove cavernas dos nove mundos ascendentes do Espírito. Dimensões onde é comemorado esse teu mistério que vibra com cada manifestação da natureza.
           Quanto a mim, sentado em minha sala-de-estar-só, vejo a tevê, sem nenhum volume, a jorrar cores fantasmas, trêmulas, no escuro deste inverno de hoje, daqui, deste lugar sem frio. Só, entre os poucos móveis e uma xícara suja, levanto-me e arrasto os meus pés até a cozinha para outro café forte. Três colheres e meia de açúcar cristalizado. O doce que engorda e cristaliza os vermes emaranhados em minhas vísceras.
           As lágrimas saltam-me compulsivas, convulsivas, jogadas para fora de minhas órbitas por sua insustentável leveza. Âncoras leves que me levam a aportar neste tempo, neste agora que está parindo o que virá.
           Penso em ti, naquele final de fevereiro do ano que passou. Vejo-te parando de respirare com suspiros desesperados. Era domingo, Oxalá veio te buscar. E aos toques nos atabaques dos ogãs, a luz das tuas rosas brancas vestiu-se do luto da noite. Fizeste a travessia, já tonto no final.
          Estás agora sozinho nessa NOITE-DE-LUA-NOVA. Conseguiste. Acendeste tuas próprias velas. Descansa. Não sentirás mais febre, nem insônia. A tosse não vai mais bater em teu peito e rasgar tua garganta, impedindo que respires profundo.
          Em teus dias de verão, sentiste sob as tuas costas a pedra morna pelo sol. E agora tens sobre ti a pedra fria pela sombra da morte.
          Ultrapassaste o teu limite: a nudez dos ossos. Desvestindo-os de tua pele como se tirasse uma capa de chuva, um sobretudo. Deixes que a lama PERGUNTE AO PÓ. O pó virá. Depois virá a lama, o pântano, onde reina Nanã, o vento que eventua a destruição e... novamente o pó. As tempestades desabadas, desaguadas por Yansã, lavarão o teu avesso. E descerá a paixão através dos raios ardentes dos guerreiros tontos de prazer mórbido.
         Teu Exu Pessoal ausentou-se e agora voas com o vento para atravessares o CENTRO-DA-CURVA-DAS-TORMENTAS, ajudado por teu pai Ogum que te levará a nado pelo Oceano de Astros até ao Alto da Torre.
         O corpo, que te serviu como crisálida, vomitou os teus sentidos fraturados, juntamente com a tua alma aquecida, suada. Paraste de te debateres. Provaste da terra, agora é a vez do vôo. Teu momento agora é o de seres borboleta para abrires calor sobre o caminho que atravessas nesse “deserto de almas também desertas...”.
          E Shiva dança, enquanto cria para ti um novo mundo.
          Entrelaçando os meus cílios, fecho as lágrimas, a torneira, a porta, a janela, a cortina, o piano, os punhos, os ouvidos, a boca, o zíper, o corpo, a tampa... Fecho o livro (e tudo nele para sempre escrito) nesse fundo escuro da gaveta para sempre fechada.



Sérgio Janma