"Leia como quem beija, beije como quem escreve"
(Maxwell F. Dantas)

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Morgana Mijou na Cama; Meu Feliz Ano Novo


        

           Minha filha com seus três anos e oito meses já não quer mais dormir de fraldas, diz “já sou menina”. Mas às vezes sua bexiga lhe trai essa vontade de ser grande e sua vontade (incontrolável!) é a de urinar. Na noite passada foi assim. Fomos dormir em minha cama e após uma hora de tranquilo sono, Morgana teve um sonho molhado. Ela não acordou, acordei eu pelo encharcado lençol de baixo. Enquanto minha filha dormia, troquei-lhe a roupa molhada e mal cheirosa por outra limpa e cheirando a amaciante, coloquei outro lençol por cima do que estava mijado para não acordá-la e voltei a deitar ao lado dela. Sua carinha linda dormindo em um sono profundo foi minha compensação. Pensei que aquilo ocorrido também me fazia feliz. Apesar de estarmos sobre lençóis mijados, somos felizes por exatamente sermos nós dois, juntos no aqui e agora, sobre lençóis mijados.
Não me aborreço com minha filha por estar deitado sobre sua urina secando ao calor da noite e, tampouco, com o aumento do cheiro peculiar da ureia. Morgana só tem três anos e oito meses e todos os direitos. Ela me faz feliz incondicionalmente. Mostra o quanto me ama ao exigir de mim presença constante.
Enquanto olhava minha filha, admirado por tanta beleza e inocência, lembrei-me de um poema meu, antigo, que escrevi na primeira página da agenda daquele ano de muitos passados. Não lembro textualmente desse poema. Vagamente lembro que tomei o ano que mudava o calendário como se fosse um bebê recém-nascido e os champanhes em comemoração ao seu nascimento era o que molhavam suas fraldas.
A simples mudança de calendário pode servir de sugestão para mudarmos também o tempo dentro de nós. Se não podemos mais voltar ao tempo de crianças, quem sabe se não conseguimos resgatar o olhar delas? Matarmos o que já está velho em nós e deixarmos aflorar o novo. Afinal, não só morrem os anos velhos para nascerem os novos, em nós também tanto a vida como a morte é só renovação na mesma constância.
Enquanto o tempo passa fazendo o passado ficar marcado em nossos corpos e almas, provocando o futuro com um presente efêmero, por minha vez fico neste tempo de Morgana que nem tá aí se há ou não viradas de anos... sua virada é a de me virar neste pai bobo. Minha filha me virou em um apaixonado pela vida que ela me faz viver.

Sérgio Janma – a poucas horas de 2013

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Mulher Vazia

Conto ainda por revisar.


Alfredo Pezão há muito estava só. Nos últimos velozes anos a fome voraz da idade comera-lhe a saúde, a beleza, o másculo corpo jovem e até a paciência para viver em sociedade. Mas o tempo não comera a sua libido. Esse vigor a velhice não lhe roubara. Sexo ainda lhe era uma necessidade acima de tudo fisiológica. A vida lhe impusera este paradoxo como a um pesado fardo obrigatório de ser suportado por ele em seu cotidiano. Precisava de sexo, mas não queria relacionar-se com ninguém. 

Sair para se adentrar nas vitrines dos meios sociais propícios à caça de sexo fácil o faria sentir-se um velho ridículo. Ele não tinha mais o traquejo das cantadas fúteis e pouco lhe interessava o infantil processo roteirizado das conquistas amorosas. Esse chato conhecer e se deixar ser conhecido também o cansava. O tempo agora urge e ruge. O agora de Alfredo não permite mais as prévias, tem-se só vias para se ir em frente. 

Se não lhe estava destinado conhecer mais ninguém, o quê fazer? Alfredo Pezão pensou, pensou e concluiu que se ele necessitava só de sexo para voltar a ser um ser pleno, teria que se resolver sozinho. Admitia ceder ao extremo narcisismo de seu ego. Considerou a masturbação como solução ao seu dilema existencial, mas o seu corpo não lhe agradava mais há tempos. Não conseguiria mais o auto-excitamento. Contava apenas com sua imaginação, bastando que a estimulasse o suficiente para os seus mais solitários prazeres secretos. 

A imaginação de Pezão veio-lhe voando em asas, trazendo-lhe como imagem holográfica uma mulher de mentira para torná-lo um homem de verdade. A mulher inflável, sim! Correu à internet e pesquisou o produto que passara a ser o seu mais urgente sonho de consumo com a finalidade de consumir-se a si mesmo. A diversidade de mulheres-bonecas abundava nos sites dos sexshopping. Havia a imitação da atriz mais sensual da última década, boneca inflável super-realística em cyber Skin ( produto similar a pele humana). Ela foi toda moldada no corpo da atriz, afirmava o anúncio, para que o cliente tenha a oportunidade de senti-la em sua cama pronta para seu prazer a qualquer hora! A boneca tem um rosto perfeito, cabelos macios, seios robustos e dois orifícios para penetração, ânus e vagina apertadinhos! A bolha térmica nos orifícios proporciona sensação de calor. Loucura, loucura, loucura! Esbravejou Alfredo Pezão. Uma gata loura de cabeça similar à real, rígida com cabelos e num lindo rosto olhos plantados que abrem e fecham seus cílios fartos. O vendedor garante que a boca carnuda é penetrável, tem vibrador embutido e movimentos de pulsação para apertar o pênis, através de bomba pera, proporcionando um incrível sexo oral! O par de seios é firme e farto com os seus mamilos excitados. Vagina e ânus, devido as suas elasticidades, podem ser penetrados por qualquer tamanho e espessura de pênis. Um vibrador bullet para aumentar o seu prazer emitindo som de gemido. É recomendado o uso de preservativo. Originária da China alimenta-se de quatro pilhas AA não inclusas no pacote. Tamanho, aproximadamente, 1,50m. de altura. Ideal pra os seus 1,60m considerou Pezão. Confeccionada com material super macio 100% antialérgico. O anúncio ainda alertava que o contato com lubrificantes à base de silicone, óleo ou de produtos à base de petróleo pode causar danos à superfície do brinquedo sexual. Os lubrificantes a serem usados devem ser à base de água. Lavar com água e sabão neutro antes e após o uso. Recomenda-se fazer a higienização com produtos específicos para limpeza de brinquedos eróticos e não compartilhá-los. Deve ainda ter-se o cuidado de conservar a boneca fora da luz solar e não a expor à temperatura superior aos 50ºC. Junto à boneca inflável será enviada uma prática sacola em tecido para guarda-la e uma bomba de inflação, além de cola para reparo em caso de furo do material. 

Sem muito recurso financeiro para o pagamento à vista, com seu cartão de crédito Alfredo Pezão comprou em dez parcelas mensais a mulher que tinha mais recursos para a sua satisfação sexual. 

Agora quando estiver com o seu saco cheio, para esvaziá-lo bastará a Pezão encher a mulher inflável e jogar o jogo do sexo brinquedo. E se essa mulher de tanto inflar-se estourar, pondera, não será pior que os estouros das mulheres de carne e osso em suas piores fases. Prefere ele essa mulher vazia que pode ser preenchida de vento do que às mulheres de vazio real.



Sérgio Janma – 11/12/2012


sábado, 17 de novembro de 2012

Às Costas do Anjo de Costas



Conto requentado apresentado no Clube do Conto em 17/11/2012          

       Gabriel Solís, mercenário. Colecionador de orelhas inimigas, mortas. Orelhas, com seus lóbulos furados pela ponta de uma baioneta, alinhadas num colar. Duas voltas e meia de orelhas, engrossando ainda mais seu pescoço, já o tendo tornado grosso por seus constantes esforços em gritar para chamar a atenção sobre si. Usa as orelhas também para ser ouvido? Nunca vi meu amigo usar o colar com tais orelhas empalhadas. Talvez seja só o fetichismo solitário de um serial-killer profissional, trazendo-lhe lembranças inconscientes do tipo escalpe, apropriadas ao sangue índio em suas veias latinas. Puro Inconsciente Coletivo antropofágico de um autêntico charrua. Isso se, é claro, os charruas fossem canibais.
         Seus cabelos lisos têm um lustro brilho. Natural. Como parece ser natural o sorriso, ou o não sorriso, que traz consigo em seus documentos falsos. Sem o falso sorriso na foto 3/4, onde sério e de olhos arregalados, mostra suportar valentemente o estrangular da gravata tentando afinar-lhe o pescoço.
         Conheci Solís em Porto Alegre, num frio final de junho, na metade dos anos 80. Um tempo em que tudo era quase democrático. E era democrático ter que ouvir, naquele frio cortante, a fumaça de sua voz. Vapor sonoro saindo da fossa quente de sua boca. A voz modelada era quase navalha arremessada, metálica, para fora de suas outras fossas, as nasais. Fio de som agudo perfurando o ouvido de minha viva orelha-esquerda-de-nódulo-furado-como-o-próprio-brinco-de-ônix. Por este ouvido esquerdo que me chegam os sons mais altos, já que pelo outro não ouço direito.
         Sua voz cortava o ar frio, arrepiando mais do que as sanguinárias bravatas das estórias que depositava nos meus ouvidos, sarcasticamente narradas com mórbidos detalhes.
         Solís, conta ele, lutou em guerras alheias em missões terroristas. Às vezes paraquedista, outras vezes fuzileiro... Também sendo lanceiro de tudo o que se lança e é morteiro.
        O visionário poeta fala alto e estridente, enquanto vai picando com punhal de prata marroquino o fumo que diz ser cubano, tal quais os charutos Hoyo de Monterrey que também os fuma nas horas em que precisa ser sofisticado. Isso quando não cala sua pequena boca no cachimbo filosofal, por nobre opção tabagista. Chama de filosofal o seu cachimbo por tê-lo comprado na Grécia e servido às pedras de ópio chinês. E assim, ocupa-se, entre um charuto e outro cachimbo, da paz deste novo tempo que se esvai em improdutiva conversa monologa recheadas de ações.
        Além do punhal, também é de prata quente a bomba do seu chimarrão. Cotidianamente, em horários apropriados, vai cevando o verde pó dessa amarga erva. Chia a chaleira no ritual quase santo. Chaleira cigana e erva guarani. A sensação é a de limpeza da alma ao beber aos poucos aquela água quente com cheiro e gosto de mato, esquentando por dentro e esverdeando a língua. Limpeza prolongada para depois do ronco da bomba no fundo da cuia, quando a água esverdeada seca. Seus fantasmas mutilados, tanto os antepassados quanto os de hoje, chegam-se para a próxima rodada de mate amargo, servido pela própria deusa Caá-Yari* já com a erva quase inteiramente molhada.
       Matador vocacionado que é, acredita em deus e... no diabo como sócio do divino na messiânica tarefa de executar os sacros serviços sujos. Para Gabriel, depois da criação de tudo o que seria proibido ao Homem conhecer, deus descansou no sétimo dia, ficando o diabo em seu lugar. Folguista de deus, o deus-suplente fez-se também criador nesse dia. Conheceu-se então, o verdadeiro Sétimo Céu. Lugar onde se esconde o titereio que manipula as cordas das marionetes no Reino Universal de Deus.
         Tornando-se adepto à religião que professa ser deus um só quarteto, Gabriel vê no diabo a cara escondida e suja de um deus esquizofrênico. Sabe ele que na dança do Kabuki e no Teatro Nô, encantatório ideograma japonês com seus dois mil e quinhentos gestos simbólicos e gritos guturais, vêm sendo secularmente mostradas as diversas máscaras dos deuses e demônios. Máscaras que os atores, sacerdotes telúricos, usam-nas como convém, apropriando-as a cada situação criada para a inocente condição da natureza humana.
         Este homem, Solís, carrega o nome do Anjo Gabriel sobre sua cabeça batizada por aspersão e untada por benzidos óleos. Na cabeça também carrega muitas lembranças de mortes sem nomes, pesando-lhe a consciência.
         Noutro dia, ao final de uma tarde fria, Gabriel Solís fez sua aparição na Casa do Poeta. Vinham atrás, rebocados, sua mulher brasileira e o casal de filhos pequenos. A esposa prendada montava-se de prenda em seu vestido de chita e o rosto rebocado de ruge e batom. Ele, pilchado a rigor. Iriam à festa junina de S. João com as crianças embrulhadas em panos quadriculados, fantasiadas de tabuleiro de xadrez. Noite de São João, pular fogueira, comer pinhão. Beber quentão para enrubescer de calor as faces. Ele gaudério, ela chinoca.
         Vira eu o taura amansado pelo amor da família. O homem Solís redimiu-se com deus e o diabo, passando a confundir-se com o anjo não apenas no homônimo.
         A admiração por seu homem era flagrante no olhar daquela mulher. Nos seus olhos, a constante espera pela surpresa prometida ao destino do marido que, vez em quando, misterioso viaja clandestino para ver sua mãe no Uruguai.
        Solís. O marido, o pai, o filho e espírito desarmado de santo, ou anjo. Gabriel, solícito guardião da paz, da vida e da morte dos seus e seus destinos.
        Chega a ser impróprio para si esse tão óbvio, evidente e claro destino negro de anjo, quase lenda. Certamente, criação divina.

*Caá-Yari: deusa da erva-marte e protetora da Raça Guarani.


Sérgio Janma




sábado, 10 de novembro de 2012

Esqueceu-esse-é-meu




      Essa ouvi do meu vizinho do lado, “Seu” Neves, homem pacato, sério, mas muito conversador. Conta histórias nas quais sempre ele é o protagonista. Disse-me ontem, enquanto estávamos sentados os dois na calçada, que já foi vigilante do Sindicato dos Servidores Terceirizados do Estado. Único homem de confiança e amigo do então presidente daquela associação, segundo ele. Contou-me ele que a inusitada história teve seu início quando da compra de um cofre para auxiliar no controle do fluxo de caixa daquela agremiação. Na medida em que se aumentava o quadro de sindicalizados, maior e mais complexa ficava a sua movimentação financeira. Diante da necessidade frequente de saques ao caixa da agência bancária, ficara inviável se custear os gastos diários da entidade e até mesmo os pagamentos semanais à prestadores de serviço. Foi então que a diretoria decidiu comprar um cofre para reservar-se o dinheiro suficiente para esses custeios. O cofre comprado foi devidamente instalado na parede da sala da presidência, sobre a janela, por trás de uma extensa e grossa cortina escura que tinha como principal função ocultá-lo. 

      Após o saldo verificado, o saque foi autorizado pelo gerente do banco. Em lugar reservado pela agência, ficou “seu” Neves, único homem de confiança do chefe, a conferir uma contagem de R$150.000,00 em cédulas de 100 e 50 reais na sua maioria e umas poucas de 20 e 10 reais para o sindicato dar os seus trocados. Sem levantar suspeitas, o vigilante saiu do banco chegando logo ao seu destino sem nenhum atropelo. Em um momento solene com apenas três presentes, o presidente Reginaldo, o tesoureiro Zaqueu e o vigilante “seu” Neves, o dinheiro foi devidamente aprisionado no cofre, cela de valores e muitos segredos. 

      No dia seguinte haveria na sede do sindicato uma reunião de dirigentes regionais afins. Esse evento programado nas vésperas criou a necessidade de se tomar medidas de última hora. A mais importante de todas fora a viagem naquela noite à vizinha cidade do Recife, a fim de promover exaustivas reuniões para tratativas de assuntos sigilosos a serem repassados na reunião do dia seguinte. A urgência das ações a serem tomadas pelo presidente daquela associação fez “seu” Neves, único homem de confiança, ser o veloz motorista para a tal viagem. 

      O sindicato então precisou contratar às pressas para aquela noite um vigilante folguista. Missão que coube ser cumprida por “seu” Neves, devendo ser muito criterioso na sua escolha por quem iria substituí-lo na insone função que exige de quem a exerce extrema responsabilidade. Sem precisar pensar muito se lembrou de Pudim, veterano das guerras etílicas, hoje um sóbrio aposentado beirando os seus setenta anos. O velho Pudim haveria de quebrar o galho em vigiar só por uma noite os valores e patrimônio daquela organização de trabalhadores. 

      Pudim, muito responsável, estava no sindicato dez minutos antes da hora marcada, exatamente às 18h50min. Até às 21h nada fora do normal. A essa hora Pudim já tinha comido o jantar deixado pra ele na geladeira, dispensando a sobremesa, não por achar proibitivo comer seres da mesma espécie, mas mais por não gostar de doces em geral. 

      Na sua vigília, Pudim certificara-se de estarem todas as portas fechadas para a sua ronda pelo lado de fora. Mesmo tendo vista curta pela idade, o velho olhava tudo com muito vagar e atenção para compensar a escuridão que se fazia nas ruas. Não tendo visto nada de suspeito que merecesse uma atitude mais repressiva de sua parte, o velho voltou para o interior da sede pela porta dos fundos. Para a sua surpresa, Pudim na sua mais lúcida sobriedade vê vultos de homens aparentemente bombados na sala da presidência. Quem são vocês?! Como entraram aqui?! O quê tão fazendo nessa sala?! Foram as perguntas não respondidas no interrogatório feito pelo assustado e mole Pudim. Silêncio. Antes que o vigia por ocasião voltasse com sua metralhadora de perguntas desnecessárias, no primeiro Ei! por ele dito, veio de um dos homens em tom raivoso a ordem de Fique peixe, seu velho desgraçado! Não vai calar esta boca?! Vou te encher de porrada! 

     Pudim levou tanta bordoada que se estatelou ao chão, ali ficando na forma condizente ao seu codinome, assistindo os três brutamontes fazerem o rapa no cofre ainda virgem de arrombamentos. 

       Dia amanhecido, Pudim com a cabeça devidamente enfaixada retornou do Pronto Socorro a tempo de ver alguns policiais vasculharem o local do crime. Os homens com coletes de Polícia Técnica vez em quando se olhavam e abanavam negativamente suas cabeças. Até que o delegado chama à parte o presidente daquela entidade e sentencia que a polícia não seguirá em frente com aquela investigação se não houver a denúncia do furto. Como assim?! Por que furto? Indaga o sindicalista. Foi assalto! Assaltaram o nosso cofre na primeira noite depois de instalado! Assaltantes roubam de assalto, senhor. Explica o policial. O caso aqui foi mesmo furto, já que quem roubou tinha as chaves. Constatamos essa evidência por não haver nenhum arrombamento nas portas e janelas, as quais estavam invioladas. Recomendo que o seu sindicato faça uma sindicância. Tenha um bom dia. 

      Dos três que tinham as chaves e sabiam do depósito de R$150.000,00 em dinheiro vivo no cofre, só se encontravam dois no local após o crime, o presidente e “seu” Neves. Um não desconfiava do outro e o outro não desconfiava do um. Sem ensaios, o olhar teatral de ambos, de imediato e ao mesmo tempo, foi em direção ao ainda tonto Pudim. 

      Não se fez denúncia e nem sindicância alguma. Deixou-se tudo como estava. Foi mais fácil e conveniente sugerir-se que Pudim, em sua ávida sede, teria bebido da água que passarinho não bebe, esquecendo-se do seu voto de abstinência, e posteriormente também esquecido as chaves na porta da frente da sede do sindicato. Desde então, o pobre e injustiçado Pudim não foi mais chamado pra substituir qualquer vigilante que precisasse faltar ao serviço nessa cidade. 

       Mas o mais intrigante desse fato segredado a mim por “seu” Neves, diz respeito ao tesoureiro Zaqueu que apareceu só três dias depois do ocorrido roubo, alegando ter morrido seu tio mais querido de nome Lázaro Neto, na distante cidade de Manaíra. A repentina morte do adorado tio o atormentou tanto que acabou por esquecer-se de avisar que faltaria a tal reunião do sindicato, devendo ficar alguns dias com seus inconsoláveis familiares. Porém, “seu” Neves sabia que Zaqueu tinha sido há dois anos tesoureiro da campanha para a reeleição de um popular deputado estadual, na qual também desapareceram alguns milhares de reais, enquanto, coincidentemente, era velado e enterrado um tio seu de nome Lázaro Neto na cidade de Manaíra. 

      O dissimulado tesoureiro, segundo “seu” Neves, estava tão confiante que acabou por simplesmente esquecer que o tal tio, oportuno álibi, ele já havia matado em outras ocasiões. 

       Tudo aconteceu exatamente assim, é o que “seu” Neves me garante de pés juntos mesmo sem ter morrido. Esse é o meu vizinho, único homem de confiança daquele sindicato de honestos trabalhadores. 



Sérgio Janma – 10/11/2012


            

domingo, 4 de novembro de 2012

Tela da Solidão


Conto revisitado e apresentado no Clube do Conto em 03/11/12


No escuro da sala duelo com a tevê que me atira aos olhos cores eletrônicas. Meu corpo, inerte e nu, é tela dos movimentos virtuais do sexo-mentira do filme erótico que me assedia. (Sexo é a sede do meu corpo que, cedo ainda, cedo à sua mais aguda sede.) Ação que não me causa nenhuma reação. O monitor irradia na sala de luzes apagadas, luziscores dançantes a me tatuarem a pele. Fundo branco fluorescente. Um caleidoscópio-corpo imenso, imensurável pelas infinitas possibilidades de variar posições, formas e figuras.

O sexo em mim e por mim acabou, juntamente com o da película, no limite do seu tempo dramático. Outro filme reflete em meu corpo a pura imagem do casal de adolescentes do início do século passado a passearem de mãos dadas no jardim de margaridas, entre o gramado e os convexos relevos testemunhas do meu desgastado peito. Na hora do beijo suas bocas cruzam a minha, selando os segredos do seu amor em meus lábios, tornando-me cúmplice passivo na trama.

Meu leve toque no remoto controle faz com que o mesmo corpo, o meu, transforme-se em dois cenários sobrepostos, ilusoriamente simultâneos. O inocente romance alheio ainda guardava suas marcas de purezas na flor da minha pele, quando me sobreveio ao escuro, clarões de campos minados a explodirem pirotécnicos em ações estúpidas com mortes gratuitas, fáceis, de outro filme já na sua metade. Agora o inumano exterminador descontrolado que a tudo odeia, bombardeia o jardim de margaridas que eu insistia em regar no meu peito. A intenção da sua ação era a pura vingança vingada em mim.

Troco novamente de canal.

Vídeo-clip. Marisa Monte canta Amor I Love You aos meus ouvidos e olhos. Semi-adormeço e quase morro de tanta paz.

No jantar romântico de outro filme, quero ir além dos carnudos lábios da fêmea, úmidos, presos ao meu umbigo, servindo-lhe de taça seca para o derramar do molhado vinho tinto seco.

Agora é a vez do sexo selvagem dos latinos num filme do Almodóvar. Tantos gritos, gemidos, palavrões, sussurros, urros, murros, sofreguidão, gozo e as respirações desacelerando-se em bafo quente que não sinto soprado em minha face. Os dois corpos descansam sobre o meu teso arco de músculos e pelos.

Rolam sobre mim, neste ser resumido em um extenuado corpo, os caracteres projetados da tela, dando créditos aos nomes dos que trabalharam por detrás dos meus sonhos em insone noite de verão.

Tudo termina. Madrugada vem e a noite vai. Mágica do tempo que cria as cromáticas ausência e presença na sala-de-estar-só.


Sérgio Janma


sábado, 27 de outubro de 2012

Tempo Exato de Relativa Morte

( Conto para o Clube do Conto, hoje com o tema "23 minutos") 

21 horas e 37 min.

      O toque sonoro de mensagem do SIM 2 do meu celular chama minha mão esquerda pra um mergulho pentadátilo ao interior do bolso da minha bermuda de sete bolsos de onde emergem os utilitários neles guardados que muito improvavelmente de hoje em diante os usarei. Gostaria que você fosse o primeiro a saber que Odionaldo e eu estamos namorando, mensagem que li engolindo cada indigesta letra seca de piedade. O sangue pesado de gelo passou a navegar lento pelas minhas veias. Os fios condutores de frio empalideceu meu corpo por inteiro. Congelei naquele momento que demorava em ser eterno. E como ficamos?! Tantas noites insones de amor no colchão ao chão, matando baratas a cada vez que o cheiro peculiar as denunciava no escuro. 

21 horas e 45 min.

      Fecho a única porta de entrada-e-saída com uma chave de três segredos, sepultando os meus segredos jamais confessados no interior daquele sepulcro que era nosso apartamento depois que você foi embora. Vou-me embora pra nunca mais. Busco encontrar a morte que alivia as dores do ofício de viver. Levo comigo apenas as poucas roupas que essencialmente cobrem o meu corpo e o documento de identidade que facilite o reconhecimento do meu cadáver, já que em vida não fui reconhecido.

21 horas e 51 min.

      Ando inconsciente, zumbi, tonto pela movimentada avenida principal do bairro. Como em uma escura balada noturna, os faróis dos automóveis jogam luzes em meus olhos incapacitados de visão sob aquela lua escandalosa de cheia. Cheio de mim cansa-me guardar em meu corpo essa dor, esse eu tão meu que ninguém quer seu. Chego ao sinal vermelho de minha vida e de todas as avenidas. Ironicamente, lembro que perspectiva em russo quer dizer avenida. E sigo absorto com meu andar sem espelhos retrovisores atrás do nada pra pensar, do vazio da mente que me liberte desta obsessão que me impulsiona pra frente nesta avenida de mão única e sem nenhum retorno que contorne minha dor. Planejo, então, meu inevitável destino derradeiro.

22 horas 

      Sinal fechado. Sincronia da engenharia de trânsito. Esperas mútuas de motoristas e pedestres, sem nelas necessariamente haver sincronias. Espero. Sinto o peso da sentença que diz que o tempo é relativo. Há demora demais para o sinal abrir e os carros com seus muitos cavalos virem com seus olhos grandes, bestiais, sobre mim. Fixo meu olhar pra o escuro dentro dos dois primeiros carros à frente daquela fila inerte de ferros e aços prontos para o arranque veloz. Uma mulher no volante e ao celular, sozinha. Com quem estará a falar? Seja lá com quem e qual seja o assunto, é certo que o tema é sobre suas vidas que continuarão depois dessa noite. Sem que eu percebesse, o outro carro à minha esquerda tem sua seta direita piscante. No seu interior decifro vultos de dois homens jovens de caras alegres, obviedade das noites de sábado. 
      Verde. Vida que te queria verde, meus verdes anos já se foram e agora só resta ir-me, deixar-me cair feito folha seca, ou igual a um fruto podre precipitando-se da árvore da vida. Sinal verde para meu pulo de gato velho na sua sétima vida e última morte. Qual dos dois carros atropelará minha vida de acidentes e selará o meu destino? Num ato que não sinaliza sua intenção, jogo-me de corpo e alma, inteiro, para o centro daquela mal sinalizada pista de asfalto falho por buracos. Fecho meus olhos para não ver e sentir meu fim.
      Ouço após algumas frações de segundos o xingar com palavras chulas, partindo dos dois rapazes que lentamente entravam pela rua à minha esquerda.Filhodaputadoidodocaralhoquémorrerdáumtironacaraseumerda cooooorno!!! Abortei a alegria deles. Frustraram meu calculado suicídio sem ensaios. 

Sérgio Janma - 27/10/2012 -


sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Não tô nada bem!


Não tô nada bem!
 (1º Lugar na Categoria Conto do 8º Concurso Literário Mário Quintana do Sintrajufe/RS em âmbito nacional)

     Cheguei sem pressa dez minutos antes do marcado. Sentado na cadeira de tecido, fico entre o cochilo e a vigília. Tô até paciente demais. Até porque SOU UM PACIENTE! Já tô medicado e não ofereço perigo algum. Raiva humana não é transmissível através de salivosas mordidas... creio. Mas quando salivo de raiva, sei não, minha baba pode contaminar. Não agora, aqui nesse consultório, onde espero o tempo passar e, nessa passagem dele por mim, desembarque a psicoterapeuta que aguardo e, espero me olhe como alguém que apenas não tá nada bem. Vai ser difícil convencê-la do meu estado adverso, depois de ter feito uso, receitados, de 2 mg de Rivotril e uma cápsula inteira de 75mg de Venlaxin. Drogas legais que me deixam mais legal, mais domesticado que muito animal que necessita de coleira. Ainda não necessitei dela, mas andei perto de precisar pedi-la emprestado ao vizinho do lado, tão zeloso com seu estimado cãozinho.
                A recepcionista, pensando que eu estaria me importando com o atraso, informa que a “doutora” não demoraria, estava a caminho. Continuo absorto no meu semi-cochilo. O quê dizer à “doutora”? Não sei e nem quero saber. Vai depender do que ela me perguntar e eu quiser revelar. Mas quer saber?! Tô numa boa, de bem com a vida, sob o efeito dessa paz medicamentosa. Então, vou dizer tudo! Tudo mesmo. Minhas vivências dos vinte recentes anos.
                 Ela entra. Surpreendo-me a ponto de despertar da minha morgação. Ela não é simplesmente uma “doutora” qualquer. É UMA MULHER! Eu já sabia que seria atendido por uma psicoterapeuta mulher. Cruel foi não terem adiantado os seus requisitos femininos! Na recepção deveria ter no quadro de avisos o informe de suas características físicas, uma foto seria melhor, pra que ninguém despreparado feito eu, fosse surpreendido no primeiro encontro. O aviso deveria ser assim: Neste santuário, atendimentos serão feitos por Vênus, ou se preferirem, Afrodite. Mas saibam que se trata da mesma pessoa que agrada a gregos e romanos. Ao contrário de uma justificada agitação, me mantive tranquilão, apenas mais esperto. Aquela beleza à minha frente faria qualquer moribundo em visita à ante-sala da morte, querer se agarrar à vida pra apreciar este paraíso feminino.
              Ela vai querer saber das coisas que sinto, penso, experimento, vivencio. A mulher mais interessante que já vi interessada por mim! Vai querer meu bem estar... vai querer me fazer feliz! Não quero mais a cura! Não quero alta nunca mais.
                 A conversa se inicia, após o educado pedido de desculpas pelo atraso. Tenho que falar de mim pra que ela melhor me conheça. Falo com bastante vagar pra também conhecê-la melhor. Falo tudo o que me vem à cabeça pra encompridar a conversa, enquanto observo-a em todos os detalhes. Olhos no olhos, de vez em quando. O que vejo é o todo. Vejo-a toda. Cabelos claros, pele clara, membros proporcionais de uma falsa magreza... e os claros olhos pra ver claramente o que exatamente quer. Quer cuidar de mim.
                Vejo suas mãos. Só consigo ver a tez e perceber que elas estão sobrepostas. Aliança? Não a vejo e pouco importa se há algum ornamento anelar. Os dedos já servem de enfeites àquelas mãos que imagino macias. Isso me basta. Assistir a uma beleza acima do trivial já traz prazer aos meus sentidos fragmentados.
                 Então tá. Semana que vem nos encontramos, mesmo dia e horário. Até lá o lerdo tempo será meu pior inimigo. Tempo que vai me lembrar a todo o instante que NÃO TÔ NADA BEM!
                    Não sou religioso, mas nos dias de nossos encontros, terei 50 minutos pra minha adoração.

Sérgio Janma


sábado, 22 de setembro de 2012

Passarim


  Chamava-se Pardal. Claro, isso não é lá nome de ninguém. E ninguém jamais soubera o seu nome. Pardal era a alcunha daquele homem de idade incerta e indecifrável que parecia mais um pinto molhado. Estava mesmo sempre molhado pelas recorrentes chuvas invernosas do sul, quando menos, empapado por tanta umidade.
            Viera do Mato Grosso antes da divisão do estado, região de menores precipitações molhadas. Nem os mais íntimos, se são possíveis intimidades com um morador das ruas, sabiam o que motivou a migração desse raro pássaro do Centro-Oeste para o Sul do país. Estava sempre com frio, fazendo com que alguns até apostassem que ele viera pousar em Porto Alegre para simplesmente morrer de frio.
           Pardal era Pardal. Ou melhor, não era assim chamado por ser fauna do Pantanal Mato-grossense, mas por uma clara alusão ao Prof. Pardal dos gibis. Consertava, com os poucos instrumentos que trazia consigo na cintura, tudo o que era aparelho elétrico e eletrônico, suas especialidades. Dava luz à um prédio inteiro e, quiçá, à uma usina elétrica em apagão, tamanha era sua força criativa e inteligência. Um gênio, mágico. Bruxo.
           Pardal ganhou proteção de um amigo em comum que o acolheu em seu local de trabalho. Tornaram-se grandes amigos. Eu nem tanto, mas presenciava impressionantes cenas reveladoras, a exemplo das tentativas de Pardal em manter uma conversa em inglês com o meu amigo. Pardal falava fluentemente a língua britânica, já seu interlocutor nem tanto. Tá certo que atrapalhava o entendimento da língua sua fala acelerada. Acelerado ele era apenas pra falar, devo assim pontuar essa sua característica. Acho que o falar atropelando o português e igualmente o inglês, espanhol, italiano e o alemão, era efeito do alto consumo que ele fazia da cafeína. A substância acelerava apenas as articulações responsáveis pela fala. Se bem que não dá para desconsiderar que ele poderia ser assim por algum acidente de trabalho, alterando a velocidade da geração elétrica em seu cérebro. Ou a razão ainda poderia ser a de algum defeito congênito... Vai saber.
            Apesar de sua fala apressada, Pardal não falava muito. Era mais de ouvir e ver tudo. Assim como soubera silenciar o seu passado em Corumbá, também não reproduzia verbalmente o que seus olhos assistiam e ouvidos captavam. Carregava essa virtude em sua personalidade como coisa aprendida por uma duradoura vida dura. Estava ali e nem o notávamos. Tinha esse poder de se tornar invisível. Silencioso chegava, cumpria as tarefas da faxina e do passar café, bebia copos cheios para se certificar que estava bom, ali ficava, dali saía, silencioso.
            Quanto ao seu vestir, devo salientar que suas roupas eram exclusivas, melhor dizendo, eram de seu uso exclusivo, visto que jamais as tirava do corpo. É assim que me vem à lembrança esta figura ímpar. Fisicamente miúdo, dava-me a impressão de estar sempre molhado, como já disse, igual a um pinto. Imagem formada com ajuda dos seus cabelos escorridos de índio. Não era muito novo. Junto aos cabelos pretos, alguns brancos. No rosto de maçãs chupadas e de barba rala, apontavam mais fios brancos do que pretos. Dentes? Faltavam-lhe a maioria e os que restavam eram todos pretos escondidos na escuridão da sua boca. Mal se mostravam quando Pardal franca e abertamente ria. Há que se considerar que os moradores das ruas não têm facilidades no costume da higiene bucal, carentes de uma simples e diária escovação dos dentes.
            Tempos passaram, fui morar em outra cidade, outro país mais trópico, e nunca mais tive notícias de Pardal. Isso até a madrugada de ontem, quando ainda dormindo profundo me veio um sonho pesado, golpeando-me com a notícia sobre o seu destino. Não viera em sonho o anjo da anunciação Gabriel ou algum outro enviado com a notícia de vida brotando. Quanto muito poderia ser Morfeu me mostrando as únicas coisas que são reais: vida e morte; esta depois da outra.
             Mataram Pardal!
       Na cama, acordado sem acordar, nocauteado, pensava em tudo sonhado sem exatamente o que pensar.
Crime executado da forma mais cruel. Fora cometido por crianças, mas não como se mata passarinhos pelas brincadeiras de estilingues e pedras. Nem Pardal também, afinal, era nenhum Golias ou alguma Madalena para quererem matá-lo às pedradas. Tampouco houve descuido seu em algum conserto elétrico de alta voltagem que o carbonizasse por dentro.
Não morreu de frio como se imaginava que em algum dia ocorreria.
Mataram Pardal...  não foi em um único ato. Ele começou a morrer quando nosso amigo em comum morreu antes, assim, sem combinar nada com ninguém. Sem amigos, Pardal voltou a dormir nas ruas. Como se não bastasse o frio das madrugadas que o matava aos poucos, vieram meninos, achando-se caridosos anjos da morte, intencionados em acabar com seu sofrimento. Traziam pela escuridão archotes e gasolina. Tudo fora cinematograficamente gravado pelas câmaras instaladas nos postes e nas marquises das lojas do centro daquela cidade. Ação assassina sem ensaios, marcações, apenas a obsessiva intenção.
Pardal dormia. Provavelmente sonhando que se passasse rapidamente mais uma noite para tomar gratuitamente seu café matinal na padaria da esquina. Que frio! Que frio! O frio passando, indo embora pra nunca mais. Calor... calor... que bom...esquenta-que-esquenta... não quero mais acordar. Nem dava mais tempo. Era calor que queima. Queimou as poucas roupas de lã, avermelhou e enrugou-lhe a pele, deu fim aos escorridos cabelos tomados pelo branco da idade e da geada. Magro, não demorou que o fogo lhe chegasse aos ossos. Tocha humana até virar carvão, vida em carbono.
Como os bruxos, Pardal morreu queimado com suas penas e sabedoria.
Ele era assim... digno de pena por esse seu jeito pássaro de ser.

 Sérgio Janma – 19.09.2012


quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Espelhos Quebrados Não Morrem




.no escuro não existO .apagO .luz e imagem é a minha essênciA .só me é possível a vida em imagens através da luZ .não sou só vidro com uma fina camada de aço grudado às minhas costas, emoldurado por madeiras polvilhadas de um ouro velhO .tenho imaterial constituição gerando a minha extraordinária magiA .todos os espelhos são mágicoS .refletem o inverso, mentem sobre as formas dos corpos e das faces, enganando-os quanto a idade e a aparência que têM
.nada que existe, criado, foi pra ser visto, por isso os espelhos são necessários na sua função de enganaR

Acordo sem acordar. Entre o sono e a vigília, há apenas forças no meu corpo pra abrir os olhos e ver, enfrentando-me, outro corpo no espelho da parede em frente à minha cama. Nele há refletido esse sonolento corpo imóvel, inerte duplo do meu. Carne branca, pêlos, muitos pêlos, uma mata de pêlos bicolores pelo corpo inteiro. Pretos-e-brancos-brancos-e-pretos. Nos espelhos espalhados pela casa, não quero ver mais o meu rosto com a barba por fazer. Encaro somente as minhas tatuagens que, mais do que o rosto, revelam minha verdadeira identidade.
A cada manhã acordo para seguir o mesmo roteiro há muito por mim escrito. Alongamentos de braços e dedos, enquanto penso uma contagem de 40 segundos de duração pra cada esticar dos meus músculos em busca da vida corporal necessária para seguir o meu dia. Mas hoje não. É domingo. Preguiça até pra me espreguiçar. Não me importa em nada que dia venha a ser hoje. Em licença médica nenhum dia é útil. É o que o espelho me faz lembrar, denunciando à minha consciência essas pernas enfaixadas. Tal Lázaro, ataduras podres silenciam por completo os já inaudíveis sons dos movimentos das minhas pernas. Ata, amordaça, amarra, imobiliza. Ataduras que deixam as pernas duras, garantindo-me que eu dure por mais um tempo em pé. Imolo aos deuses apenas meu sangue.
Arte que articula os movimentos. Levanto, enfim. Já em vigília, sigo pela casa cumprindo coisas que se fazem necessárias. Sinto-me vigiado. Há uma presença, além da minha, pesando o ar desta casa... não me afeta.
Moro só.
            Abro janelas e portas pra sair o cheiro sufocante das fumaças festivas das fogueiras da noite de São João no nordeste.
            Dia calmo. Sol e chuva se intercalam como se combinassem dividir o mesmo espaço entre o céu e o solo. A chuva é boa pra uns, o sol pra outros, e assim o dia fica mais bonito. Também estou mais calmo que nos dias anteriores. A paz me vem pelos medicamentos, não me lembrando mais das suas idas-e-vindas como condição da depressão. Apenas lembro, pra começar com coragem meu novo dia, o que pensa de mim uma amiga... parece um lago quieto. Vejo hoje tudo pelos olhos da razão e não mais pela violência contida. Sinto a harmonia em meu universo particular.
            Não mais me masturbo. Libido em baixa. Só tenho sonhos que não se fixam na memória, mas que ainda me trazem ereção. Minha memória, ou talvez a sua falta, serve agora somente pra aquietar os dramas.
            Enquanto a chaleira ainda não ferve a água para o ato mecânico e contínuo de passar café, bebo em jejum um copo de água do filtro e como uma castanha do Pará. E já sabendo que o dia me acontecerá em ordem, tenho o controle do ritmo de meu coração e mente. Minhas ações se desencadeiam em arquitetados planos distintos.
            Num dia como hoje, igual à ontem, há pouca coisa a fazer. Um livro pra terminar de ler, após sete arrastados meses de empréstimo. Pedir o almoço por telefone por não poder caminhar e sair de casa. Fazer operações bancárias pela internet e, sem muita paciência, navegar nas redes sociais, sempre off-line, só pelo tempo necessário para as dores pesarem e o meu corpo pedir descanso.
            Embromo assim o dia com permissivas futilidades. Elas não pesam em minha anestesiada consciência e me aliviam a lembrança de que preciso escrever o que é preciso.
            Este meu cotidiano é a máscara viva que uso. É o patuá protegendo o que em mim não quer morrer. Se eu matá-lo, exponho-me a minha própria morte.
            Sou Raí Cordeiro, escritor sem escritos relevantes. Meus documentos trazem outro nome, bem mais longo e comum, visto haver tantos homônimos.

...vives a vida através do espelho, por nele refletir as conversas mudas, bocas, caras, roupas adequadas, ensaios de seduçãO .sexO .pensas que tens algo muito importante pra dizeres aos outros, à humanidadE .és alguém dentro de uma casa, casulo, fazendo coisas sem importância, quase quieto, inofensivo, mas atordoando o que há forA
.te mandaram cresceres e foi o que fizeste no decorrer de um longo tempo, deixando aos poucos de veres o que havia dentro do teu espelho, quando ainda eras criança, único espaço em que dele te apropriavas e  podias ser lúdicO 

Outro dia pra acordar. Acordo. Hoje o espelho me mostra um dos curativos jazente no frio piso cerâmico do meu quarto. Mais uma vez postergo os alongamentos dos meus membros superiores, assim como o banho não tomado ontem, programado pra essa tarde.
            Café feito como repetição da mesma ação cênica dos incontáveis dias anteriores. 
            Amanhã a Galega virá. A mulher que faz quinzenalmente a faxina e também as compras da semana no mercadinho mais próximo. Hoje nada a fazer a não ser deixar o tempo se cumprir no meu cotidiano. Refazer e refazer os dias sempre iguais.
            Só há em mim a ação de pensar, ou tentar pensar, naquele passado onde penso existir mais vida. Não encontro passado que valha lembrar. Sem futuro, tornei-me rei coroado pela solidão de estar aqui e agora. Só existe o agora entre o passado e o futuro.
            Ar pesando à volta, deixando os meus movimentos mais lentos. Do caos que provoquei vem outro movimento. Mas não agora, não aqui.
            No almoço, sirvo-me de vinho tinto seco e brindo à vida e à morte como se elas fossem uma pessoa, única.
Escrevo, então, para não enlouquecer. O que escrevo me ultrapassa... ultraleve me fará voar com outras asas, em direção, intenção, ao meu único e perfeito dia. No entanto, enquanto escrevo e me debato feito lagarta nesta casa, o cotidiano medíocre me conduz ao dia seguinte.

.sou espelho e mintO .mostro apenas as distorcidas imagens do que chamas real, a outra verdade revertida pelo reflexo dos teus contrasteS ?é um sonhO ?o que é sonho e o que é reaL ?o real está no sonhO .o irreal que o engana, contendo-o em um mundo que se prolifera de coisas e pessoas dentro dele e ao meu redor, inchandO ?ele  existE .os mundos não conseguem viver sem miM .refletindo, faço crer que as imagens tua, delas e de todos, serem a verdade, única, tendo-a como sua propriedade exclusivA :deixo a dúvidA ?as imagens existem apenas como reflexos, sem serem reaiS ?como sabes que as outras pessoas existeM ?serás sÓ .mortos-vivos sem extrema unçãO .os espelhos quebrados fragmentam os teus pensamentos, sentimentoS
.tudo que é duplo é apenas um só seR .inversamente como num espelho que só faz veres as duplicidades dos contrasteS .opostos o bom e o maU .a parte boa sofre por ser boA .é aquela que busca a felicidadE .não pode achar, na sua infrutífera procura, o que não existE .desistE .a desilusão faz com que ela queira ser a parte mÁ .o teu eu bom e o teu eu mau se amam, mas se rejeitaM .o bom é quem quer matar o maU . aí o bom torna-se maldosO .o mau só está no seu papel, tornando-se indesejadO .é quem te faz ter pesadelos e te acorda quando sonha os sonhos de felicidade realizadoS .desejas segregar o eu mau à margem do convívio humano, condenando-o a estar eternamente preso em uma ilha solitária de rotas perdidaS
.a meia idade quer tornar os homens adolescenteS .não é por que chegaste nesta idade da inutilidade economicamente produtiva que pensas e sentes da mesma forma a solidãO !mesmo com os anestésicos, tens vivo o tesão no teu corpo, eu vejO .entope-te de remédios que só servem pra embotar tua alma, volatizar teu vaziO ?o que fazes pra melhorares o gosto da vidA !queres um corpo colado ao teu, dentro um do outro e não forA !o homem ama o seu próprio paU .o seu feminino, o eu por ele não reconhecido, é o seu melhor amigO .o feminino no homem dimensiona a relação do seu macho com a sua fêmeA .é o feminino inconsciente dele que busca o encontro com o seu masculino, fazendo-o um homem por completO .inteiro e plenO

Acordo, como em todas as madrugadas, por pesadelos que minha memória esconde atrás da sua providencial cortina do esquecimento. Lanço-me da cama ao banheiro e urino um turvo líquido por demais amarelo-escuro e fedorento. Vou até a cozinha me arrastando e bebo num só gole um copo cheio de água, ordenhada do filtro de barro.
Chove.
Não me olho mais nos espelhos. Cansei de ser Narciso a se enganar ao olhar nas águas um rosto que nada mais é do que o seu contrário refletido, o avesso. Agora não mais mantenho a saúde corporal de um jovem e me falta paciência para a juventude. Estou em idade de buscar o real. O avesso-do-avesso-do-avesso, como já disse um compositor famoso em sua famosa música. Na verdade, busquei o real por todas as minhas idades. Desde a não vivenciada infância, busquei as verdades. Mas as verdades podem não ser reais. Todas as pessoas têm suas próprias verdades.
Entendi, então, com a idade avançando, que o real ao qual buscava não é sinônimo de verdade. A verdade é a vida que cada um acredita ter e viver. O real é outra coisa. É o que integra o meu mundo interior, tanto quanto consigo ser íntegro. Interagir com o mundo exterior é outra história. E quando me torno sombra daquelas pessoas que escolho por admiração, aí sou apenas ação-e-reação-reação-e-ação. Convivência com o outro é andar na corda bamba. Se quero manter boas as relações sociais e amorosas tenho que jogar o jogo das previsões do outro jogador. Supor antecipadamente suas verdadeiras intenções para, nesse espaço chamado relacionamento, desarmar-lhe o bote que me subjugaria. Mas na espera do reconhecimento da vitória, quando ela chega, frustra. Não passa apenas de um tolo xeque-mate. E o sentimento é o de não ser importante. Não sei como e nem quando me tornaria importante na vida do outro. Outro que não o escolhi e que, de tantos, nunca o encontrei. É sobre isso que preciso escrever... vida e morte.
Prefiro, então, o meu mundo, para não ser preciso utilizar-me de qualquer forma de poder. Minha realidade, suspeito existir só dentro de mim, indiferente aos outros; aos outros mundos. Sequer, conheço inteiramente o meu mundo; dois mundos tão distintos; eu olhando o externo, chamando-o de você; o eu externo a me olhar, chamando-me de você. Dá a mim a sensação de eu não ser eu e nem ele ser ele. Sensação de não existirem nem pessoas e coisas e nem de eu estar aqui, vivo. É tudo um sonho?
No meu universo solitário invento pessoas irreais, refletidas em um espelho mágico. Um pequeno universo. Há a teoria dos físicos: o grande Universo é um só e finito; o que nele vemos contido e nos dá a ideia de infinito é só seu reflexo. Saber que até mesmo o Universo terá o seu fim, consola a dor que o medo da morte me causa. Esse Universo, tão misterioso pra humanidade, também tem seus espelhos refletindo as irreais imagens que enganam: estrelas que já há milhões de anos deixaram de existir e, ainda assim, mantêm suas cintilâncias. Nossos corpos, organismos e mentes são réplicas do grande e finito Universo. Sou também seu reflexo. O que existe nele existe em mim. E saber que até essa Natureza Universal, criadora e criatura, irá morrer...
Eu já quis morrer! Mas como os meus pensamentos não seguem em linha reta, agora não estou mais querendo o que é provável, talvez inevitável: o encontro em um atropelo, antes da hora e local marcado, com o que me é destinado. O que chamo de duelo da minha vida com a minha morte, de espíritos desarmados. Sem a contagem de passos, sem trapaças e sem armas. Nenhuma testemunha, mesmo que haja a assistência de alguma gente curiosa. A morte não pode ser vista e muito menos vivida por outros, a não ser pelos dois protagonistas posicionados nessa encruzilhada dos encontros marcados. Morrer é sair de cena. O último olhar será para o pedaço do espelho quebrado que irei carregar comigo. Reflexo: vulto que volta, antes de cair na densa sombra. Ser esquecido. Passar a ser mais outra estrela morta com a energia da memória durando só por mais um pouco. A morte desfaz os encantos da vida, em elos e duelos com os espelhos. Aí os pensamentos ferem. Quebrei-me juntamente com o meu espelho e agora me multiplico como as estrelas estilhaçadas pelo Universo.
Querer o suicídio não é necessariamente querer morrer; é querer outra vida diferente. Vida após o caos.
Não sei se alguém já disse o que acabo de pensar e dizer. Todos pensam e quase sempre dizem o que pensam de uma forma ou de outra, já que há tantas formas de expressão e tantas mentes criativas. Como disse Aristóteles, o ser se diz de tantas maneiras. É preciso resgatar o valor das palavras. Até mesmo os que pensam em linha reta têm sempre os seus pensamentos propensos a se cruzarem com os dos outros. Caminhar em linha reta é pra quem tem objetivos. Eu não mais os tenho, perdi-me deles. Reafirmo: meus pensamentos não seguem uma linha reta com medo de serem pegos pelo trem do destino da minha própria história. A permanente tentativa de me esquivar da vida e da morte, ambas tão particularmente a mesma entidade. Acumular energia para a fuga é engordar o corpo e a alma.
Penso nisso enquanto rodo a colher na xícara, admirando a homogênea tez do café, achando-a hoje mais preta do que nos outros dias. A sincronia nas danças da minha mão direita, do rodar da pequena colher e do café a redemoinhar na porcelana esmaltada, faz-me ver o belo e crer que só ele existe. Para não cair no canto das sereias, quebro biscoitos e os jogo dentro do café quente para poder comê-los amolecidos. Mastigo-os devagar até cansar de mim.

.não precisas de nenhuma carta de despedida pra te justificareS .justificastes por tua casa e por cada objeto nela contido, a mesa de madeira maçaranduba, a mesma madeira da estante repleta de livros, alguns deles ainda aguardando tua leitura, guarda-roupas e cabides suspendendo as roupas, as mesmas de que tu suspendeste o uso, a sapateira que esconde sapatos pisados e rotos, a cozinha pequena com seus utensílios raramente usados, as paredes com objetos decorativos, como os relógios e os espelhoS .casa que revela quem tu éS .a vida e a morte são tua moradA
.enquanto andas pela casa a cumprires os teus pequenos atos cotidianos, singelos, eu daqui de dentro ofereço o grande sentido possível para tua vida quietA .em mim todas as tuas ações e intenções ficam mais profundaS .dentro de mim está o teu legado que ganhou maior significado pela minha narrativa da tua história não contadA .em mim está o teu contrário por ti ainda não vividO :te convidO vem pra dentro, e-terno menino, entra no espelho e joga com alicE seu enigmático jogO  

Outro dia, acordo. Mais um dia-e-mais-outro-e-outro-mais.
Ainda chove.
Nos tempos em que saía de casa, andava pelas ruas e, vez em quando, as pessoas esbarravam em mim por simplesmente não me enxergarem. Elas nem me olhavam pra não terem que me ver. Tornei-me invisível como a perna que falta ao Saci. Mas, insisto com a coragem de andar em linhas tortas! Tenho ainda minhas duas pernas a recuperar pra continuar a caminhada, ziguezagueando pra todos os lados, trazendo em mente a esperança que, talvez naquele lado onde haja a possibilidade do tropeço, encontrarei o meu destino desejado. A ponta do meu arco-íris preto e branco sem tesouros.
Desisti de esperar que as coisas sejam definitivas como a felicidade e o amor. Não há felicidade, tampouco o seu contrário. O bom vem à luz porque o mau sai com sua sombra. Para haver algo, tem-se que provocar o nada.
Preciso morrer. Isto se faz necessário a qualquer escritor para que se vendam mais os seus livros. Meus biógrafos diriam o quanto fui genial, autêntico e, naturalmente, incompreendido pela crítica e o público de leitores que não leram a minha curta, porém significativa obra. Só esquecerão, quando referirem-se ao meu nome, de darem a ele o seu real sentido e significado. Raí Cordeiro, simplesmente. Propositalmente fictício para que carregasse em si a maior de todas as contradições da tortuosa condição humana.


Sérgio Janma

sábado, 12 de maio de 2012

Liberdade no Terreiro da Alegria

Sempre quis ir a um terreiro de Candomblé. Sabe aquele sonho de criança? Minha família carola-católica-apostólica-paraibana tentava-me pôr medo: demônios possuem os corpos das pessoas, tudo dá pra trás nas vidas dessas pessoas que ficam amarradas pelo diabo e mais outras afirmações desse tipo. Mas tudo o que me põe medo me atrai. Tenho como objetivo de vida desmistificar os mistérios do que é oculto pra torná-los cultos.
            Até que esse dia chegou. Meu amigo Dartanhã, na época marido, tinha uma colega de trabalho que teria sua iniciação na religião afro-brasileira: A festa de Saída de Iaô. A noite de sábado três vezes adiada finalmente chegou. Fomos nós três: meu marido, eu e minha vontade ansiosa por sua realização.
            Antes de prosseguir com esta narrativa devo adiantar que não sou religiosa, porém não sou ateia. Contraditório? Não. Acredito na vida além dos corpos. Vida maior, total, universal. Pra mim, somos partes desta vida além de nós. Uma nano-célula no organismo vivo do Universo.
            Chegamos, guiados pelo croqui em mãos e informações dos passantes daquelas ruas do subúrbio. Onde é o terreiro do pai Dodô? Impressione-me já na entrada. Esculturas de orixás variados. Expressões assustadoras. Tudo o que eu queria: ser surpreendida pelo o que via. Lá dentro, calor, incensos, fumaças de defumações, cigarros e cigarrilhas. Meu companheiro nessa aventura que não suporta calor, incensos, fumaças de defumações, cigarros e cigarrilhas... saia e voltava do recinto. Eu não me incomodava com esse ambiente. Faz parte do ritual, é da cultura vinda do outro lado do oceano.
            Premeditando o ritual que viria pelos toques dos ogãs nos atabaques e macumbas, lembrei-me dos versos do poeta-brincante Mário Pirata “... toda alma quando solta/ toda alma quando livre/ é percussiva.” A liberdade me vinha aos poucos através dos sorrisos de bem-vindas, abraços, reconhecimento sem nunca ter se conhecido, indumentárias multicoloridas e monocolores. Cores representativas dos orixás, explicou-me meu marido. Não me importava. Só queria aquilo. Esse ambiente onde cabem todos. Ninguém ali traz consigo seu sobrenome, profissão, nem condição social, sexual, ideológica, política... são apenas pessoas na sua condição humana imperfeita.
            Minha alma teve mais liberdade quando o Pai Dodô, mulato velho de estatura mediana, vestido de branco da cabeça aos pés, deu início aos trabalhos com rezas católicas, demonstrando o sincretismo religioso daquela sessão. Acompanhado de seu braço direito, ajudante direto, creio, com uma toga que parecida ter mais cores que o próprio arco-íris. Traziam atrás deles, uma dança circular e cânticos, ora em português cabloco, ora em orumbá.
            Saiu de dentro de um pequeno quarto, que mais tarde fiquei sabendo se chamar roncó, a colega de meu marido com vestido vermelho de cigana, cigarrilha e uma taça de champanhe nas mãos. Era a personificação da cigana Jurema, uma das pombas-gira. Séria e compenetrada, a cigana puxava o cortejo com muita alegria nos cânticos de letras maliciosas e de dúbio sentido. Tudo era uma grande brincadeira. Mulheres e homens mudavam de repente de expressão e simplesmente caiam e eram levantados pelos mestres e voltavam-se cavalos de alguma entidade do mundo dos espíritos. Dartanhã achava assustador, teatro dos horrores, disse, eu achava uma bela e significativa representação antropológica. Jurema gritava palavras chulas, próprias do mundano ambiente de cabarés. A todos ofereceu do seu champanhe e cigarrinha. Sem mais beber e nunca ter fumado, bebi e fumei. Dartanhã, decepcionado comigo, retira-se do recinto resentido. Não me importo. Queria ver onde aquilo tudo iria dar.
            Intervalo. Teria a segunda sessão para outra iniciação da agora também minha amiga. Uns vinte minutos depois, veio ela, ou melhor, ele, o seu Zé Pilintra. Vestido de fraque e cartola sobre a cabeça da mulher-cavalo de coques nos cabelos. Essa entidade é um preto cachaceiro, dado a farra. Bebia cachaça Jureminha (homenagem à cigana?) e fumava charuto. Abraçava a todos com afeto, soprava fumaça em toda a cabeça de quem era a vez e perguntava o que queria lhe perguntar. Bebi da sua cachaça e fumei do seu charuto sem tragar. Ele foi com minha cara e me tirou pra dançar.
Habeas corpus. Ganhei liberdade de corpo e alma, dançando e gargalhando com o meu novo amigo, o malandro Zé Pilintra.
Meia-noite. Hora do táxi-abóbora chamado por meu marido chegar. Chegou. Demorei nas despedidas do apaixonado Pilintra. Voltamos pra casa discutindo com discórdia o ambiente visitado. Só sei que a partir dessa noite, nada foi como era antes. Separamo-nos porque isso se tornou o ônus imposto pelo o que diferentemente experimentamos. A separação aconteceu após nossa experiência com os mistérios do culto afro; para o bem ou para o mal, como apregoa minha família, não saberei dizer. 


Sérgio Janma – 12.05.2012