"Leia como quem beija, beije como quem escreve"
(Maxwell F. Dantas)
domingo, 12 de maio de 2013
domingo, 13 de janeiro de 2013
segunda-feira, 31 de dezembro de 2012
Morgana Mijou na Cama; Meu Feliz Ano Novo
Minha filha com seus três anos e oito
meses já não quer mais dormir de fraldas, diz “já sou menina”. Mas às vezes sua
bexiga lhe trai essa vontade de ser grande pela vontade (incontrolável!) de urinar. Na noite passada foi assim. Fomos dormir em minha cama e após uma hora
de tranquilo sono, Morgana teve um sonho molhado. Ela não acordou, acordei eu
pelo encharcado lençol de baixo. Enquanto minha filha dormia, troquei-lhe a
roupa molhada e mal cheirosa por outra limpa e cheirando a amaciante. Para não acorda-la, coloquei
outro lençol por cima do que estava mijado e voltei a deitar ao seu lado.
Sua
carinha linda dormindo em um sono profundo foi minha compensação. Pensei que o ocorrido também me faz feliz. Somos felizes por sermos só nós dois, juntos no aqui e agora, sobre
lençóis mijados.
Não me aborreço
com minha filha por estar deitado sobre sua urina secando ao calor da noite e, tampouco,
com o aumento do cheiro peculiar da ureia. Morgana só tem três anos e oito
meses e todos os direitos. Ela me faz feliz incondicionalmente. Mostra o quanto
me ama ao exigir de mim presença constante.
Enquanto olhava minha
filha, admirado por tanta beleza e inocência, lembrei-me de um poema meu, antigo,
que escrevi na primeira página da agenda daquele ano de muitos passados. Não
lembro textualmente desse poema. Vagamente lembro que tomei o ano que mudava o
calendário como se fosse um bebê recém-nascido e os champanhes em comemoração
ao seu nascimento era o que molhavam suas fraldas.
A simples
mudança de calendário pode servir de sugestão para mudarmos também o tempo
dentro de nós. Se não podemos mais voltar ao tempo de crianças, quem sabe se
não conseguimos resgatar o olhar delas? Matarmos o que já está velho em nós e
deixarmos aflorar o novo. Afinal, não só morrem os anos velhos para nascerem os
novos, em nós também a vida como a morte é só renovação na mesma
constância.
Enquanto o tempo
passa fazendo o passado ficar marcado em nossos corpos e almas, provocando o
futuro com um presente efêmero, por minha vez fico neste tempo de Morgana que
nem tá aí se há ou não viradas de anos... sua virada é a de me virar neste pai
bobo. Minha filha me virou em um apaixonado pela vida que ela me faz viver.
Sérgio Janma – a
poucas horas de 2013
terça-feira, 11 de dezembro de 2012
Saco Cheio, Saco Vazio
Saco Cheio, Saco Vazio
Bráulio Pezão há muito estava só. Nos últimos velozes anos a fome voraz da idade comeu-lhe a saúde, a beleza, o másculo corpo jovem e até a paciência pra viver em sociedade. Mas o tempo não comeu a sua libido. Esse vigor a velhice não lhe roubou, ainda. Sexo lhe é uma necessidade acima de tudo fisiológica.
A vida lhe impôs este paradoxo como a um pesado fardo obrigatório de ser suportado em seu cotidiano. Precisava de sexo, mas não queria relacionar-se com ninguém. Sair pra se expor nas vitrines dos meios sociais propícios à caça de sexo fácil o faria sentir-se um velho ridículo. Ele não tinha mais o traquejo das cantadas fúteis e pouco lhe interessava o infantil processo roteirizado das conquistas amorosas. Esse chato conhecer e se deixar ser conhecido também o cansava. O tempo agora urge e ruge como leão faminto. O agora de Bráulio não permite mais as prévias, tem-se só vias pra de fato se ir em frente e adentro.
Se não lhe estava destinado conhecer mais ninguém, o que fazer? Bráulio Pezão pensou, pensou e concluiu que se ele necessitava só de sexo pra voltar a ser um ser pleno, teria que se resolver sozinho. Considerou ceder ao extremo narcisismo de seu ego. Admitiu a masturbação como solução ao seu dilema existencial. Mas pra isso, teria que contar apenas com sua imaginação, a qual não andava nos últimos tempos lá muito criativa.
A única imaginação que Pezão teve veio-lhe voando em asas, trazendo-lhe como imagem holográfica uma mulher de mentira pra torná-lo um homem de verdade. A mulher inflável, sim! Correu à internet e pesquisou o produto que passou a ser o seu mais urgente sonho de consumo com a finalidade de consumir-se a si mesmo. A diversidade de mulheres-bonecas abundava nos sites dos sex-shopping. A que Bráulio passou a mais desejar era uma imitação da atriz mais sensual da última década, boneca inflável super-realística em cyber Skin. Ela foi toda moldada no corpo da atriz, afirmava o anúncio, para que o cliente tenha a oportunidade de senti-la em sua cama pronta para seu prazer a qualquer hora! A boneca tem um rosto perfeito, cabelos macios, seios robustos e três orifícios apertadinhos para penetração. A bolha térmica nos orifícios proporciona sensação de calor. Loucura, loucura, loucura!, esbravejou Pezão. Uma gata de cabeça similar à real, rígida, com cabelos e num lindo rosto olhos plantados que abrem e fecham seus cílios fartos. Tem vibrador embutido e movimentos de pulsação para apertar o pênis, através de bomba pera, proporcionando um incrível sexo oral! O par de seios é firme e farto com os seus mamilos excitados. Um vibrador bullet para aumentar o seu prazer emitindo som de gemido. É recomendado o uso de preservativo. Originária do Japão alimenta-se de quatro pilhas AAA não inclusas no pacote. Altura, aproximadamente, 1,50m. Ideal pra os seus 1,60m, considerou Pezão. Confeccionada com material super macio 100% antialérgico. O anúncio ainda alertava que o contato com lubrificantes à base de silicone, óleo ou de produtos à base de petrolato pode causar danos à superfície do brinquedo sexual. Os lubrificantes a serem usados devem ser à base de água. Lavar com água e sabão neutro antes e após o uso. Recomenda-se fazer a higienização com produtos específicos para limpeza de brinquedos eróticos e, importante, não compartilhá-lo. Deve ainda se ter o cuidado de conservar a boneca fora da luz solar e não a expor à temperatura superior aos 50ºC. Junto à boneca inflável será enviada uma prática sacola em tecido para guardá-la e uma bomba para inflar, além de cola para reparo em caso de furo do material. IMPORTANTE: NUNCA FAZER O REPARO DURANTE O USO!
Sem muito recurso financeiro pra o pagamento à vista, com seu cartão de crédito Bráulio comprou, em dez parcelas mensais, a mulher que tinha mais recursos pra sua satisfação sexual.
Agora quando está de saco cheio, Bráulio Pezão esvazia-o com violência na mulher inflável, infalível, jogando o jogo do sexo brinquedo que o faz se sentir mais másculo. E o homem realizado? Pezão nem se faz essa pergunta. Contenta-se com essa mulher vazia que ele pode encher de vento e das suas vontades desenfreadas.
Sérgio Janma
Clube do Conto da Paraíba – 13/01/2023
Tema: Sexo
Começo da sua escrita
sábado, 17 de novembro de 2012
Às Costas do Anjo de Costas
Conto requentado apresentado no Clube do Conto em 17/11/2012
Gabriel Solís, mercenário. Colecionador
de orelhas inimigas, mortas. Orelhas, com seus lóbulos furados pela ponta de
uma baioneta, alinhadas num colar. Duas voltas e meia de orelhas, engrossando
ainda mais seu pescoço, já o tendo tornado grosso por seus constantes esforços
em gritar para chamar a atenção sobre si. Usa as orelhas também para ser
ouvido? Nunca vi meu amigo usar o colar com tais orelhas empalhadas. Talvez
seja só o fetichismo solitário de um serial-killer
profissional, trazendo-lhe lembranças inconscientes do tipo escalpe,
apropriadas ao sangue índio em suas veias latinas. Puro Inconsciente Coletivo
antropofágico de um autêntico charrua. Isso se, é claro, os charruas fossem
canibais.
Seus cabelos lisos têm um lustro brilho. Natural. Como parece ser
natural o sorriso, ou o não sorriso, que traz consigo em seus documentos falsos.
Sem o falso sorriso na foto 3/4, onde sério e de olhos arregalados, mostra
suportar valentemente o estrangular da gravata tentando afinar-lhe o pescoço.
Conheci Solís em Porto Alegre, num frio final de junho, na metade dos
anos 80. Um tempo em que tudo era quase democrático. E era democrático ter que
ouvir, naquele frio cortante, a fumaça de sua voz. Vapor sonoro saindo da fossa
quente de sua boca. A voz modelada era quase navalha arremessada, metálica,
para fora de suas outras fossas, as nasais. Fio de som agudo perfurando o
ouvido de minha viva
orelha-esquerda-de-nódulo-furado-como-o-próprio-brinco-de-ônix. Por este ouvido
esquerdo que me chegam os sons mais altos, já que pelo outro não ouço direito.
Sua voz cortava o ar frio, arrepiando mais do que as sanguinárias
bravatas das estórias que depositava nos meus ouvidos, sarcasticamente narradas
com mórbidos detalhes.
Solís, conta ele, lutou em guerras alheias em missões terroristas. Às
vezes paraquedista, outras vezes fuzileiro... Também sendo lanceiro de tudo o
que se lança e é morteiro.
O visionário poeta fala alto e estridente, enquanto vai picando com
punhal de prata marroquino o fumo que diz ser cubano, tal quais os charutos Hoyo de Monterrey que também os fuma nas
horas em que precisa ser sofisticado. Isso quando não cala sua pequena boca no
cachimbo filosofal, por nobre opção tabagista. Chama de filosofal o seu
cachimbo por tê-lo comprado na Grécia e servido às pedras de ópio chinês. E
assim, ocupa-se, entre um charuto e outro cachimbo, da paz deste novo tempo que
se esvai em improdutiva conversa monologa recheadas de ações.
Além do punhal, também é de prata quente a bomba do seu chimarrão.
Cotidianamente, em horários apropriados, vai cevando o verde pó dessa amarga
erva. Chia a chaleira no ritual quase santo. Chaleira cigana e erva guarani. A
sensação é a de limpeza da alma ao beber aos poucos aquela água quente com
cheiro e gosto de mato, esquentando por dentro e esverdeando a língua. Limpeza
prolongada para depois do ronco da bomba no fundo da cuia, quando a água
esverdeada seca. Seus fantasmas mutilados, tanto os antepassados quanto os de
hoje, chegam-se para a próxima rodada de mate amargo, servido pela própria
deusa Caá-Yari* já com a erva quase
inteiramente molhada.
Matador vocacionado que é, acredita em deus e... no diabo como sócio do
divino na messiânica tarefa de executar os sacros serviços sujos. Para Gabriel,
depois da criação de tudo o que seria proibido ao Homem conhecer, deus
descansou no sétimo dia, ficando o diabo em seu lugar. Folguista de deus, o deus-suplente fez-se também
criador nesse dia. Conheceu-se então, o verdadeiro Sétimo Céu. Lugar onde se
esconde o titereio que manipula as cordas das marionetes no Reino Universal de
Deus.
Tornando-se adepto à religião que professa ser deus um só quarteto,
Gabriel vê no diabo a cara escondida e suja de um deus esquizofrênico. Sabe ele
que na dança do Kabuki e no Teatro Nô, encantatório ideograma
japonês com seus dois mil e quinhentos gestos simbólicos e gritos guturais, vêm
sendo secularmente mostradas as diversas máscaras dos deuses e demônios.
Máscaras que os atores, sacerdotes telúricos, usam-nas como convém,
apropriando-as a cada situação criada para a inocente condição da natureza
humana.
Este homem, Solís, carrega o nome do Anjo Gabriel sobre sua cabeça
batizada por aspersão e untada por benzidos óleos. Na cabeça também carrega
muitas lembranças de mortes sem nomes, pesando-lhe a consciência.
Noutro dia, ao final de uma tarde fria, Gabriel Solís fez sua aparição
na Casa do Poeta. Vinham atrás, rebocados, sua mulher brasileira e o casal de
filhos pequenos. A esposa prendada montava-se de prenda em seu vestido de chita
e o rosto rebocado de ruge e batom. Ele, pilchado
a rigor. Iriam à festa junina de S. João com as crianças embrulhadas em panos
quadriculados, fantasiadas de tabuleiro de xadrez. Noite de São João, pular
fogueira, comer pinhão. Beber quentão para enrubescer de calor as faces. Ele gaudério, ela chinoca.
Vira eu o taura amansado pelo
amor da família. O homem Solís redimiu-se com deus e o diabo, passando a
confundir-se com o anjo não apenas no homônimo.
A admiração por seu homem era flagrante no olhar daquela mulher. Nos
seus olhos, a constante espera pela surpresa prometida ao destino do marido
que, vez em quando, misterioso viaja clandestino para ver sua mãe no Uruguai.
Solís. O marido, o pai, o filho e espírito desarmado de santo, ou anjo.
Gabriel, solícito guardião da paz, da vida e da morte dos seus e seus destinos.
Chega a ser impróprio para si esse tão óbvio, evidente e claro destino
negro de anjo, quase lenda. Certamente, criação divina.
*Caá-Yari:
deusa da erva-marte e protetora da Raça Guarani.
Sérgio Janma
sábado, 10 de novembro de 2012
Esqueceu-esse-é-meu
Essa ouvi do meu vizinho do lado, “Seu” Neves, homem pacato, sério, mas muito conversador. Conta histórias nas quais sempre ele é o protagonista. Disse-me ontem, enquanto estávamos sentados os dois na calçada, que já foi vigilante do Sindicato dos Servidores Terceirizados do Estado. Único homem de confiança e amigo do então presidente daquela associação, segundo ele. Contou-me ele que a inusitada história teve seu início quando da compra de um cofre para auxiliar no controle do fluxo de caixa daquela agremiação. Na medida em que se aumentava o quadro de sindicalizados, maior e mais complexa ficava a sua movimentação financeira. Diante da necessidade frequente de saques ao caixa da agência bancária, ficara inviável se custear os gastos diários da entidade e até mesmo os pagamentos semanais à prestadores de serviço. Foi então que a diretoria decidiu comprar um cofre para reservar-se o dinheiro suficiente para esses custeios. O cofre comprado foi devidamente instalado na parede da sala da presidência, sobre a janela, por trás de uma extensa e grossa cortina escura que tinha como principal função ocultá-lo.
Após o saldo verificado, o saque foi autorizado pelo gerente do banco. Em lugar reservado pela agência, ficou “seu” Neves, único homem de confiança do chefe, a conferir uma contagem de R$150.000,00 em cédulas de 100 e 50 reais na sua maioria e umas poucas de 20 e 10 reais para o sindicato dar os seus trocados. Sem levantar suspeitas, o vigilante saiu do banco chegando logo ao seu destino sem nenhum atropelo. Em um momento solene com apenas três presentes, o presidente Reginaldo, o tesoureiro Zaqueu e o vigilante “seu” Neves, o dinheiro foi devidamente aprisionado no cofre, cela de valores e muitos segredos.
No dia seguinte haveria na sede do sindicato uma reunião de dirigentes regionais afins. Esse evento programado nas vésperas criou a necessidade de se tomar medidas de última hora. A mais importante de todas fora a viagem naquela noite à vizinha cidade do Recife, a fim de promover exaustivas reuniões para tratativas de assuntos sigilosos a serem repassados na reunião do dia seguinte. A urgência das ações a serem tomadas pelo presidente daquela associação fez “seu” Neves, único homem de confiança, ser o veloz motorista para a tal viagem.
O sindicato então precisou contratar às pressas para aquela noite um vigilante folguista. Missão que coube ser cumprida por “seu” Neves, devendo ser muito criterioso na sua escolha por quem iria substituí-lo na insone função que exige de quem a exerce extrema responsabilidade. Sem precisar pensar muito se lembrou de Pudim, veterano das guerras etílicas, hoje um sóbrio aposentado beirando os seus setenta anos. O velho Pudim haveria de quebrar o galho em vigiar só por uma noite os valores e patrimônio daquela organização de trabalhadores.
Pudim, muito responsável, estava no sindicato dez minutos antes da hora marcada, exatamente às 18h50min. Até às 21h nada fora do normal. A essa hora Pudim já tinha comido o jantar deixado pra ele na geladeira, dispensando a sobremesa, não por achar proibitivo comer seres da mesma espécie, mas mais por não gostar de doces em geral.
Na sua vigília, Pudim certificara-se de estarem todas as portas fechadas para a sua ronda pelo lado de fora. Mesmo tendo vista curta pela idade, o velho olhava tudo com muito vagar e atenção para compensar a escuridão que se fazia nas ruas. Não tendo visto nada de suspeito que merecesse uma atitude mais repressiva de sua parte, o velho voltou para o interior da sede pela porta dos fundos. Para a sua surpresa, Pudim na sua mais lúcida sobriedade vê vultos de homens aparentemente bombados na sala da presidência. Quem são vocês?! Como entraram aqui?! O quê tão fazendo nessa sala?! Foram as perguntas não respondidas no interrogatório feito pelo assustado e mole Pudim. Silêncio. Antes que o vigia por ocasião voltasse com sua metralhadora de perguntas desnecessárias, no primeiro Ei! por ele dito, veio de um dos homens em tom raivoso a ordem de Fique peixe, seu velho desgraçado! Não vai calar esta boca?! Vou te encher de porrada!
Pudim levou tanta bordoada que se estatelou ao chão, ali ficando na forma condizente ao seu codinome, assistindo os três brutamontes fazerem o rapa no cofre ainda virgem de arrombamentos.
Dia amanhecido, Pudim com a cabeça devidamente enfaixada retornou do Pronto Socorro a tempo de ver alguns policiais vasculharem o local do crime. Os homens com coletes de Polícia Técnica vez em quando se olhavam e abanavam negativamente suas cabeças. Até que o delegado chama à parte o presidente daquela entidade e sentencia que a polícia não seguirá em frente com aquela investigação se não houver a denúncia do furto. Como assim?! Por que furto? Indaga o sindicalista. Foi assalto! Assaltaram o nosso cofre na primeira noite depois de instalado! Assaltantes roubam de assalto, senhor. Explica o policial. O caso aqui foi mesmo furto, já que quem roubou tinha as chaves. Constatamos essa evidência por não haver nenhum arrombamento nas portas e janelas, as quais estavam invioladas. Recomendo que o seu sindicato faça uma sindicância. Tenha um bom dia.
Dos três que tinham as chaves e sabiam do depósito de R$150.000,00 em dinheiro vivo no cofre, só se encontravam dois no local após o crime, o presidente e “seu” Neves. Um não desconfiava do outro e o outro não desconfiava do um. Sem ensaios, o olhar teatral de ambos, de imediato e ao mesmo tempo, foi em direção ao ainda tonto Pudim.
Não se fez denúncia e nem sindicância alguma. Deixou-se tudo como estava. Foi mais fácil e conveniente sugerir-se que Pudim, em sua ávida sede, teria bebido da água que passarinho não bebe, esquecendo-se do seu voto de abstinência, e posteriormente também esquecido as chaves na porta da frente da sede do sindicato. Desde então, o pobre e injustiçado Pudim não foi mais chamado pra substituir qualquer vigilante que precisasse faltar ao serviço nessa cidade.
Mas o mais intrigante desse fato segredado a mim por “seu” Neves, diz respeito ao tesoureiro Zaqueu que apareceu só três dias depois do ocorrido roubo, alegando ter morrido seu tio mais querido de nome Lázaro Neto, na distante cidade de Manaíra. A repentina morte do adorado tio o atormentou tanto que acabou por esquecer-se de avisar que faltaria a tal reunião do sindicato, devendo ficar alguns dias com seus inconsoláveis familiares. Porém, “seu” Neves sabia que Zaqueu tinha sido há dois anos tesoureiro da campanha para a reeleição de um popular deputado estadual, na qual também desapareceram alguns milhares de reais, enquanto, coincidentemente, era velado e enterrado um tio seu de nome Lázaro Neto na cidade de Manaíra.
O dissimulado tesoureiro, segundo “seu” Neves, estava tão confiante que acabou por simplesmente esquecer que o tal tio, oportuno álibi, ele já havia matado em outras ocasiões.
Tudo aconteceu exatamente assim, é o que “seu” Neves me garante de pés juntos mesmo sem ter morrido. Esse é o meu vizinho, único homem de confiança daquele sindicato de honestos trabalhadores.
Sérgio Janma – 10/11/2012
domingo, 4 de novembro de 2012
Tela da Solidão
Conto revisitado e apresentado no Clube do Conto em 03/11/12
No escuro da sala duelo com a tevê que me atira aos olhos cores eletrônicas. Meu corpo, inerte e nu, é tela dos movimentos virtuais do sexo-mentira do filme erótico que me assedia. (Sexo é a sede do meu corpo que, cedo ainda, cedo à sua mais aguda sede.) Ação que não me causa nenhuma reação. O monitor irradia na sala de luzes apagadas, luziscores dançantes a me tatuarem a pele. Fundo branco fluorescente. Um caleidoscópio-corpo imenso, imensurável pelas infinitas possibilidades de variar posições, formas e figuras.
O sexo em mim e por mim acabou, juntamente com o da película, no limite do seu tempo dramático. Outro filme reflete em meu corpo a pura imagem do casal de adolescentes do início do século passado a passearem de mãos dadas no jardim de margaridas, entre o gramado e os convexos relevos testemunhas do meu desgastado peito. Na hora do beijo suas bocas cruzam a minha, selando os segredos do seu amor em meus lábios, tornando-me cúmplice passivo na trama.
Meu leve toque no remoto controle faz com que o mesmo corpo, o meu, transforme-se em dois cenários sobrepostos, ilusoriamente simultâneos. O inocente romance alheio ainda guardava suas marcas de purezas na flor da minha pele, quando me sobreveio ao escuro, clarões de campos minados a explodirem pirotécnicos em ações estúpidas com mortes gratuitas, fáceis, de outro filme já na sua metade. Agora o inumano exterminador descontrolado que a tudo odeia, bombardeia o jardim de margaridas que eu insistia em regar no meu peito. A intenção da sua ação era a pura vingança vingada em mim.
Troco novamente de canal.
Vídeo-clip. Marisa Monte canta Amor I Love You aos meus ouvidos e olhos. Semi-adormeço e quase morro de tanta paz.
No jantar romântico de outro filme, quero ir além dos carnudos lábios da fêmea, úmidos, presos ao meu umbigo, servindo-lhe de taça seca para o derramar do molhado vinho tinto seco.
Agora é a vez do sexo selvagem dos latinos num filme do Almodóvar. Tantos gritos, gemidos, palavrões, sussurros, urros, murros, sofreguidão, gozo e as respirações desacelerando-se em bafo quente que não sinto soprado em minha face. Os dois corpos descansam sobre o meu teso arco de músculos e pelos.
Rolam sobre mim, neste ser resumido em um extenuado corpo, os caracteres projetados da tela, dando créditos aos nomes dos que trabalharam por detrás dos meus sonhos em insone noite de verão.
Tudo termina. Madrugada vem e a noite vai. Mágica do tempo que cria as cromáticas ausência e presença na sala-de-estar-só.
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