"Leia como quem beija, beije como quem escreve"
(Maxwell F. Dantas)

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Espelhos Quebrados Não Morrem




.no escuro não existO .apagO .luz e imagem é a minha essênciA .só me é possível a vida em imagens através da luZ .não sou só vidro com uma fina camada de aço grudado às minhas costas, emoldurado por madeiras polvilhadas de um ouro velhO .tenho imaterial constituição gerando a minha extraordinária magiA .todos os espelhos são mágicoS .refletem o inverso, mentem sobre as formas dos corpos e das faces, enganando-os quanto a idade e a aparência que têM
.nada que existe, criado, foi pra ser visto, por isso os espelhos são necessários na sua função de enganaR

Acordo sem acordar. Entre o sono e a vigília, há apenas forças no meu corpo pra abrir os olhos e ver, enfrentando-me, outro corpo no espelho da parede em frente à minha cama. Nele há refletido esse sonolento corpo imóvel, inerte duplo do meu. Carne branca, pêlos, muitos pêlos, uma mata de pêlos bicolores pelo corpo inteiro. Pretos-e-brancos-brancos-e-pretos. Nos espelhos espalhados pela casa, não quero ver mais o meu rosto com a barba por fazer. Encaro somente as minhas tatuagens que, mais do que o rosto, revelam minha verdadeira identidade.
A cada manhã acordo para seguir o mesmo roteiro há muito por mim escrito. Alongamentos de braços e dedos, enquanto penso uma contagem de 40 segundos de duração pra cada esticar dos meus músculos em busca da vida corporal necessária para seguir o meu dia. Mas hoje não. É domingo. Preguiça até pra me espreguiçar. Não me importa em nada que dia venha a ser hoje. Em licença médica nenhum dia é útil. É o que o espelho me faz lembrar, denunciando à minha consciência essas pernas enfaixadas. Tal Lázaro, ataduras podres silenciam por completo os já inaudíveis sons dos movimentos das minhas pernas. Ata, amordaça, amarra, imobiliza. Ataduras que deixam as pernas duras, garantindo-me que eu dure por mais um tempo em pé. Imolo aos deuses apenas meu sangue.
Arte que articula os movimentos. Levanto, enfim. Já em vigília, sigo pela casa cumprindo coisas que se fazem necessárias. Sinto-me vigiado. Há uma presença, além da minha, pesando o ar desta casa... não me afeta.
Moro só.
            Abro janelas e portas pra sair o cheiro sufocante das fumaças festivas das fogueiras da noite de São João no nordeste.
            Dia calmo. Sol e chuva se intercalam como se combinassem dividir o mesmo espaço entre o céu e o solo. A chuva é boa pra uns, o sol pra outros, e assim o dia fica mais bonito. Também estou mais calmo que nos dias anteriores. A paz me vem pelos medicamentos, não me lembrando mais das suas idas-e-vindas como condição da depressão. Apenas lembro, pra começar com coragem meu novo dia, o que pensa de mim uma amiga... parece um lago quieto. Vejo hoje tudo pelos olhos da razão e não mais pela violência contida. Sinto a harmonia em meu universo particular.
            Não mais me masturbo. Libido em baixa. Só tenho sonhos que não se fixam na memória, mas que ainda me trazem ereção. Minha memória, ou talvez a sua falta, serve agora somente pra aquietar os dramas.
            Enquanto a chaleira ainda não ferve a água para o ato mecânico e contínuo de passar café, bebo em jejum um copo de água do filtro e como uma castanha do Pará. E já sabendo que o dia me acontecerá em ordem, tenho o controle do ritmo de meu coração e mente. Minhas ações se desencadeiam em arquitetados planos distintos.
            Num dia como hoje, igual à ontem, há pouca coisa a fazer. Um livro pra terminar de ler, após sete arrastados meses de empréstimo. Pedir o almoço por telefone por não poder caminhar e sair de casa. Fazer operações bancárias pela internet e, sem muita paciência, navegar nas redes sociais, sempre off-line, só pelo tempo necessário para as dores pesarem e o meu corpo pedir descanso.
            Embromo assim o dia com permissivas futilidades. Elas não pesam em minha anestesiada consciência e me aliviam a lembrança de que preciso escrever o que é preciso.
            Este meu cotidiano é a máscara viva que uso. É o patuá protegendo o que em mim não quer morrer. Se eu matá-lo, exponho-me a minha própria morte.
            Sou Raí Cordeiro, escritor sem escritos relevantes. Meus documentos trazem outro nome, bem mais longo e comum, visto haver tantos homônimos.

...vives a vida através do espelho, por nele refletir as conversas mudas, bocas, caras, roupas adequadas, ensaios de seduçãO .sexO .pensas que tens algo muito importante pra dizeres aos outros, à humanidadE .és alguém dentro de uma casa, casulo, fazendo coisas sem importância, quase quieto, inofensivo, mas atordoando o que há forA
.te mandaram cresceres e foi o que fizeste no decorrer de um longo tempo, deixando aos poucos de veres o que havia dentro do teu espelho, quando ainda eras criança, único espaço em que dele te apropriavas e  podias ser lúdicO 

Outro dia pra acordar. Acordo. Hoje o espelho me mostra um dos curativos jazente no frio piso cerâmico do meu quarto. Mais uma vez postergo os alongamentos dos meus membros superiores, assim como o banho não tomado ontem, programado pra essa tarde.
            Café feito como repetição da mesma ação cênica dos incontáveis dias anteriores. 
            Amanhã a Galega virá. A mulher que faz quinzenalmente a faxina e também as compras da semana no mercadinho mais próximo. Hoje nada a fazer a não ser deixar o tempo se cumprir no meu cotidiano. Refazer e refazer os dias sempre iguais.
            Só há em mim a ação de pensar, ou tentar pensar, naquele passado onde penso existir mais vida. Não encontro passado que valha lembrar. Sem futuro, tornei-me rei coroado pela solidão de estar aqui e agora. Só existe o agora entre o passado e o futuro.
            Ar pesando à volta, deixando os meus movimentos mais lentos. Do caos que provoquei vem outro movimento. Mas não agora, não aqui.
            No almoço, sirvo-me de vinho tinto seco e brindo à vida e à morte como se elas fossem uma pessoa, única.
Escrevo, então, para não enlouquecer. O que escrevo me ultrapassa... ultraleve me fará voar com outras asas, em direção, intenção, ao meu único e perfeito dia. No entanto, enquanto escrevo e me debato feito lagarta nesta casa, o cotidiano medíocre me conduz ao dia seguinte.

.sou espelho e mintO .mostro apenas as distorcidas imagens do que chamas real, a outra verdade revertida pelo reflexo dos teus contrasteS ?é um sonhO ?o que é sonho e o que é reaL ?o real está no sonhO .o irreal que o engana, contendo-o em um mundo que se prolifera de coisas e pessoas dentro dele e ao meu redor, inchandO ?ele  existE .os mundos não conseguem viver sem miM .refletindo, faço crer que as imagens tua, delas e de todos, serem a verdade, única, tendo-a como sua propriedade exclusivA :deixo a dúvidA ?as imagens existem apenas como reflexos, sem serem reaiS ?como sabes que as outras pessoas existeM ?serás sÓ .mortos-vivos sem extrema unçãO .os espelhos quebrados fragmentam os teus pensamentos, sentimentoS
.tudo que é duplo é apenas um só seR .inversamente como num espelho que só faz veres as duplicidades dos contrasteS .opostos o bom e o maU .a parte boa sofre por ser boA .é aquela que busca a felicidadE .não pode achar, na sua infrutífera procura, o que não existE .desistE .a desilusão faz com que ela queira ser a parte mÁ .o teu eu bom e o teu eu mau se amam, mas se rejeitaM .o bom é quem quer matar o maU . aí o bom torna-se maldosO .o mau só está no seu papel, tornando-se indesejadO .é quem te faz ter pesadelos e te acorda quando sonha os sonhos de felicidade realizadoS .desejas segregar o eu mau à margem do convívio humano, condenando-o a estar eternamente preso em uma ilha solitária de rotas perdidaS
.a meia idade quer tornar os homens adolescenteS .não é por que chegaste nesta idade da inutilidade economicamente produtiva que pensas e sentes da mesma forma a solidãO !mesmo com os anestésicos, tens vivo o tesão no teu corpo, eu vejO .entope-te de remédios que só servem pra embotar tua alma, volatizar teu vaziO ?o que fazes pra melhorares o gosto da vidA !queres um corpo colado ao teu, dentro um do outro e não forA !o homem ama o seu próprio paU .o seu feminino, o eu por ele não reconhecido, é o seu melhor amigO .o feminino no homem dimensiona a relação do seu macho com a sua fêmeA .é o feminino inconsciente dele que busca o encontro com o seu masculino, fazendo-o um homem por completO .inteiro e plenO

Acordo, como em todas as madrugadas, por pesadelos que minha memória esconde atrás da sua providencial cortina do esquecimento. Lanço-me da cama ao banheiro e urino um turvo líquido por demais amarelo-escuro e fedorento. Vou até a cozinha me arrastando e bebo num só gole um copo cheio de água, ordenhada do filtro de barro.
Chove.
Não me olho mais nos espelhos. Cansei de ser Narciso a se enganar ao olhar nas águas um rosto que nada mais é do que o seu contrário refletido, o avesso. Agora não mais mantenho a saúde corporal de um jovem e me falta paciência para a juventude. Estou em idade de buscar o real. O avesso-do-avesso-do-avesso, como já disse um compositor famoso em sua famosa música. Na verdade, busquei o real por todas as minhas idades. Desde a não vivenciada infância, busquei as verdades. Mas as verdades podem não ser reais. Todas as pessoas têm suas próprias verdades.
Entendi, então, com a idade avançando, que o real ao qual buscava não é sinônimo de verdade. A verdade é a vida que cada um acredita ter e viver. O real é outra coisa. É o que integra o meu mundo interior, tanto quanto consigo ser íntegro. Interagir com o mundo exterior é outra história. E quando me torno sombra daquelas pessoas que escolho por admiração, aí sou apenas ação-e-reação-reação-e-ação. Convivência com o outro é andar na corda bamba. Se quero manter boas as relações sociais e amorosas tenho que jogar o jogo das previsões do outro jogador. Supor antecipadamente suas verdadeiras intenções para, nesse espaço chamado relacionamento, desarmar-lhe o bote que me subjugaria. Mas na espera do reconhecimento da vitória, quando ela chega, frustra. Não passa apenas de um tolo xeque-mate. E o sentimento é o de não ser importante. Não sei como e nem quando me tornaria importante na vida do outro. Outro que não o escolhi e que, de tantos, nunca o encontrei. É sobre isso que preciso escrever... vida e morte.
Prefiro, então, o meu mundo, para não ser preciso utilizar-me de qualquer forma de poder. Minha realidade, suspeito existir só dentro de mim, indiferente aos outros; aos outros mundos. Sequer, conheço inteiramente o meu mundo; dois mundos tão distintos; eu olhando o externo, chamando-o de você; o eu externo a me olhar, chamando-me de você. Dá a mim a sensação de eu não ser eu e nem ele ser ele. Sensação de não existirem nem pessoas e coisas e nem de eu estar aqui, vivo. É tudo um sonho?
No meu universo solitário invento pessoas irreais, refletidas em um espelho mágico. Um pequeno universo. Há a teoria dos físicos: o grande Universo é um só e finito; o que nele vemos contido e nos dá a ideia de infinito é só seu reflexo. Saber que até mesmo o Universo terá o seu fim, consola a dor que o medo da morte me causa. Esse Universo, tão misterioso pra humanidade, também tem seus espelhos refletindo as irreais imagens que enganam: estrelas que já há milhões de anos deixaram de existir e, ainda assim, mantêm suas cintilâncias. Nossos corpos, organismos e mentes são réplicas do grande e finito Universo. Sou também seu reflexo. O que existe nele existe em mim. E saber que até essa Natureza Universal, criadora e criatura, irá morrer...
Eu já quis morrer! Mas como os meus pensamentos não seguem em linha reta, agora não estou mais querendo o que é provável, talvez inevitável: o encontro em um atropelo, antes da hora e local marcado, com o que me é destinado. O que chamo de duelo da minha vida com a minha morte, de espíritos desarmados. Sem a contagem de passos, sem trapaças e sem armas. Nenhuma testemunha, mesmo que haja a assistência de alguma gente curiosa. A morte não pode ser vista e muito menos vivida por outros, a não ser pelos dois protagonistas posicionados nessa encruzilhada dos encontros marcados. Morrer é sair de cena. O último olhar será para o pedaço do espelho quebrado que irei carregar comigo. Reflexo: vulto que volta, antes de cair na densa sombra. Ser esquecido. Passar a ser mais outra estrela morta com a energia da memória durando só por mais um pouco. A morte desfaz os encantos da vida, em elos e duelos com os espelhos. Aí os pensamentos ferem. Quebrei-me juntamente com o meu espelho e agora me multiplico como as estrelas estilhaçadas pelo Universo.
Querer o suicídio não é necessariamente querer morrer; é querer outra vida diferente. Vida após o caos.
Não sei se alguém já disse o que acabo de pensar e dizer. Todos pensam e quase sempre dizem o que pensam de uma forma ou de outra, já que há tantas formas de expressão e tantas mentes criativas. Como disse Aristóteles, o ser se diz de tantas maneiras. É preciso resgatar o valor das palavras. Até mesmo os que pensam em linha reta têm sempre os seus pensamentos propensos a se cruzarem com os dos outros. Caminhar em linha reta é pra quem tem objetivos. Eu não mais os tenho, perdi-me deles. Reafirmo: meus pensamentos não seguem uma linha reta com medo de serem pegos pelo trem do destino da minha própria história. A permanente tentativa de me esquivar da vida e da morte, ambas tão particularmente a mesma entidade. Acumular energia para a fuga é engordar o corpo e a alma.
Penso nisso enquanto rodo a colher na xícara, admirando a homogênea tez do café, achando-a hoje mais preta do que nos outros dias. A sincronia nas danças da minha mão direita, do rodar da pequena colher e do café a redemoinhar na porcelana esmaltada, faz-me ver o belo e crer que só ele existe. Para não cair no canto das sereias, quebro biscoitos e os jogo dentro do café quente para poder comê-los amolecidos. Mastigo-os devagar até cansar de mim.

.não precisas de nenhuma carta de despedida pra te justificareS .justificastes por tua casa e por cada objeto nela contido, a mesa de madeira maçaranduba, a mesma madeira da estante repleta de livros, alguns deles ainda aguardando tua leitura, guarda-roupas e cabides suspendendo as roupas, as mesmas de que tu suspendeste o uso, a sapateira que esconde sapatos pisados e rotos, a cozinha pequena com seus utensílios raramente usados, as paredes com objetos decorativos, como os relógios e os espelhoS .casa que revela quem tu éS .a vida e a morte são tua moradA
.enquanto andas pela casa a cumprires os teus pequenos atos cotidianos, singelos, eu daqui de dentro ofereço o grande sentido possível para tua vida quietA .em mim todas as tuas ações e intenções ficam mais profundaS .dentro de mim está o teu legado que ganhou maior significado pela minha narrativa da tua história não contadA .em mim está o teu contrário por ti ainda não vividO :te convidO vem pra dentro, e-terno menino, entra no espelho e joga com alicE seu enigmático jogO  

Outro dia, acordo. Mais um dia-e-mais-outro-e-outro-mais.
Ainda chove.
Nos tempos em que saía de casa, andava pelas ruas e, vez em quando, as pessoas esbarravam em mim por simplesmente não me enxergarem. Elas nem me olhavam pra não terem que me ver. Tornei-me invisível como a perna que falta ao Saci. Mas, insisto com a coragem de andar em linhas tortas! Tenho ainda minhas duas pernas a recuperar pra continuar a caminhada, ziguezagueando pra todos os lados, trazendo em mente a esperança que, talvez naquele lado onde haja a possibilidade do tropeço, encontrarei o meu destino desejado. A ponta do meu arco-íris preto e branco sem tesouros.
Desisti de esperar que as coisas sejam definitivas como a felicidade e o amor. Não há felicidade, tampouco o seu contrário. O bom vem à luz porque o mau sai com sua sombra. Para haver algo, tem-se que provocar o nada.
Preciso morrer. Isto se faz necessário a qualquer escritor para que se vendam mais os seus livros. Meus biógrafos diriam o quanto fui genial, autêntico e, naturalmente, incompreendido pela crítica e o público de leitores que não leram a minha curta, porém significativa obra. Só esquecerão, quando referirem-se ao meu nome, de darem a ele o seu real sentido e significado. Raí Cordeiro, simplesmente. Propositalmente fictício para que carregasse em si a maior de todas as contradições da tortuosa condição humana.


Sérgio Janma

sábado, 12 de maio de 2012

Liberdade no Terreiro da Alegria

Sempre quis ir a um terreiro de Candomblé. Sabe aquele sonho de criança? Minha família carola-católica-apostólica-paraibana tentava-me pôr medo: demônios possuem os corpos das pessoas, tudo dá pra trás nas vidas dessas pessoas que ficam amarradas pelo diabo e mais outras afirmações desse tipo. Mas tudo o que me põe medo me atrai. Tenho como objetivo de vida desmistificar os mistérios do que é oculto pra torná-los cultos.
            Até que esse dia chegou. Meu amigo Dartanhã, na época marido, tinha uma colega de trabalho que teria sua iniciação na religião afro-brasileira: A festa de Saída de Iaô. A noite de sábado três vezes adiada finalmente chegou. Fomos nós três: meu marido, eu e minha vontade ansiosa por sua realização.
            Antes de prosseguir com esta narrativa devo adiantar que não sou religiosa, porém não sou ateia. Contraditório? Não. Acredito na vida além dos corpos. Vida maior, total, universal. Pra mim, somos partes desta vida além de nós. Uma nano-célula no organismo vivo do Universo.
            Chegamos, guiados pelo croqui em mãos e informações dos passantes daquelas ruas do subúrbio. Onde é o terreiro do pai Dodô? Impressione-me já na entrada. Esculturas de orixás variados. Expressões assustadoras. Tudo o que eu queria: ser surpreendida pelo o que via. Lá dentro, calor, incensos, fumaças de defumações, cigarros e cigarrilhas. Meu companheiro nessa aventura que não suporta calor, incensos, fumaças de defumações, cigarros e cigarrilhas... saia e voltava do recinto. Eu não me incomodava com esse ambiente. Faz parte do ritual, é da cultura vinda do outro lado do oceano.
            Premeditando o ritual que viria pelos toques dos ogãs nos atabaques e macumbas, lembrei-me dos versos do poeta-brincante Mário Pirata “... toda alma quando solta/ toda alma quando livre/ é percussiva.” A liberdade me vinha aos poucos através dos sorrisos de bem-vindas, abraços, reconhecimento sem nunca ter se conhecido, indumentárias multicoloridas e monocolores. Cores representativas dos orixás, explicou-me meu marido. Não me importava. Só queria aquilo. Esse ambiente onde cabem todos. Ninguém ali traz consigo seu sobrenome, profissão, nem condição social, sexual, ideológica, política... são apenas pessoas na sua condição humana imperfeita.
            Minha alma teve mais liberdade quando o Pai Dodô, mulato velho de estatura mediana, vestido de branco da cabeça aos pés, deu início aos trabalhos com rezas católicas, demonstrando o sincretismo religioso daquela sessão. Acompanhado de seu braço direito, ajudante direto, creio, com uma toga que parecida ter mais cores que o próprio arco-íris. Traziam atrás deles, uma dança circular e cânticos, ora em português cabloco, ora em orumbá.
            Saiu de dentro de um pequeno quarto, que mais tarde fiquei sabendo se chamar roncó, a colega de meu marido com vestido vermelho de cigana, cigarrilha e uma taça de champanhe nas mãos. Era a personificação da cigana Jurema, uma das pombas-gira. Séria e compenetrada, a cigana puxava o cortejo com muita alegria nos cânticos de letras maliciosas e de dúbio sentido. Tudo era uma grande brincadeira. Mulheres e homens mudavam de repente de expressão e simplesmente caiam e eram levantados pelos mestres e voltavam-se cavalos de alguma entidade do mundo dos espíritos. Dartanhã achava assustador, teatro dos horrores, disse, eu achava uma bela e significativa representação antropológica. Jurema gritava palavras chulas, próprias do mundano ambiente de cabarés. A todos ofereceu do seu champanhe e cigarrinha. Sem mais beber e nunca ter fumado, bebi e fumei. Dartanhã, decepcionado comigo, retira-se do recinto resentido. Não me importo. Queria ver onde aquilo tudo iria dar.
            Intervalo. Teria a segunda sessão para outra iniciação da agora também minha amiga. Uns vinte minutos depois, veio ela, ou melhor, ele, o seu Zé Pilintra. Vestido de fraque e cartola sobre a cabeça da mulher-cavalo de coques nos cabelos. Essa entidade é um preto cachaceiro, dado a farra. Bebia cachaça Jureminha (homenagem à cigana?) e fumava charuto. Abraçava a todos com afeto, soprava fumaça em toda a cabeça de quem era a vez e perguntava o que queria lhe perguntar. Bebi da sua cachaça e fumei do seu charuto sem tragar. Ele foi com minha cara e me tirou pra dançar.
Habeas corpus. Ganhei liberdade de corpo e alma, dançando e gargalhando com o meu novo amigo, o malandro Zé Pilintra.
Meia-noite. Hora do táxi-abóbora chamado por meu marido chegar. Chegou. Demorei nas despedidas do apaixonado Pilintra. Voltamos pra casa discutindo com discórdia o ambiente visitado. Só sei que a partir dessa noite, nada foi como era antes. Separamo-nos porque isso se tornou o ônus imposto pelo o que diferentemente experimentamos. A separação aconteceu após nossa experiência com os mistérios do culto afro; para o bem ou para o mal, como apregoa minha família, não saberei dizer. 


Sérgio Janma – 12.05.2012     


             

sábado, 5 de maio de 2012

Morrer é fácil; Difícil é se enterrar



Morreu no hospital naquela manhã. Morte conhecida e esperada, sem chegar a acordar para o novo dia. Não precisou de autópsia. Se precisasse a dificuldade seria grande. A autópsia seria trabalhosa pela grandeza corporal daquele homem. Teriam muita massa pra serrar e tecido adiposo pra queimar. Trabalho ele deu à família, ou melhor, a uma amiga de longa data, quase irmã. Os parentes, apesar de serem muitos, não eram dados às intimidades dos toques físicos, ainda mais numa situação dessas, tocar um ente querido defuntado. Sobraram pra a amiga sempre solícita e aos auxiliares de enfermagem e maqueiros as árduas tarefas do derradeiro banho e o de vestir aquele volumoso corpo pesado de gorduras. Metros acima, abaixo e lateralmente, o homem era grande horizontal e verticalmente. Três auxiliares, dois maqueiros e a pobre frágil mulher não conseguiam levantá-lo daquela cama de ferro. Decidiram, então, rolá-lo para a maca estrategicamente colocada ao lado e o conduziram ao frigorífico daquele hospital.
A liberação daquele corpo ainda mole pelo IML não foi demorada. Isso, talvez, por ser ele uma pessoa notória e popular naquela cidade. Bem nascido no berço de uma família tradicional, tinha situação financeira contrária ao status social herdado. Demora teve em se encontrar algum caixão que lhe servisse bem, deixando-o confortável para todo o sempre. Assim como existem lojas de vestuários para pessoas de corpos avantajados, a família descobriu (depois de um tempo de pesquisa no Google) que havia na cidade uma casa funerária especializada em oferecer produtos desta natureza, ou seja, caixão que daria pra uma família de sem teto morar.
No meio da tarde do mesmo dia, o defunto devidamente trajado de terno e gravata estava instalado em seu berço definitivo a contemplar a eternidade do seu fim. Alguns familiares e amigas íntimas beijavam aquele rosto de constante sorriso duro, maquiado com pó de mármore. Não era mais corpo de gente. Parecia um tétrico boneco. A cara de pau beijada sem nojo pelos que o amavam. Um dos amigos mais íntimo vaticinou em uma roda de poucos amigos que aquela condição das carnes do rosto do falecido, era a concretização do que ele era em vida: um grande cara de pau! Homem de gargalhada fácil, fanfarrão, decidido a viver só o que lhe desse prazer da maneira mais egoísta. Filhos, ele os tinha, mas não os queria, era muita responsabilidade e perda de liberdade. Sua vida financeira era instável. Com sua potente voz rouca fazia alguns shows aqui, música ao vivo em um barzinho acolá, em sua casa e nas casas dos amigos também cantava. Naqueles tempos até ganhava um bom dinheiro, mas nas vacas-magras, sua mulher, professora,  segurava as pontas.
Já se aproximava o horário do enterro tratado com a administração do cemitério público da cidade e nada de chegar o seu melhor amigo que, de férias, viajava de carro por outro estado, quilômetros e quilômetros de distância. A um amigo em comum coube a desconcertante missão de avisa-lo da morte. Ao atender o celular a notícia lançou-se sem nenhum Oi sequer: O Bola morreu! O quê?! Me liga daqui um minuto. Vou parar o carro no acostamento. 
E o amigo nada de atender mais o celular. Bateu e pegou fogo o carro que dirigia chocado com a notícia à queima-roupa? Sabe-se que nas estradas mineiras é onde se registram o maior número de acidentes. A mãe do amigo enfim tranquilizou a todos dizendo que ele ligou informando já estar na Bahia. Implorou que o guardassem, era necessário o seu último olhar, último beijo, últimas lágrimas. Já se aproximava das 19:00h de um enterro previsto para às 16:00h e nada do amigo aguardado chegar para a despedida. Passada mais meia hora ele chega, cumprindo o ritual esperado em uma situação dessa, não esperada. E o caixão enfim foi erguido pelos seus quatro filhos presentes e mais dois irmãos. Outros dois irmãos não compareceram, uma irmã, a Luisa que estava no Canadá e o caçula, com quem ele não se dava muito bem. O cortejo iniciou-se em adiantada hora e seguiu pelas ruas de uma cidade escurecida pela noite sem lua e mal iluminada pelos postes públicos.
Os portões do cemitério ainda se mantinham abertos às 20:00h dada a importância para a cidade daquela personalidade morta. A cova era cavada devagar, próxima a alguns metros do portão principal do cemitério, na passarela central. Endereço privilegiado daqueles que são da elite. Os dois coveiros não tinham pressa, queriam aproveitar os seus 15 minutos de fama, percebendo os holofotes das tevês, flashes dos repórteres e as presenças ilustres das autoridades locais. Tempo suficiente para a mãe do morto, já idosa, gritar aos prantos coisas do tipo: Deus, por que não levou a mim?! Por quê ele, meu filho mais querido?! Bola, meu Bolinha, volta! Volta!!! Deus, me leva junto! E jogava-se teatral para cima do imenso caixão.
Caixão e seu conteúdo içado e depois arriado como um cargueiro de velas aportando no cais. Cova profunda que guardaria pra eternidade um corpo sem mais sentido e sentimento, terno, roupas elegantes e calçados de couro fino. As flores e lágrimas jogadas por cima da terra que há de comer. Os coveiros ajustaram a tampa da cova e cimentaram o fim da vida, das velas e do velório. Funeral findo. Choro em silêncio por aquele inerte produto final de uma vida que agora viaja na Barca da Morte, guiada por rezas e regras. 

Sérgio Janma – 05/05/2012

*Tema do Clube do Conto para esta data.


domingo, 22 de abril de 2012

Contra Senso

Não acredito no destino...
nem no acaso.
Não por acaso do destino,
casual(mente) creio no ato.

Pra contrariar,
minha vida
é um rio seguindo pro seu mar.


Sergio Janma

sábado, 17 de março de 2012

PELOS ODORES DA NOITE, AMANHECEMOS EM CHEIRO DE JASMIM.


Beijei-te, depois de tanto dançarmos tontos naquela poeira a céu aberto.
Bebi no beijo misturas alcoólicas acompanhadas por teu vômito. A minha boca na tua. Beijo em um mix de gosto azedo. “Não me deixe nunca mais sozinha, fica comigo”, vinha de tua boca em sons bêbados, desarticulados por soluços (sem solução) e o engolir das próprias lágrimas negras pelo borrar da maquiagem. Tinta preta em rosto negro. Deitar tua cabeça zonza em meu ombro era muito pouco a se fazer. Era preciso cuidar-te. Levar-te pra minha casa, preparar um chá de boldo, deitar teu corpo desprotegido em minha cama, deixando que se secassem tuas lágrimas na fronha do meu travesseiro. As mesmas lágrimas que temperaram os meus dedos; provaste deles, voraz, como se fossem divinos manás. Colocando-os dentro de tua boca que protege e guarda uma língua sempre quente e úmida. Meus dedos pingados do meu próprio mijo, seco ao vento e à poeira.
Não sei de quanto tempo precisei pra tirar tuas roupas apertadas. Nessas horas o tempo não é preciso. Mas nos três outros tempos seguintes, cronologicamente indeterminados, naveguei o meu cuidado em teu preciso corpo: teus mamilos cromos, teu umbigo (caverna rasa) e minha língua traficando meu tesão pra dentro de teu sexo, aberto em duas pétalas rubras. Únicas partes despertas dos teus tecidos. Não me importava com os negros pêlos duros a arranharem meu nariz e, tampouco, os cheiros acres.
Eu, de início, queria apenas deitar teu corpo bêbado, instável, tonto (e estonteante), nesta minha cama que já conheceu pesos de outros corpos juntos (nem sempre justos) ao meu. Só queria cuidar-te, tratar das mágoas da tua alma torturada por um amor fantasma de viúva sem matrimônio.
Entre o colocar a camisinha e o aborto do meu gozo, o teu “onde estou. Por que estou nua? O quê aconteceu?” E o meu desconsertado “nada de mais... vê se dorme”. Nada aconteceu.
Depois de espremer todo o meu calor sob a chuveirada fria, vou para o outro quarto, caindo pesado na cama.
Não durmo.
Penso no que até então passei nesta noite atípica do meu cotidiano. Começo, então, a perceber que tudo se relaciona aos cheiros. O indecifrável cheiro de azedume daquela bêbada boca que beijei. O cheiro asfixiante da poeira levantada do chão batido; o fedor ácido da química alisante dos cabelos dela; os adocicados aromas da maquiagem e do perfume; o cheiro amargo do chá de boldo; do azedo suor nos lençóis e travesseiros; dos nossos hálitos fortes e voláteis de álcool. Cheiro de ureia na urina; do preservativo untado de óleo aromatizado, sabor morango. E os característicos cheiros dos sexos com muitas horas passadas do asseio: do macho, o cheiro de sebo da porra; da fêmea, o cheiro dos seres do mar...
A lâmpada acesa da cozinha produz vulto e silhueta ao teu corpo vindo em minha direção, envolto pela toalha, ainda banhado em espumas do sabonete de ervas. A meia-luz e o nosso frescor sossegam nossos corpos em uma só calma. Cheirei teu corpo inteiro. As fragrâncias do teu corpo contaminaram o meu. Tínhamos agora o mesmo cheiro doce da limpeza dos nossos banhos perfumados.
“O quê está fazendo?”, desta vez partindo da minha boca, antes de ser calada pelo beijo da tua, trazendo arrastada na língua a sussurrada resposta: “Sexo”. E minha língua, embevecida por acúmulos de prazer, sentiu bem mais do que resquícios dos odores bêbados da noite.
Acordamos, então, amanhecidos com o novo dia de dezembro penetrando em nossas narinas o aroma dos jasmins dos quintais vizinhos.

Sérgio Janma - João Pessoa, 03/2012.

sábado, 10 de março de 2012

Na cor e na dor, o cinza é o tom



I

Sua alma está débil. Não ousa ousar. Pedem-lhe paciência. Garantem-lhe ajuda. Pergunta, como? Ainda não. A resposta ainda não está preparada. Ela existe no futuro, não vem agora. É como aquele jogo... aquele... juntam-se as peças para formar a figura. Quebra-cabeças. É só pensar no onde-quando-como aconteceu e elaborar o trabalho de juntar os fatos aos sentimentos e terá a resposta. A cabeça quebrada... não consegue pensar, dói. Sente sua alma contida por uma maldição, diluindo-a até o tornar um nada. Da sua memória só brotam lembranças das lágrimas que dos olhos não escorrem mais.
Espera...
Lembra-se da casa, dentro dela pessoas felizes. Levezas, distrações. Não! Não vêm só isso à sua memória. Essa história terminou de outro jeito. Começaram as ausências, as dores, os odores... aquela doença. Uma praga com o poder de matar o amor-na-saúde-e-na-doença. 
        Era só como um carnaval, estonteante. Passou. O amor dela passou para outras mãos que, mais seguras, foram mais gentis. Um rio encontrando o seu mar.
            Na casa, agora, um homem só. Num verão recém-começado, no início de sua longa noite.
            Talvez ele consiga. Tem o amor daquelas que dele precisam. Criancinhas que o esperam exigem sua presença. Não pode ir. Elas não andam sozinhas. Ele não reconhece os próprios pés. Não aprendeu a ser uma pessoa inteira. Desconhece quem foi, por negar-se a si mesmo. Como ele ser presente à elas sendo só fragmento?
            Precisa sair mais com os amigos. Ir ao cinema. Também ao teatro para ver peças com textos densos de tantos questionamentos sobre a arte de saber viver. Precisa ter mais cuidado com seu novo nascimento. Por enquanto, ainda é um delicado feto que precisa de delicadezas nos cuidados. O tempo vai cuidar dele dentro de si, feito um cavalo-marinho prenhe, com suas contrações insuportáveis. Mas que tempo é esse?, instável, às vezes o sol é uma grande brasa lhe enrugando a pele antecipando-lhe a velhice, noutras, canta-lhes trovões e o tempo quase o afoga em tempestades. Traz-lhe calor, quase nunca o frio. Ele esperava que esse seu tempo fosse, pelo menos, cronológico. Mas ele tem sido sempre relativo. Demora mais nos momentos de tristezas e nos de raras alegrias... nem prazer dá tempo de sentir. Quer nascer, sair deste umbral e ficar longe do escuro Hades, onde tudo é obscuro. Só não quer nascer no mesmo lugar, com a mesma gente, mesma vida, no mesmo tempo... não mais voltar a andar sem destino pelo meio dos lixos gozosos da alegria dos outros.
            É de manhã. O tempo deixou o dia à sua porta.

II

           Sabe ele que túnel é esse por onde se contorce, provocando movimentos que o impulsionam para frente. Túnel que faz a ponte entre o final de um tempo e o início de outro. Vida e morte são eventos tão parecidos... não, acha que se trata de uma coisa só, cara-e-coroa. Uma única porta. Abre-se para a vida; fecha-se para morte. Será?! Ele considera a possibilidade da inversão, dependendo de que lado se esteja, do que representa este movimento semicircular da porta. Serão, então, duas possibilidades ao abri-se a porta do umbral: vida para morte; morte para a vida. Questiona-se, na sua loucura, se em todos esses anos o que de fato lhe carregou foi o morrer, não havendo vida que a pudesse chamar de sua?
          Não! Não quer ver! Aperta com tanta força seus olhos que começa a ter visões orbitais coloridas. Agora vê que o tempo ainda não se perdeu de si mesmo. Num abrir e fechar sincronizado do túnel serpenteado, ele se sente como comida a ser vomitada. Depois do fechar, no abrir vai sendo lançado como pedra no estilingue, projetado em concordância com a lei física da balística.
Sente abandono ao encarar o aproximar-se da revelação do que ainda lhe é mistério. O outro lado ainda não visto da porta. Até agora tudo lhe era escuridão, disso ele sabia ser necessário. A luz só vem se houver o escuro. Pensa que não vai conseguir. Sente medo. Pede perdão a todos os deuses afros e descendentes por pecados que nem sabe ao certo os ter cometido. Por onde andará seu pai Ogum com suas estradas?! Vê se aproximar da Curva das Tormentas! Tangendo-a, dentro dela a torna e a contorna com esmero contorcionismo. Já consegue perceber lá fora certa agitação para a sua acolhida.
           Está fora?... do tempo e seu túnel? Agora, fora de..., continua a busca de si... qualquer um si, não precisa ser o próprio. Continua a querer ver com alguma nitidez o que não via quando dentro, agora estando fora. Graças aos mitos, ainda tem alguma memória. Em ásana respira, busca e alcança o parir seu próprio nascimento.
           Por enquanto, vê-se em outra cidade que lhe é nova. Senta-se na terra úmida e fria. Sente-se só. Não vê naquela cidade uma viva alma. Venta um forte e sonoro vento a misturar tudo o que derruba: galhos e folhas, pedras e terras, flores e polens, sementes e... a terra úmida já estava preparada para esse momento. O momento do nascimento dele. Ele, ali, sentado naquela esquina, sua esquina, no abismo onde venta mais forte. Vento misturando suas histórias de vida com os papéis ainda em branco. 

III

       Foi longa a espera. Nada mudou, a não ser o exterior em que habita. As dores da alma continuam. Quis outro destino. Quer voltar. Diz que tudo não passou de um grande engano. Não há como abrir a porta do destino de dentro para fora. Ele fez esta escolha com seu preço a pagar.
Agora tem uma casa, outra casa. E um cachorro muito grande, coberto de pelos pretos. E nos olhos do cão a cor de sangue. Fez-lhe uma casa canina junto ao portão para que ninguém entre. Ensinou ao animal a só comer corações e fígados na farinha, regados com azeite de dendê e mel. Deu-lhe o nome de Exú. Inútil. O cão, preso por correntes, não deixa ninguém entrar. Mas quanto aos sentimentos eles vêm e vão, assim, como visitantes fantasmas. Despertam-lhe emoções que lhe são insuportáveis! Trazem-lhe desejos... vão-se embora e os desejos ficam. São só desejos e por isso ele sofre mais. Não quer os desejos apenas como companhias tristes feito ele e que, não podendo satisfazê-los, sua angústia e inquietação aumentam sua loucura carente de sanidade e amor. É aí que ele deixa Exú entrar na casa.
Bombeando tanto sangue para o interior de seu coração, derramando-se... encharcando-o. Rompendo os caminhos endovenosos, o sangue lhe sobe à cabeça, como uma transposição de rio. E o corpo se rasteja de tanta carência. Resta-lhe apenas lamentar ser sua dor tão insuportável.


IV

Lembrou-se que sabia dançar. Não se lembra como e com quem aprendeu os movimentos coreográficos. Mas havia beleza nos seus gestos ritmados pelo seu coração percussivo. Como alento, veio-lhe a lembrança como esperança: Shiva dança. O movimento de sua dança no espaço provoca mudanças no Universo. Eterna re-criação da vida. A dança interfere no espaço da vida. Basta que faça essa interferência ser ao seu favor, pensa ele. Um voo sem queda. Rasteiro. Como uma brincadeira... tão lúdico. Sentir todas as sensações possíveis de prazer e seus riscos nas piruetas. Cair é o maior risco pra quem se arrisca a dançar tão intensamente. Mas ele sabe, provou, que a vida só é vida se for intensa, sem o medo do ridículo que representa em se ser feliz. Dançar traz liberdade. Com movimentos soltos do corpo regido por uma alma livre, pode-se subir colinas, pular muros... obstáculos da vida que se pretende não ser cotidiana.
Ele agora dança com mais entrega. Entrega-se a si, ao universo e ao próprio espaço novo que criou. Não se importa com (e nem sente mais vergonha) as cicatrizes que o denunciam que esteve lá, na Grande Cidade das Almas Vazias. O seu Quase Encontro com a punição da sua condição humana. Achou que não a merecia e percebeu-se sem medo. Foi então que decidiu dançar, dançar e dançar até que a vida voltasse pra dentro da sua vida, através do seu corpo desperto aos prazeres.
Decidiu que sua vida seria sempre rodopios tontos de prazer. Viver no lugar criado por sua dança, onde só há o amanhecer.

Sérgio Janma