"Leia como quem beija, beije como quem escreve"
(Maxwell F. Dantas)

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Saco Cheio, Saco Vazio

Saco Cheio, Saco Vazio

Bráulio Pezão há muito estava só. Nos últimos velozes anos a fome voraz da idade comeu-lhe a saúde, a beleza, o másculo corpo jovem e até a paciência pra viver em sociedade. Mas o tempo não comeu a sua libido. Esse vigor a velhice não lhe roubou, ainda. Sexo lhe é uma necessidade acima de tudo fisiológica. 
A vida lhe impôs este paradoxo como a um pesado fardo obrigatório de ser suportado em seu cotidiano. Precisava de sexo, mas não queria relacionar-se com ninguém. Sair pra se expor nas vitrines dos meios sociais propícios à caça de sexo fácil o faria sentir-se um velho ridículo. Ele não tinha mais o traquejo das cantadas fúteis e pouco lhe interessava o infantil processo roteirizado das conquistas amorosas. Esse chato conhecer e se deixar ser conhecido também o cansava. O tempo agora urge e ruge como leão faminto. O agora de Bráulio não permite mais as prévias, tem-se só vias pra de fato se ir em frente e adentro.
Se não lhe estava destinado conhecer mais ninguém, o que fazer? Bráulio Pezão pensou, pensou e concluiu que se ele necessitava só de sexo pra voltar a ser um ser pleno, teria que se resolver sozinho. Considerou ceder ao extremo narcisismo de seu ego. Admitiu a masturbação como solução ao seu dilema existencial. Mas pra isso, teria que contar apenas com sua imaginação, a qual não andava nos últimos tempos lá muito criativa.
A única imaginação que Pezão teve veio-lhe voando em asas, trazendo-lhe como imagem holográfica uma mulher de mentira pra torná-lo um homem de verdade. A mulher inflável, sim! Correu à internet e pesquisou o produto que passou a ser o seu mais urgente sonho de consumo com a finalidade de consumir-se a si mesmo. A diversidade de mulheres-bonecas abundava nos sites dos sex-shopping. A que Bráulio passou a mais desejar era uma imitação da atriz mais sensual da última década, boneca inflável super-realística em cyber Skin. Ela foi toda moldada no corpo da atriz, afirmava o anúncio, para que o cliente tenha a oportunidade de senti-la em sua cama pronta para seu prazer a qualquer hora! A boneca tem um rosto perfeito, cabelos macios, seios robustos e três orifícios apertadinhos para penetração. A bolha térmica nos orifícios proporciona sensação de calor. Loucura, loucura, loucura!, esbravejou Pezão. Uma gata de cabeça similar à real, rígida, com cabelos e num lindo rosto olhos plantados que abrem e fecham seus cílios fartos. Tem vibrador embutido e movimentos de pulsação para apertar o pênis, através de bomba pera, proporcionando um incrível sexo oral! O par de seios é firme e farto com os seus mamilos excitados. Um vibrador bullet para aumentar o seu prazer emitindo som de gemido. É recomendado o uso de preservativo. Originária do Japão alimenta-se de quatro pilhas AAA não inclusas no pacote. Altura, aproximadamente, 1,50m. Ideal pra os seus 1,60m, considerou Pezão. Confeccionada com material super macio 100% antialérgico. O anúncio ainda alertava que o contato com lubrificantes à base de silicone, óleo ou de produtos à base de petrolato pode causar danos à superfície do brinquedo sexual. Os lubrificantes a serem usados devem ser à base de água. Lavar com água e sabão neutro antes e após o uso. Recomenda-se fazer a higienização com produtos específicos para limpeza de brinquedos eróticos e, importante, não compartilhá-lo. Deve ainda se ter o cuidado de conservar a boneca fora da luz solar e não a expor à temperatura superior aos 50ºC. Junto à boneca inflável será enviada uma prática sacola em tecido para guardá-la e uma bomba para inflar, além de cola para reparo em caso de furo do material. IMPORTANTE: NUNCA FAZER O REPARO DURANTE O USO!
Sem muito recurso financeiro pra o pagamento à vista, com seu cartão de crédito Bráulio comprou, em dez parcelas mensais, a mulher que tinha mais recursos pra sua satisfação sexual. 
Agora quando está de saco cheio, Bráulio Pezão esvazia-o com violência na mulher inflável, infalível, jogando o jogo do sexo brinquedo que o faz se sentir mais másculo. E o homem realizado?  Pezão nem se faz essa pergunta. Contenta-se com essa mulher vazia que ele pode encher de vento e das suas vontades desenfreadas.

Sérgio Janma
Clube do Conto da Paraíba – 13/01/2023
Tema: Sexo

 Começo da sua escrita

sábado, 17 de novembro de 2012

Às Costas do Anjo de Costas



Conto requentado apresentado no Clube do Conto em 17/11/2012          

       Gabriel Solís, mercenário. Colecionador de orelhas inimigas, mortas. Orelhas, com seus lóbulos furados pela ponta de uma baioneta, alinhadas num colar. Duas voltas e meia de orelhas, engrossando ainda mais seu pescoço, já o tendo tornado grosso por seus constantes esforços em gritar para chamar a atenção sobre si. Usa as orelhas também para ser ouvido? Nunca vi meu amigo usar o colar com tais orelhas empalhadas. Talvez seja só o fetichismo solitário de um serial-killer profissional, trazendo-lhe lembranças inconscientes do tipo escalpe, apropriadas ao sangue índio em suas veias latinas. Puro Inconsciente Coletivo antropofágico de um autêntico charrua. Isso se, é claro, os charruas fossem canibais.
         Seus cabelos lisos têm um lustro brilho. Natural. Como parece ser natural o sorriso, ou o não sorriso, que traz consigo em seus documentos falsos. Sem o falso sorriso na foto 3/4, onde sério e de olhos arregalados, mostra suportar valentemente o estrangular da gravata tentando afinar-lhe o pescoço.
         Conheci Solís em Porto Alegre, num frio final de junho, na metade dos anos 80. Um tempo em que tudo era quase democrático. E era democrático ter que ouvir, naquele frio cortante, a fumaça de sua voz. Vapor sonoro saindo da fossa quente de sua boca. A voz modelada era quase navalha arremessada, metálica, para fora de suas outras fossas, as nasais. Fio de som agudo perfurando o ouvido de minha viva orelha-esquerda-de-nódulo-furado-como-o-próprio-brinco-de-ônix. Por este ouvido esquerdo que me chegam os sons mais altos, já que pelo outro não ouço direito.
         Sua voz cortava o ar frio, arrepiando mais do que as sanguinárias bravatas das estórias que depositava nos meus ouvidos, sarcasticamente narradas com mórbidos detalhes.
         Solís, conta ele, lutou em guerras alheias em missões terroristas. Às vezes paraquedista, outras vezes fuzileiro... Também sendo lanceiro de tudo o que se lança e é morteiro.
        O visionário poeta fala alto e estridente, enquanto vai picando com punhal de prata marroquino o fumo que diz ser cubano, tal quais os charutos Hoyo de Monterrey que também os fuma nas horas em que precisa ser sofisticado. Isso quando não cala sua pequena boca no cachimbo filosofal, por nobre opção tabagista. Chama de filosofal o seu cachimbo por tê-lo comprado na Grécia e servido às pedras de ópio chinês. E assim, ocupa-se, entre um charuto e outro cachimbo, da paz deste novo tempo que se esvai em improdutiva conversa monologa recheadas de ações.
        Além do punhal, também é de prata quente a bomba do seu chimarrão. Cotidianamente, em horários apropriados, vai cevando o verde pó dessa amarga erva. Chia a chaleira no ritual quase santo. Chaleira cigana e erva guarani. A sensação é a de limpeza da alma ao beber aos poucos aquela água quente com cheiro e gosto de mato, esquentando por dentro e esverdeando a língua. Limpeza prolongada para depois do ronco da bomba no fundo da cuia, quando a água esverdeada seca. Seus fantasmas mutilados, tanto os antepassados quanto os de hoje, chegam-se para a próxima rodada de mate amargo, servido pela própria deusa Caá-Yari* já com a erva quase inteiramente molhada.
       Matador vocacionado que é, acredita em deus e... no diabo como sócio do divino na messiânica tarefa de executar os sacros serviços sujos. Para Gabriel, depois da criação de tudo o que seria proibido ao Homem conhecer, deus descansou no sétimo dia, ficando o diabo em seu lugar. Folguista de deus, o deus-suplente fez-se também criador nesse dia. Conheceu-se então, o verdadeiro Sétimo Céu. Lugar onde se esconde o titereio que manipula as cordas das marionetes no Reino Universal de Deus.
         Tornando-se adepto à religião que professa ser deus um só quarteto, Gabriel vê no diabo a cara escondida e suja de um deus esquizofrênico. Sabe ele que na dança do Kabuki e no Teatro Nô, encantatório ideograma japonês com seus dois mil e quinhentos gestos simbólicos e gritos guturais, vêm sendo secularmente mostradas as diversas máscaras dos deuses e demônios. Máscaras que os atores, sacerdotes telúricos, usam-nas como convém, apropriando-as a cada situação criada para a inocente condição da natureza humana.
         Este homem, Solís, carrega o nome do Anjo Gabriel sobre sua cabeça batizada por aspersão e untada por benzidos óleos. Na cabeça também carrega muitas lembranças de mortes sem nomes, pesando-lhe a consciência.
         Noutro dia, ao final de uma tarde fria, Gabriel Solís fez sua aparição na Casa do Poeta. Vinham atrás, rebocados, sua mulher brasileira e o casal de filhos pequenos. A esposa prendada montava-se de prenda em seu vestido de chita e o rosto rebocado de ruge e batom. Ele, pilchado a rigor. Iriam à festa junina de S. João com as crianças embrulhadas em panos quadriculados, fantasiadas de tabuleiro de xadrez. Noite de São João, pular fogueira, comer pinhão. Beber quentão para enrubescer de calor as faces. Ele gaudério, ela chinoca.
         Vira eu o taura amansado pelo amor da família. O homem Solís redimiu-se com deus e o diabo, passando a confundir-se com o anjo não apenas no homônimo.
         A admiração por seu homem era flagrante no olhar daquela mulher. Nos seus olhos, a constante espera pela surpresa prometida ao destino do marido que, vez em quando, misterioso viaja clandestino para ver sua mãe no Uruguai.
        Solís. O marido, o pai, o filho e espírito desarmado de santo, ou anjo. Gabriel, solícito guardião da paz, da vida e da morte dos seus e seus destinos.
        Chega a ser impróprio para si esse tão óbvio, evidente e claro destino negro de anjo, quase lenda. Certamente, criação divina.

*Caá-Yari: deusa da erva-marte e protetora da Raça Guarani.


Sérgio Janma




sábado, 10 de novembro de 2012

Esqueceu-esse-é-meu




      Essa ouvi do meu vizinho do lado, “Seu” Neves, homem pacato, sério, mas muito conversador. Conta histórias nas quais sempre ele é o protagonista. Disse-me ontem, enquanto estávamos sentados os dois na calçada, que já foi vigilante do Sindicato dos Servidores Terceirizados do Estado. Único homem de confiança e amigo do então presidente daquela associação, segundo ele. Contou-me ele que a inusitada história teve seu início quando da compra de um cofre para auxiliar no controle do fluxo de caixa daquela agremiação. Na medida em que se aumentava o quadro de sindicalizados, maior e mais complexa ficava a sua movimentação financeira. Diante da necessidade frequente de saques ao caixa da agência bancária, ficara inviável se custear os gastos diários da entidade e até mesmo os pagamentos semanais à prestadores de serviço. Foi então que a diretoria decidiu comprar um cofre para reservar-se o dinheiro suficiente para esses custeios. O cofre comprado foi devidamente instalado na parede da sala da presidência, sobre a janela, por trás de uma extensa e grossa cortina escura que tinha como principal função ocultá-lo. 

      Após o saldo verificado, o saque foi autorizado pelo gerente do banco. Em lugar reservado pela agência, ficou “seu” Neves, único homem de confiança do chefe, a conferir uma contagem de R$150.000,00 em cédulas de 100 e 50 reais na sua maioria e umas poucas de 20 e 10 reais para o sindicato dar os seus trocados. Sem levantar suspeitas, o vigilante saiu do banco chegando logo ao seu destino sem nenhum atropelo. Em um momento solene com apenas três presentes, o presidente Reginaldo, o tesoureiro Zaqueu e o vigilante “seu” Neves, o dinheiro foi devidamente aprisionado no cofre, cela de valores e muitos segredos. 

      No dia seguinte haveria na sede do sindicato uma reunião de dirigentes regionais afins. Esse evento programado nas vésperas criou a necessidade de se tomar medidas de última hora. A mais importante de todas fora a viagem naquela noite à vizinha cidade do Recife, a fim de promover exaustivas reuniões para tratativas de assuntos sigilosos a serem repassados na reunião do dia seguinte. A urgência das ações a serem tomadas pelo presidente daquela associação fez “seu” Neves, único homem de confiança, ser o veloz motorista para a tal viagem. 

      O sindicato então precisou contratar às pressas para aquela noite um vigilante folguista. Missão que coube ser cumprida por “seu” Neves, devendo ser muito criterioso na sua escolha por quem iria substituí-lo na insone função que exige de quem a exerce extrema responsabilidade. Sem precisar pensar muito se lembrou de Pudim, veterano das guerras etílicas, hoje um sóbrio aposentado beirando os seus setenta anos. O velho Pudim haveria de quebrar o galho em vigiar só por uma noite os valores e patrimônio daquela organização de trabalhadores. 

      Pudim, muito responsável, estava no sindicato dez minutos antes da hora marcada, exatamente às 18h50min. Até às 21h nada fora do normal. A essa hora Pudim já tinha comido o jantar deixado pra ele na geladeira, dispensando a sobremesa, não por achar proibitivo comer seres da mesma espécie, mas mais por não gostar de doces em geral. 

      Na sua vigília, Pudim certificara-se de estarem todas as portas fechadas para a sua ronda pelo lado de fora. Mesmo tendo vista curta pela idade, o velho olhava tudo com muito vagar e atenção para compensar a escuridão que se fazia nas ruas. Não tendo visto nada de suspeito que merecesse uma atitude mais repressiva de sua parte, o velho voltou para o interior da sede pela porta dos fundos. Para a sua surpresa, Pudim na sua mais lúcida sobriedade vê vultos de homens aparentemente bombados na sala da presidência. Quem são vocês?! Como entraram aqui?! O quê tão fazendo nessa sala?! Foram as perguntas não respondidas no interrogatório feito pelo assustado e mole Pudim. Silêncio. Antes que o vigia por ocasião voltasse com sua metralhadora de perguntas desnecessárias, no primeiro Ei! por ele dito, veio de um dos homens em tom raivoso a ordem de Fique peixe, seu velho desgraçado! Não vai calar esta boca?! Vou te encher de porrada! 

     Pudim levou tanta bordoada que se estatelou ao chão, ali ficando na forma condizente ao seu codinome, assistindo os três brutamontes fazerem o rapa no cofre ainda virgem de arrombamentos. 

       Dia amanhecido, Pudim com a cabeça devidamente enfaixada retornou do Pronto Socorro a tempo de ver alguns policiais vasculharem o local do crime. Os homens com coletes de Polícia Técnica vez em quando se olhavam e abanavam negativamente suas cabeças. Até que o delegado chama à parte o presidente daquela entidade e sentencia que a polícia não seguirá em frente com aquela investigação se não houver a denúncia do furto. Como assim?! Por que furto? Indaga o sindicalista. Foi assalto! Assaltaram o nosso cofre na primeira noite depois de instalado! Assaltantes roubam de assalto, senhor. Explica o policial. O caso aqui foi mesmo furto, já que quem roubou tinha as chaves. Constatamos essa evidência por não haver nenhum arrombamento nas portas e janelas, as quais estavam invioladas. Recomendo que o seu sindicato faça uma sindicância. Tenha um bom dia. 

      Dos três que tinham as chaves e sabiam do depósito de R$150.000,00 em dinheiro vivo no cofre, só se encontravam dois no local após o crime, o presidente e “seu” Neves. Um não desconfiava do outro e o outro não desconfiava do um. Sem ensaios, o olhar teatral de ambos, de imediato e ao mesmo tempo, foi em direção ao ainda tonto Pudim. 

      Não se fez denúncia e nem sindicância alguma. Deixou-se tudo como estava. Foi mais fácil e conveniente sugerir-se que Pudim, em sua ávida sede, teria bebido da água que passarinho não bebe, esquecendo-se do seu voto de abstinência, e posteriormente também esquecido as chaves na porta da frente da sede do sindicato. Desde então, o pobre e injustiçado Pudim não foi mais chamado pra substituir qualquer vigilante que precisasse faltar ao serviço nessa cidade. 

       Mas o mais intrigante desse fato segredado a mim por “seu” Neves, diz respeito ao tesoureiro Zaqueu que apareceu só três dias depois do ocorrido roubo, alegando ter morrido seu tio mais querido de nome Lázaro Neto, na distante cidade de Manaíra. A repentina morte do adorado tio o atormentou tanto que acabou por esquecer-se de avisar que faltaria a tal reunião do sindicato, devendo ficar alguns dias com seus inconsoláveis familiares. Porém, “seu” Neves sabia que Zaqueu tinha sido há dois anos tesoureiro da campanha para a reeleição de um popular deputado estadual, na qual também desapareceram alguns milhares de reais, enquanto, coincidentemente, era velado e enterrado um tio seu de nome Lázaro Neto na cidade de Manaíra. 

      O dissimulado tesoureiro, segundo “seu” Neves, estava tão confiante que acabou por simplesmente esquecer que o tal tio, oportuno álibi, ele já havia matado em outras ocasiões. 

       Tudo aconteceu exatamente assim, é o que “seu” Neves me garante de pés juntos mesmo sem ter morrido. Esse é o meu vizinho, único homem de confiança daquele sindicato de honestos trabalhadores. 



Sérgio Janma – 10/11/2012


            

domingo, 4 de novembro de 2012

Tela da Solidão


Conto revisitado e apresentado no Clube do Conto em 03/11/12


No escuro da sala duelo com a tevê que me atira aos olhos cores eletrônicas. Meu corpo, inerte e nu, é tela dos movimentos virtuais do sexo-mentira do filme erótico que me assedia. (Sexo é a sede do meu corpo que, cedo ainda, cedo à sua mais aguda sede.) Ação que não me causa nenhuma reação. O monitor irradia na sala de luzes apagadas, luziscores dançantes a me tatuarem a pele. Fundo branco fluorescente. Um caleidoscópio-corpo imenso, imensurável pelas infinitas possibilidades de variar posições, formas e figuras.

O sexo em mim e por mim acabou, juntamente com o da película, no limite do seu tempo dramático. Outro filme reflete em meu corpo a pura imagem do casal de adolescentes do início do século passado a passearem de mãos dadas no jardim de margaridas, entre o gramado e os convexos relevos testemunhas do meu desgastado peito. Na hora do beijo suas bocas cruzam a minha, selando os segredos do seu amor em meus lábios, tornando-me cúmplice passivo na trama.

Meu leve toque no remoto controle faz com que o mesmo corpo, o meu, transforme-se em dois cenários sobrepostos, ilusoriamente simultâneos. O inocente romance alheio ainda guardava suas marcas de purezas na flor da minha pele, quando me sobreveio ao escuro, clarões de campos minados a explodirem pirotécnicos em ações estúpidas com mortes gratuitas, fáceis, de outro filme já na sua metade. Agora o inumano exterminador descontrolado que a tudo odeia, bombardeia o jardim de margaridas que eu insistia em regar no meu peito. A intenção da sua ação era a pura vingança vingada em mim.

Troco novamente de canal.

Vídeo-clip. Marisa Monte canta Amor I Love You aos meus ouvidos e olhos. Semi-adormeço e quase morro de tanta paz.

No jantar romântico de outro filme, quero ir além dos carnudos lábios da fêmea, úmidos, presos ao meu umbigo, servindo-lhe de taça seca para o derramar do molhado vinho tinto seco.

Agora é a vez do sexo selvagem dos latinos num filme do Almodóvar. Tantos gritos, gemidos, palavrões, sussurros, urros, murros, sofreguidão, gozo e as respirações desacelerando-se em bafo quente que não sinto soprado em minha face. Os dois corpos descansam sobre o meu teso arco de músculos e pelos.

Rolam sobre mim, neste ser resumido em um extenuado corpo, os caracteres projetados da tela, dando créditos aos nomes dos que trabalharam por detrás dos meus sonhos em insone noite de verão.

Tudo termina. Madrugada vem e a noite vai. Mágica do tempo que cria as cromáticas ausência e presença na sala-de-estar-só.


Sérgio Janma


sábado, 27 de outubro de 2012

Tempo Exato de Relativa Morte

( Conto para o Clube do Conto, hoje com o tema "23 minutos") 

21 horas e 37 min.

      O toque sonoro de mensagem do SIM 2 do meu celular chama minha mão esquerda pra um mergulho pentadátilo ao interior do bolso da minha bermuda de sete bolsos de onde emergem os utilitários neles guardados que muito improvavelmente de hoje em diante os usarei. Gostaria que você fosse o primeiro a saber que Odionaldo e eu estamos namorando, mensagem que li engolindo cada indigesta letra seca de piedade. O sangue pesado de gelo passou a navegar lento pelas minhas veias. Os fios condutores de frio empalideceu meu corpo por inteiro. Congelei naquele momento que demorava em ser eterno. E como ficamos?! Tantas noites insones de amor no colchão ao chão, matando baratas a cada vez que o cheiro peculiar as denunciava no escuro. 

21 horas e 45 min.

      Fecho a única porta de entrada-e-saída com uma chave de três segredos, sepultando os meus segredos jamais confessados no interior daquele sepulcro que era nosso apartamento depois que você foi embora. Vou-me embora pra nunca mais. Busco encontrar a morte que alivia as dores do ofício de viver. Levo comigo apenas as poucas roupas que essencialmente cobrem o meu corpo e o documento de identidade que facilite o reconhecimento do meu cadáver, já que em vida não fui reconhecido.

21 horas e 51 min.

      Ando inconsciente, zumbi, tonto pela movimentada avenida principal do bairro. Como em uma escura balada noturna, os faróis dos automóveis jogam luzes em meus olhos incapacitados de visão sob aquela lua escandalosa de cheia. Cheio de mim cansa-me guardar em meu corpo essa dor, esse eu tão meu que ninguém quer seu. Chego ao sinal vermelho de minha vida e de todas as avenidas. Ironicamente, lembro que perspectiva em russo quer dizer avenida. E sigo absorto com meu andar sem espelhos retrovisores atrás do nada pra pensar, do vazio da mente que me liberte desta obsessão que me impulsiona pra frente nesta avenida de mão única e sem nenhum retorno que contorne minha dor. Planejo, então, meu inevitável destino derradeiro.

22 horas 

      Sinal fechado. Sincronia da engenharia de trânsito. Esperas mútuas de motoristas e pedestres, sem nelas necessariamente haver sincronias. Espero. Sinto o peso da sentença que diz que o tempo é relativo. Há demora demais para o sinal abrir e os carros com seus muitos cavalos virem com seus olhos grandes, bestiais, sobre mim. Fixo meu olhar pra o escuro dentro dos dois primeiros carros à frente daquela fila inerte de ferros e aços prontos para o arranque veloz. Uma mulher no volante e ao celular, sozinha. Com quem estará a falar? Seja lá com quem e qual seja o assunto, é certo que o tema é sobre suas vidas que continuarão depois dessa noite. Sem que eu percebesse, o outro carro à minha esquerda tem sua seta direita piscante. No seu interior decifro vultos de dois homens jovens de caras alegres, obviedade das noites de sábado. 
      Verde. Vida que te queria verde, meus verdes anos já se foram e agora só resta ir-me, deixar-me cair feito folha seca, ou igual a um fruto podre precipitando-se da árvore da vida. Sinal verde para meu pulo de gato velho na sua sétima vida e última morte. Qual dos dois carros atropelará minha vida de acidentes e selará o meu destino? Num ato que não sinaliza sua intenção, jogo-me de corpo e alma, inteiro, para o centro daquela mal sinalizada pista de asfalto falho por buracos. Fecho meus olhos para não ver e sentir meu fim.
      Ouço após algumas frações de segundos o xingar com palavras chulas, partindo dos dois rapazes que lentamente entravam pela rua à minha esquerda.Filhodaputadoidodocaralhoquémorrerdáumtironacaraseumerda cooooorno!!! Abortei a alegria deles. Frustraram meu calculado suicídio sem ensaios. 

Sérgio Janma - 27/10/2012 -


sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Não tô nada bem!


Não tô nada bem!
 (1º Lugar na Categoria Conto do 8º Concurso Literário Mário Quintana do Sintrajufe/RS em âmbito nacional)

     Cheguei sem pressa dez minutos antes do marcado. Sentado na cadeira de tecido, fico entre o cochilo e a vigília. Tô até paciente demais. Até porque SOU UM PACIENTE! Já tô medicado e não ofereço perigo algum. Raiva humana não é transmissível através de salivosas mordidas... creio. Mas quando salivo de raiva, sei não, minha baba pode contaminar. Não agora, aqui nesse consultório, onde espero o tempo passar e, nessa passagem dele por mim, desembarque a psicoterapeuta que aguardo e, espero me olhe como alguém que apenas não tá nada bem. Vai ser difícil convencê-la do meu estado adverso, depois de ter feito uso, receitados, de 2 mg de Rivotril e uma cápsula inteira de 75mg de Venlaxin. Drogas legais que me deixam mais legal, mais domesticado que muito animal que necessita de coleira. Ainda não necessitei dela, mas andei perto de precisar pedi-la emprestado ao vizinho do lado, tão zeloso com seu estimado cãozinho.
                A recepcionista, pensando que eu estaria me importando com o atraso, informa que a “doutora” não demoraria, estava a caminho. Continuo absorto no meu semi-cochilo. O quê dizer à “doutora”? Não sei e nem quero saber. Vai depender do que ela me perguntar e eu quiser revelar. Mas quer saber?! Tô numa boa, de bem com a vida, sob o efeito dessa paz medicamentosa. Então, vou dizer tudo! Tudo mesmo. Minhas vivências dos vinte recentes anos.
                 Ela entra. Surpreendo-me a ponto de despertar da minha morgação. Ela não é simplesmente uma “doutora” qualquer. É UMA MULHER! Eu já sabia que seria atendido por uma psicoterapeuta mulher. Cruel foi não terem adiantado os seus requisitos femininos! Na recepção deveria ter no quadro de avisos o informe de suas características físicas, uma foto seria melhor, pra que ninguém despreparado feito eu, fosse surpreendido no primeiro encontro. O aviso deveria ser assim: Neste santuário, atendimentos serão feitos por Vênus, ou se preferirem, Afrodite. Mas saibam que se trata da mesma pessoa que agrada a gregos e romanos. Ao contrário de uma justificada agitação, me mantive tranquilão, apenas mais esperto. Aquela beleza à minha frente faria qualquer moribundo em visita à ante-sala da morte, querer se agarrar à vida pra apreciar este paraíso feminino.
              Ela vai querer saber das coisas que sinto, penso, experimento, vivencio. A mulher mais interessante que já vi interessada por mim! Vai querer meu bem estar... vai querer me fazer feliz! Não quero mais a cura! Não quero alta nunca mais.
                 A conversa se inicia, após o educado pedido de desculpas pelo atraso. Tenho que falar de mim pra que ela melhor me conheça. Falo com bastante vagar pra também conhecê-la melhor. Falo tudo o que me vem à cabeça pra encompridar a conversa, enquanto observo-a em todos os detalhes. Olhos no olhos, de vez em quando. O que vejo é o todo. Vejo-a toda. Cabelos claros, pele clara, membros proporcionais de uma falsa magreza... e os claros olhos pra ver claramente o que exatamente quer. Quer cuidar de mim.
                Vejo suas mãos. Só consigo ver a tez e perceber que elas estão sobrepostas. Aliança? Não a vejo e pouco importa se há algum ornamento anelar. Os dedos já servem de enfeites àquelas mãos que imagino macias. Isso me basta. Assistir a uma beleza acima do trivial já traz prazer aos meus sentidos fragmentados.
                 Então tá. Semana que vem nos encontramos, mesmo dia e horário. Até lá o lerdo tempo será meu pior inimigo. Tempo que vai me lembrar a todo o instante que NÃO TÔ NADA BEM!
                    Não sou religioso, mas nos dias de nossos encontros, terei 50 minutos pra minha adoração.

Sérgio Janma


sábado, 22 de setembro de 2012

Passarim


  Chamava-se Pardal. Claro, isso não é lá nome de ninguém. E ninguém jamais soubera o seu nome. Pardal era a alcunha daquele homem de idade incerta e indecifrável que parecia mais um pinto molhado. Estava mesmo sempre molhado pelas recorrentes chuvas invernosas do sul, quando menos, empapado por tanta umidade.
            Viera do Mato Grosso antes da divisão do estado, região de menores precipitações molhadas. Nem os mais íntimos, se são possíveis intimidades com um morador das ruas, sabiam o que motivou a migração desse raro pássaro do Centro-Oeste para o Sul do país. Estava sempre com frio, fazendo com que alguns até apostassem que ele viera pousar em Porto Alegre para simplesmente morrer de frio.
           Pardal era Pardal. Ou melhor, não era assim chamado por ser fauna do Pantanal Mato-grossense, mas por uma clara alusão ao Prof. Pardal dos gibis. Consertava, com os poucos instrumentos que trazia consigo na cintura, tudo o que era aparelho elétrico e eletrônico, suas especialidades. Dava luz à um prédio inteiro e, quiçá, à uma usina elétrica em apagão, tamanha era sua força criativa e inteligência. Um gênio, mágico. Bruxo.
           Pardal ganhou proteção de um amigo em comum que o acolheu em seu local de trabalho. Tornaram-se grandes amigos. Eu nem tanto, mas presenciava impressionantes cenas reveladoras, a exemplo das tentativas de Pardal em manter uma conversa em inglês com o meu amigo. Pardal falava fluentemente a língua britânica, já seu interlocutor nem tanto. Tá certo que atrapalhava o entendimento da língua sua fala acelerada. Acelerado ele era apenas pra falar, devo assim pontuar essa sua característica. Acho que o falar atropelando o português e igualmente o inglês, espanhol, italiano e o alemão, era efeito do alto consumo que ele fazia da cafeína. A substância acelerava apenas as articulações responsáveis pela fala. Se bem que não dá para desconsiderar que ele poderia ser assim por algum acidente de trabalho, alterando a velocidade da geração elétrica em seu cérebro. Ou a razão ainda poderia ser a de algum defeito congênito... Vai saber.
            Apesar de sua fala apressada, Pardal não falava muito. Era mais de ouvir e ver tudo. Assim como soubera silenciar o seu passado em Corumbá, também não reproduzia verbalmente o que seus olhos assistiam e ouvidos captavam. Carregava essa virtude em sua personalidade como coisa aprendida por uma duradoura vida dura. Estava ali e nem o notávamos. Tinha esse poder de se tornar invisível. Silencioso chegava, cumpria as tarefas da faxina e do passar café, bebia copos cheios para se certificar que estava bom, ali ficava, dali saía, silencioso.
            Quanto ao seu vestir, devo salientar que suas roupas eram exclusivas, melhor dizendo, eram de seu uso exclusivo, visto que jamais as tirava do corpo. É assim que me vem à lembrança esta figura ímpar. Fisicamente miúdo, dava-me a impressão de estar sempre molhado, como já disse, igual a um pinto. Imagem formada com ajuda dos seus cabelos escorridos de índio. Não era muito novo. Junto aos cabelos pretos, alguns brancos. No rosto de maçãs chupadas e de barba rala, apontavam mais fios brancos do que pretos. Dentes? Faltavam-lhe a maioria e os que restavam eram todos pretos escondidos na escuridão da sua boca. Mal se mostravam quando Pardal franca e abertamente ria. Há que se considerar que os moradores das ruas não têm facilidades no costume da higiene bucal, carentes de uma simples e diária escovação dos dentes.
            Tempos passaram, fui morar em outra cidade, outro país mais trópico, e nunca mais tive notícias de Pardal. Isso até a madrugada de ontem, quando ainda dormindo profundo me veio um sonho pesado, golpeando-me com a notícia sobre o seu destino. Não viera em sonho o anjo da anunciação Gabriel ou algum outro enviado com a notícia de vida brotando. Quanto muito poderia ser Morfeu me mostrando as únicas coisas que são reais: vida e morte; esta depois da outra.
             Mataram Pardal!
       Na cama, acordado sem acordar, nocauteado, pensava em tudo sonhado sem exatamente o que pensar.
Crime executado da forma mais cruel. Fora cometido por crianças, mas não como se mata passarinhos pelas brincadeiras de estilingues e pedras. Nem Pardal também, afinal, era nenhum Golias ou alguma Madalena para quererem matá-lo às pedradas. Tampouco houve descuido seu em algum conserto elétrico de alta voltagem que o carbonizasse por dentro.
Não morreu de frio como se imaginava que em algum dia ocorreria.
Mataram Pardal...  não foi em um único ato. Ele começou a morrer quando nosso amigo em comum morreu antes, assim, sem combinar nada com ninguém. Sem amigos, Pardal voltou a dormir nas ruas. Como se não bastasse o frio das madrugadas que o matava aos poucos, vieram meninos, achando-se caridosos anjos da morte, intencionados em acabar com seu sofrimento. Traziam pela escuridão archotes e gasolina. Tudo fora cinematograficamente gravado pelas câmaras instaladas nos postes e nas marquises das lojas do centro daquela cidade. Ação assassina sem ensaios, marcações, apenas a obsessiva intenção.
Pardal dormia. Provavelmente sonhando que se passasse rapidamente mais uma noite para tomar gratuitamente seu café matinal na padaria da esquina. Que frio! Que frio! O frio passando, indo embora pra nunca mais. Calor... calor... que bom...esquenta-que-esquenta... não quero mais acordar. Nem dava mais tempo. Era calor que queima. Queimou as poucas roupas de lã, avermelhou e enrugou-lhe a pele, deu fim aos escorridos cabelos tomados pelo branco da idade e da geada. Magro, não demorou que o fogo lhe chegasse aos ossos. Tocha humana até virar carvão, vida em carbono.
Como os bruxos, Pardal morreu queimado com suas penas e sabedoria.
Ele era assim... digno de pena por esse seu jeito pássaro de ser.

 Sérgio Janma – 19.09.2012