"Leia como quem beija, beije como quem escreve"
(Maxwell F. Dantas)

sábado, 27 de outubro de 2012

Tempo Exato de Relativa Morte

( Conto para o Clube do Conto, hoje com o tema "23 minutos") 

21 horas e 37 min.

      O toque sonoro de mensagem do SIM 2 do meu celular chama minha mão esquerda pra um mergulho pentadátilo ao interior do bolso da minha bermuda de sete bolsos de onde emergem os utilitários neles guardados que muito improvavelmente de hoje em diante os usarei. Gostaria que você fosse o primeiro a saber que Odionaldo e eu estamos namorando, mensagem que li engolindo cada indigesta letra seca de piedade. O sangue pesado de gelo passou a navegar lento pelas minhas veias. Os fios condutores de frio empalideceu meu corpo por inteiro. Congelei naquele momento que demorava em ser eterno. E como ficamos?! Tantas noites insones de amor no colchão ao chão, matando baratas a cada vez que o cheiro peculiar as denunciava no escuro. 

21 horas e 45 min.

      Fecho a única porta de entrada-e-saída com uma chave de três segredos, sepultando os meus segredos jamais confessados no interior daquele sepulcro que era nosso apartamento depois que você foi embora. Vou-me embora pra nunca mais. Busco encontrar a morte que alivia as dores do ofício de viver. Levo comigo apenas as poucas roupas que essencialmente cobrem o meu corpo e o documento de identidade que facilite o reconhecimento do meu cadáver, já que em vida não fui reconhecido.

21 horas e 51 min.

      Ando inconsciente, zumbi, tonto pela movimentada avenida principal do bairro. Como em uma escura balada noturna, os faróis dos automóveis jogam luzes em meus olhos incapacitados de visão sob aquela lua escandalosa de cheia. Cheio de mim cansa-me guardar em meu corpo essa dor, esse eu tão meu que ninguém quer seu. Chego ao sinal vermelho de minha vida e de todas as avenidas. Ironicamente, lembro que perspectiva em russo quer dizer avenida. E sigo absorto com meu andar sem espelhos retrovisores atrás do nada pra pensar, do vazio da mente que me liberte desta obsessão que me impulsiona pra frente nesta avenida de mão única e sem nenhum retorno que contorne minha dor. Planejo, então, meu inevitável destino derradeiro.

22 horas 

      Sinal fechado. Sincronia da engenharia de trânsito. Esperas mútuas de motoristas e pedestres, sem nelas necessariamente haver sincronias. Espero. Sinto o peso da sentença que diz que o tempo é relativo. Há demora demais para o sinal abrir e os carros com seus muitos cavalos virem com seus olhos grandes, bestiais, sobre mim. Fixo meu olhar pra o escuro dentro dos dois primeiros carros à frente daquela fila inerte de ferros e aços prontos para o arranque veloz. Uma mulher no volante e ao celular, sozinha. Com quem estará a falar? Seja lá com quem e qual seja o assunto, é certo que o tema é sobre suas vidas que continuarão depois dessa noite. Sem que eu percebesse, o outro carro à minha esquerda tem sua seta direita piscante. No seu interior decifro vultos de dois homens jovens de caras alegres, obviedade das noites de sábado. 
      Verde. Vida que te queria verde, meus verdes anos já se foram e agora só resta ir-me, deixar-me cair feito folha seca, ou igual a um fruto podre precipitando-se da árvore da vida. Sinal verde para meu pulo de gato velho na sua sétima vida e última morte. Qual dos dois carros atropelará minha vida de acidentes e selará o meu destino? Num ato que não sinaliza sua intenção, jogo-me de corpo e alma, inteiro, para o centro daquela mal sinalizada pista de asfalto falho por buracos. Fecho meus olhos para não ver e sentir meu fim.
      Ouço após algumas frações de segundos o xingar com palavras chulas, partindo dos dois rapazes que lentamente entravam pela rua à minha esquerda.Filhodaputadoidodocaralhoquémorrerdáumtironacaraseumerda cooooorno!!! Abortei a alegria deles. Frustraram meu calculado suicídio sem ensaios. 

Sérgio Janma - 27/10/2012 -


sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Não tô nada bem!


Não tô nada bem!
 (1º Lugar na Categoria Conto do 8º Concurso Literário Mário Quintana do Sintrajufe/RS em âmbito nacional)

     Cheguei sem pressa dez minutos antes do marcado. Sentado na cadeira de tecido, fico entre o cochilo e a vigília. Tô até paciente demais. Até porque SOU UM PACIENTE! Já tô medicado e não ofereço perigo algum. Raiva humana não é transmissível através de salivosas mordidas... creio. Mas quando salivo de raiva, sei não, minha baba pode contaminar. Não agora, aqui nesse consultório, onde espero o tempo passar e, nessa passagem dele por mim, desembarque a psicoterapeuta que aguardo e, espero me olhe como alguém que apenas não tá nada bem. Vai ser difícil convencê-la do meu estado adverso, depois de ter feito uso, receitados, de 2 mg de Rivotril e uma cápsula inteira de 75mg de Venlaxin. Drogas legais que me deixam mais legal, mais domesticado que muito animal que necessita de coleira. Ainda não necessitei dela, mas andei perto de precisar pedi-la emprestado ao vizinho do lado, tão zeloso com seu estimado cãozinho.
                A recepcionista, pensando que eu estaria me importando com o atraso, informa que a “doutora” não demoraria, estava a caminho. Continuo absorto no meu semi-cochilo. O quê dizer à “doutora”? Não sei e nem quero saber. Vai depender do que ela me perguntar e eu quiser revelar. Mas quer saber?! Tô numa boa, de bem com a vida, sob o efeito dessa paz medicamentosa. Então, vou dizer tudo! Tudo mesmo. Minhas vivências dos vinte recentes anos.
                 Ela entra. Surpreendo-me a ponto de despertar da minha morgação. Ela não é simplesmente uma “doutora” qualquer. É UMA MULHER! Eu já sabia que seria atendido por uma psicoterapeuta mulher. Cruel foi não terem adiantado os seus requisitos femininos! Na recepção deveria ter no quadro de avisos o informe de suas características físicas, uma foto seria melhor, pra que ninguém despreparado feito eu, fosse surpreendido no primeiro encontro. O aviso deveria ser assim: Neste santuário, atendimentos serão feitos por Vênus, ou se preferirem, Afrodite. Mas saibam que se trata da mesma pessoa que agrada a gregos e romanos. Ao contrário de uma justificada agitação, me mantive tranquilão, apenas mais esperto. Aquela beleza à minha frente faria qualquer moribundo em visita à ante-sala da morte, querer se agarrar à vida pra apreciar este paraíso feminino.
              Ela vai querer saber das coisas que sinto, penso, experimento, vivencio. A mulher mais interessante que já vi interessada por mim! Vai querer meu bem estar... vai querer me fazer feliz! Não quero mais a cura! Não quero alta nunca mais.
                 A conversa se inicia, após o educado pedido de desculpas pelo atraso. Tenho que falar de mim pra que ela melhor me conheça. Falo com bastante vagar pra também conhecê-la melhor. Falo tudo o que me vem à cabeça pra encompridar a conversa, enquanto observo-a em todos os detalhes. Olhos no olhos, de vez em quando. O que vejo é o todo. Vejo-a toda. Cabelos claros, pele clara, membros proporcionais de uma falsa magreza... e os claros olhos pra ver claramente o que exatamente quer. Quer cuidar de mim.
                Vejo suas mãos. Só consigo ver a tez e perceber que elas estão sobrepostas. Aliança? Não a vejo e pouco importa se há algum ornamento anelar. Os dedos já servem de enfeites àquelas mãos que imagino macias. Isso me basta. Assistir a uma beleza acima do trivial já traz prazer aos meus sentidos fragmentados.
                 Então tá. Semana que vem nos encontramos, mesmo dia e horário. Até lá o lerdo tempo será meu pior inimigo. Tempo que vai me lembrar a todo o instante que NÃO TÔ NADA BEM!
                    Não sou religioso, mas nos dias de nossos encontros, terei 50 minutos pra minha adoração.

Sérgio Janma


sábado, 22 de setembro de 2012

Passarim


  Chamava-se Pardal. Claro, isso não é lá nome de ninguém. E ninguém jamais soubera o seu nome. Pardal era a alcunha daquele homem de idade incerta e indecifrável que parecia mais um pinto molhado. Estava mesmo sempre molhado pelas recorrentes chuvas invernosas do sul, quando menos, empapado por tanta umidade.
            Viera do Mato Grosso antes da divisão do estado, região de menores precipitações molhadas. Nem os mais íntimos, se são possíveis intimidades com um morador das ruas, sabiam o que motivou a migração desse raro pássaro do Centro-Oeste para o Sul do país. Estava sempre com frio, fazendo com que alguns até apostassem que ele viera pousar em Porto Alegre para simplesmente morrer de frio.
           Pardal era Pardal. Ou melhor, não era assim chamado por ser fauna do Pantanal Mato-grossense, mas por uma clara alusão ao Prof. Pardal dos gibis. Consertava, com os poucos instrumentos que trazia consigo na cintura, tudo o que era aparelho elétrico e eletrônico, suas especialidades. Dava luz à um prédio inteiro e, quiçá, à uma usina elétrica em apagão, tamanha era sua força criativa e inteligência. Um gênio, mágico. Bruxo.
           Pardal ganhou proteção de um amigo em comum que o acolheu em seu local de trabalho. Tornaram-se grandes amigos. Eu nem tanto, mas presenciava impressionantes cenas reveladoras, a exemplo das tentativas de Pardal em manter uma conversa em inglês com o meu amigo. Pardal falava fluentemente a língua britânica, já seu interlocutor nem tanto. Tá certo que atrapalhava o entendimento da língua sua fala acelerada. Acelerado ele era apenas pra falar, devo assim pontuar essa sua característica. Acho que o falar atropelando o português e igualmente o inglês, espanhol, italiano e o alemão, era efeito do alto consumo que ele fazia da cafeína. A substância acelerava apenas as articulações responsáveis pela fala. Se bem que não dá para desconsiderar que ele poderia ser assim por algum acidente de trabalho, alterando a velocidade da geração elétrica em seu cérebro. Ou a razão ainda poderia ser a de algum defeito congênito... Vai saber.
            Apesar de sua fala apressada, Pardal não falava muito. Era mais de ouvir e ver tudo. Assim como soubera silenciar o seu passado em Corumbá, também não reproduzia verbalmente o que seus olhos assistiam e ouvidos captavam. Carregava essa virtude em sua personalidade como coisa aprendida por uma duradoura vida dura. Estava ali e nem o notávamos. Tinha esse poder de se tornar invisível. Silencioso chegava, cumpria as tarefas da faxina e do passar café, bebia copos cheios para se certificar que estava bom, ali ficava, dali saía, silencioso.
            Quanto ao seu vestir, devo salientar que suas roupas eram exclusivas, melhor dizendo, eram de seu uso exclusivo, visto que jamais as tirava do corpo. É assim que me vem à lembrança esta figura ímpar. Fisicamente miúdo, dava-me a impressão de estar sempre molhado, como já disse, igual a um pinto. Imagem formada com ajuda dos seus cabelos escorridos de índio. Não era muito novo. Junto aos cabelos pretos, alguns brancos. No rosto de maçãs chupadas e de barba rala, apontavam mais fios brancos do que pretos. Dentes? Faltavam-lhe a maioria e os que restavam eram todos pretos escondidos na escuridão da sua boca. Mal se mostravam quando Pardal franca e abertamente ria. Há que se considerar que os moradores das ruas não têm facilidades no costume da higiene bucal, carentes de uma simples e diária escovação dos dentes.
            Tempos passaram, fui morar em outra cidade, outro país mais trópico, e nunca mais tive notícias de Pardal. Isso até a madrugada de ontem, quando ainda dormindo profundo me veio um sonho pesado, golpeando-me com a notícia sobre o seu destino. Não viera em sonho o anjo da anunciação Gabriel ou algum outro enviado com a notícia de vida brotando. Quanto muito poderia ser Morfeu me mostrando as únicas coisas que são reais: vida e morte; esta depois da outra.
             Mataram Pardal!
       Na cama, acordado sem acordar, nocauteado, pensava em tudo sonhado sem exatamente o que pensar.
Crime executado da forma mais cruel. Fora cometido por crianças, mas não como se mata passarinhos pelas brincadeiras de estilingues e pedras. Nem Pardal também, afinal, era nenhum Golias ou alguma Madalena para quererem matá-lo às pedradas. Tampouco houve descuido seu em algum conserto elétrico de alta voltagem que o carbonizasse por dentro.
Não morreu de frio como se imaginava que em algum dia ocorreria.
Mataram Pardal...  não foi em um único ato. Ele começou a morrer quando nosso amigo em comum morreu antes, assim, sem combinar nada com ninguém. Sem amigos, Pardal voltou a dormir nas ruas. Como se não bastasse o frio das madrugadas que o matava aos poucos, vieram meninos, achando-se caridosos anjos da morte, intencionados em acabar com seu sofrimento. Traziam pela escuridão archotes e gasolina. Tudo fora cinematograficamente gravado pelas câmaras instaladas nos postes e nas marquises das lojas do centro daquela cidade. Ação assassina sem ensaios, marcações, apenas a obsessiva intenção.
Pardal dormia. Provavelmente sonhando que se passasse rapidamente mais uma noite para tomar gratuitamente seu café matinal na padaria da esquina. Que frio! Que frio! O frio passando, indo embora pra nunca mais. Calor... calor... que bom...esquenta-que-esquenta... não quero mais acordar. Nem dava mais tempo. Era calor que queima. Queimou as poucas roupas de lã, avermelhou e enrugou-lhe a pele, deu fim aos escorridos cabelos tomados pelo branco da idade e da geada. Magro, não demorou que o fogo lhe chegasse aos ossos. Tocha humana até virar carvão, vida em carbono.
Como os bruxos, Pardal morreu queimado com suas penas e sabedoria.
Ele era assim... digno de pena por esse seu jeito pássaro de ser.

 Sérgio Janma – 19.09.2012


quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Espelhos Quebrados Não Morrem




.no escuro não existO .apagO .luz e imagem é a minha essênciA .só me é possível a vida em imagens através da luZ .não sou só vidro com uma fina camada de aço grudado às minhas costas, emoldurado por madeiras polvilhadas de um ouro velhO .tenho imaterial constituição gerando a minha extraordinária magiA .todos os espelhos são mágicoS .refletem o inverso, mentem sobre as formas dos corpos e das faces, enganando-os quanto a idade e a aparência que têM
.nada que existe, criado, foi pra ser visto, por isso os espelhos são necessários na sua função de enganaR

Acordo sem acordar. Entre o sono e a vigília, há apenas forças no meu corpo pra abrir os olhos e ver, enfrentando-me, outro corpo no espelho da parede em frente à minha cama. Nele há refletido esse sonolento corpo imóvel, inerte duplo do meu. Carne branca, pêlos, muitos pêlos, uma mata de pêlos bicolores pelo corpo inteiro. Pretos-e-brancos-brancos-e-pretos. Nos espelhos espalhados pela casa, não quero ver mais o meu rosto com a barba por fazer. Encaro somente as minhas tatuagens que, mais do que o rosto, revelam minha verdadeira identidade.
A cada manhã acordo para seguir o mesmo roteiro há muito por mim escrito. Alongamentos de braços e dedos, enquanto penso uma contagem de 40 segundos de duração pra cada esticar dos meus músculos em busca da vida corporal necessária para seguir o meu dia. Mas hoje não. É domingo. Preguiça até pra me espreguiçar. Não me importa em nada que dia venha a ser hoje. Em licença médica nenhum dia é útil. É o que o espelho me faz lembrar, denunciando à minha consciência essas pernas enfaixadas. Tal Lázaro, ataduras podres silenciam por completo os já inaudíveis sons dos movimentos das minhas pernas. Ata, amordaça, amarra, imobiliza. Ataduras que deixam as pernas duras, garantindo-me que eu dure por mais um tempo em pé. Imolo aos deuses apenas meu sangue.
Arte que articula os movimentos. Levanto, enfim. Já em vigília, sigo pela casa cumprindo coisas que se fazem necessárias. Sinto-me vigiado. Há uma presença, além da minha, pesando o ar desta casa... não me afeta.
Moro só.
            Abro janelas e portas pra sair o cheiro sufocante das fumaças festivas das fogueiras da noite de São João no nordeste.
            Dia calmo. Sol e chuva se intercalam como se combinassem dividir o mesmo espaço entre o céu e o solo. A chuva é boa pra uns, o sol pra outros, e assim o dia fica mais bonito. Também estou mais calmo que nos dias anteriores. A paz me vem pelos medicamentos, não me lembrando mais das suas idas-e-vindas como condição da depressão. Apenas lembro, pra começar com coragem meu novo dia, o que pensa de mim uma amiga... parece um lago quieto. Vejo hoje tudo pelos olhos da razão e não mais pela violência contida. Sinto a harmonia em meu universo particular.
            Não mais me masturbo. Libido em baixa. Só tenho sonhos que não se fixam na memória, mas que ainda me trazem ereção. Minha memória, ou talvez a sua falta, serve agora somente pra aquietar os dramas.
            Enquanto a chaleira ainda não ferve a água para o ato mecânico e contínuo de passar café, bebo em jejum um copo de água do filtro e como uma castanha do Pará. E já sabendo que o dia me acontecerá em ordem, tenho o controle do ritmo de meu coração e mente. Minhas ações se desencadeiam em arquitetados planos distintos.
            Num dia como hoje, igual à ontem, há pouca coisa a fazer. Um livro pra terminar de ler, após sete arrastados meses de empréstimo. Pedir o almoço por telefone por não poder caminhar e sair de casa. Fazer operações bancárias pela internet e, sem muita paciência, navegar nas redes sociais, sempre off-line, só pelo tempo necessário para as dores pesarem e o meu corpo pedir descanso.
            Embromo assim o dia com permissivas futilidades. Elas não pesam em minha anestesiada consciência e me aliviam a lembrança de que preciso escrever o que é preciso.
            Este meu cotidiano é a máscara viva que uso. É o patuá protegendo o que em mim não quer morrer. Se eu matá-lo, exponho-me a minha própria morte.
            Sou Raí Cordeiro, escritor sem escritos relevantes. Meus documentos trazem outro nome, bem mais longo e comum, visto haver tantos homônimos.

...vives a vida através do espelho, por nele refletir as conversas mudas, bocas, caras, roupas adequadas, ensaios de seduçãO .sexO .pensas que tens algo muito importante pra dizeres aos outros, à humanidadE .és alguém dentro de uma casa, casulo, fazendo coisas sem importância, quase quieto, inofensivo, mas atordoando o que há forA
.te mandaram cresceres e foi o que fizeste no decorrer de um longo tempo, deixando aos poucos de veres o que havia dentro do teu espelho, quando ainda eras criança, único espaço em que dele te apropriavas e  podias ser lúdicO 

Outro dia pra acordar. Acordo. Hoje o espelho me mostra um dos curativos jazente no frio piso cerâmico do meu quarto. Mais uma vez postergo os alongamentos dos meus membros superiores, assim como o banho não tomado ontem, programado pra essa tarde.
            Café feito como repetição da mesma ação cênica dos incontáveis dias anteriores. 
            Amanhã a Galega virá. A mulher que faz quinzenalmente a faxina e também as compras da semana no mercadinho mais próximo. Hoje nada a fazer a não ser deixar o tempo se cumprir no meu cotidiano. Refazer e refazer os dias sempre iguais.
            Só há em mim a ação de pensar, ou tentar pensar, naquele passado onde penso existir mais vida. Não encontro passado que valha lembrar. Sem futuro, tornei-me rei coroado pela solidão de estar aqui e agora. Só existe o agora entre o passado e o futuro.
            Ar pesando à volta, deixando os meus movimentos mais lentos. Do caos que provoquei vem outro movimento. Mas não agora, não aqui.
            No almoço, sirvo-me de vinho tinto seco e brindo à vida e à morte como se elas fossem uma pessoa, única.
Escrevo, então, para não enlouquecer. O que escrevo me ultrapassa... ultraleve me fará voar com outras asas, em direção, intenção, ao meu único e perfeito dia. No entanto, enquanto escrevo e me debato feito lagarta nesta casa, o cotidiano medíocre me conduz ao dia seguinte.

.sou espelho e mintO .mostro apenas as distorcidas imagens do que chamas real, a outra verdade revertida pelo reflexo dos teus contrasteS ?é um sonhO ?o que é sonho e o que é reaL ?o real está no sonhO .o irreal que o engana, contendo-o em um mundo que se prolifera de coisas e pessoas dentro dele e ao meu redor, inchandO ?ele  existE .os mundos não conseguem viver sem miM .refletindo, faço crer que as imagens tua, delas e de todos, serem a verdade, única, tendo-a como sua propriedade exclusivA :deixo a dúvidA ?as imagens existem apenas como reflexos, sem serem reaiS ?como sabes que as outras pessoas existeM ?serás sÓ .mortos-vivos sem extrema unçãO .os espelhos quebrados fragmentam os teus pensamentos, sentimentoS
.tudo que é duplo é apenas um só seR .inversamente como num espelho que só faz veres as duplicidades dos contrasteS .opostos o bom e o maU .a parte boa sofre por ser boA .é aquela que busca a felicidadE .não pode achar, na sua infrutífera procura, o que não existE .desistE .a desilusão faz com que ela queira ser a parte mÁ .o teu eu bom e o teu eu mau se amam, mas se rejeitaM .o bom é quem quer matar o maU . aí o bom torna-se maldosO .o mau só está no seu papel, tornando-se indesejadO .é quem te faz ter pesadelos e te acorda quando sonha os sonhos de felicidade realizadoS .desejas segregar o eu mau à margem do convívio humano, condenando-o a estar eternamente preso em uma ilha solitária de rotas perdidaS
.a meia idade quer tornar os homens adolescenteS .não é por que chegaste nesta idade da inutilidade economicamente produtiva que pensas e sentes da mesma forma a solidãO !mesmo com os anestésicos, tens vivo o tesão no teu corpo, eu vejO .entope-te de remédios que só servem pra embotar tua alma, volatizar teu vaziO ?o que fazes pra melhorares o gosto da vidA !queres um corpo colado ao teu, dentro um do outro e não forA !o homem ama o seu próprio paU .o seu feminino, o eu por ele não reconhecido, é o seu melhor amigO .o feminino no homem dimensiona a relação do seu macho com a sua fêmeA .é o feminino inconsciente dele que busca o encontro com o seu masculino, fazendo-o um homem por completO .inteiro e plenO

Acordo, como em todas as madrugadas, por pesadelos que minha memória esconde atrás da sua providencial cortina do esquecimento. Lanço-me da cama ao banheiro e urino um turvo líquido por demais amarelo-escuro e fedorento. Vou até a cozinha me arrastando e bebo num só gole um copo cheio de água, ordenhada do filtro de barro.
Chove.
Não me olho mais nos espelhos. Cansei de ser Narciso a se enganar ao olhar nas águas um rosto que nada mais é do que o seu contrário refletido, o avesso. Agora não mais mantenho a saúde corporal de um jovem e me falta paciência para a juventude. Estou em idade de buscar o real. O avesso-do-avesso-do-avesso, como já disse um compositor famoso em sua famosa música. Na verdade, busquei o real por todas as minhas idades. Desde a não vivenciada infância, busquei as verdades. Mas as verdades podem não ser reais. Todas as pessoas têm suas próprias verdades.
Entendi, então, com a idade avançando, que o real ao qual buscava não é sinônimo de verdade. A verdade é a vida que cada um acredita ter e viver. O real é outra coisa. É o que integra o meu mundo interior, tanto quanto consigo ser íntegro. Interagir com o mundo exterior é outra história. E quando me torno sombra daquelas pessoas que escolho por admiração, aí sou apenas ação-e-reação-reação-e-ação. Convivência com o outro é andar na corda bamba. Se quero manter boas as relações sociais e amorosas tenho que jogar o jogo das previsões do outro jogador. Supor antecipadamente suas verdadeiras intenções para, nesse espaço chamado relacionamento, desarmar-lhe o bote que me subjugaria. Mas na espera do reconhecimento da vitória, quando ela chega, frustra. Não passa apenas de um tolo xeque-mate. E o sentimento é o de não ser importante. Não sei como e nem quando me tornaria importante na vida do outro. Outro que não o escolhi e que, de tantos, nunca o encontrei. É sobre isso que preciso escrever... vida e morte.
Prefiro, então, o meu mundo, para não ser preciso utilizar-me de qualquer forma de poder. Minha realidade, suspeito existir só dentro de mim, indiferente aos outros; aos outros mundos. Sequer, conheço inteiramente o meu mundo; dois mundos tão distintos; eu olhando o externo, chamando-o de você; o eu externo a me olhar, chamando-me de você. Dá a mim a sensação de eu não ser eu e nem ele ser ele. Sensação de não existirem nem pessoas e coisas e nem de eu estar aqui, vivo. É tudo um sonho?
No meu universo solitário invento pessoas irreais, refletidas em um espelho mágico. Um pequeno universo. Há a teoria dos físicos: o grande Universo é um só e finito; o que nele vemos contido e nos dá a ideia de infinito é só seu reflexo. Saber que até mesmo o Universo terá o seu fim, consola a dor que o medo da morte me causa. Esse Universo, tão misterioso pra humanidade, também tem seus espelhos refletindo as irreais imagens que enganam: estrelas que já há milhões de anos deixaram de existir e, ainda assim, mantêm suas cintilâncias. Nossos corpos, organismos e mentes são réplicas do grande e finito Universo. Sou também seu reflexo. O que existe nele existe em mim. E saber que até essa Natureza Universal, criadora e criatura, irá morrer...
Eu já quis morrer! Mas como os meus pensamentos não seguem em linha reta, agora não estou mais querendo o que é provável, talvez inevitável: o encontro em um atropelo, antes da hora e local marcado, com o que me é destinado. O que chamo de duelo da minha vida com a minha morte, de espíritos desarmados. Sem a contagem de passos, sem trapaças e sem armas. Nenhuma testemunha, mesmo que haja a assistência de alguma gente curiosa. A morte não pode ser vista e muito menos vivida por outros, a não ser pelos dois protagonistas posicionados nessa encruzilhada dos encontros marcados. Morrer é sair de cena. O último olhar será para o pedaço do espelho quebrado que irei carregar comigo. Reflexo: vulto que volta, antes de cair na densa sombra. Ser esquecido. Passar a ser mais outra estrela morta com a energia da memória durando só por mais um pouco. A morte desfaz os encantos da vida, em elos e duelos com os espelhos. Aí os pensamentos ferem. Quebrei-me juntamente com o meu espelho e agora me multiplico como as estrelas estilhaçadas pelo Universo.
Querer o suicídio não é necessariamente querer morrer; é querer outra vida diferente. Vida após o caos.
Não sei se alguém já disse o que acabo de pensar e dizer. Todos pensam e quase sempre dizem o que pensam de uma forma ou de outra, já que há tantas formas de expressão e tantas mentes criativas. Como disse Aristóteles, o ser se diz de tantas maneiras. É preciso resgatar o valor das palavras. Até mesmo os que pensam em linha reta têm sempre os seus pensamentos propensos a se cruzarem com os dos outros. Caminhar em linha reta é pra quem tem objetivos. Eu não mais os tenho, perdi-me deles. Reafirmo: meus pensamentos não seguem uma linha reta com medo de serem pegos pelo trem do destino da minha própria história. A permanente tentativa de me esquivar da vida e da morte, ambas tão particularmente a mesma entidade. Acumular energia para a fuga é engordar o corpo e a alma.
Penso nisso enquanto rodo a colher na xícara, admirando a homogênea tez do café, achando-a hoje mais preta do que nos outros dias. A sincronia nas danças da minha mão direita, do rodar da pequena colher e do café a redemoinhar na porcelana esmaltada, faz-me ver o belo e crer que só ele existe. Para não cair no canto das sereias, quebro biscoitos e os jogo dentro do café quente para poder comê-los amolecidos. Mastigo-os devagar até cansar de mim.

.não precisas de nenhuma carta de despedida pra te justificareS .justificastes por tua casa e por cada objeto nela contido, a mesa de madeira maçaranduba, a mesma madeira da estante repleta de livros, alguns deles ainda aguardando tua leitura, guarda-roupas e cabides suspendendo as roupas, as mesmas de que tu suspendeste o uso, a sapateira que esconde sapatos pisados e rotos, a cozinha pequena com seus utensílios raramente usados, as paredes com objetos decorativos, como os relógios e os espelhoS .casa que revela quem tu éS .a vida e a morte são tua moradA
.enquanto andas pela casa a cumprires os teus pequenos atos cotidianos, singelos, eu daqui de dentro ofereço o grande sentido possível para tua vida quietA .em mim todas as tuas ações e intenções ficam mais profundaS .dentro de mim está o teu legado que ganhou maior significado pela minha narrativa da tua história não contadA .em mim está o teu contrário por ti ainda não vividO :te convidO vem pra dentro, e-terno menino, entra no espelho e joga com alicE seu enigmático jogO  

Outro dia, acordo. Mais um dia-e-mais-outro-e-outro-mais.
Ainda chove.
Nos tempos em que saía de casa, andava pelas ruas e, vez em quando, as pessoas esbarravam em mim por simplesmente não me enxergarem. Elas nem me olhavam pra não terem que me ver. Tornei-me invisível como a perna que falta ao Saci. Mas, insisto com a coragem de andar em linhas tortas! Tenho ainda minhas duas pernas a recuperar pra continuar a caminhada, ziguezagueando pra todos os lados, trazendo em mente a esperança que, talvez naquele lado onde haja a possibilidade do tropeço, encontrarei o meu destino desejado. A ponta do meu arco-íris preto e branco sem tesouros.
Desisti de esperar que as coisas sejam definitivas como a felicidade e o amor. Não há felicidade, tampouco o seu contrário. O bom vem à luz porque o mau sai com sua sombra. Para haver algo, tem-se que provocar o nada.
Preciso morrer. Isto se faz necessário a qualquer escritor para que se vendam mais os seus livros. Meus biógrafos diriam o quanto fui genial, autêntico e, naturalmente, incompreendido pela crítica e o público de leitores que não leram a minha curta, porém significativa obra. Só esquecerão, quando referirem-se ao meu nome, de darem a ele o seu real sentido e significado. Raí Cordeiro, simplesmente. Propositalmente fictício para que carregasse em si a maior de todas as contradições da tortuosa condição humana.


Sérgio Janma

sábado, 12 de maio de 2012

Liberdade no Terreiro da Alegria

Sempre quis ir a um terreiro de Candomblé. Sabe aquele sonho de criança? Minha família carola-católica-apostólica-paraibana tentava-me pôr medo: demônios possuem os corpos das pessoas, tudo dá pra trás nas vidas dessas pessoas que ficam amarradas pelo diabo e mais outras afirmações desse tipo. Mas tudo o que me põe medo me atrai. Tenho como objetivo de vida desmistificar os mistérios do que é oculto pra torná-los cultos.
            Até que esse dia chegou. Meu amigo Dartanhã, na época marido, tinha uma colega de trabalho que teria sua iniciação na religião afro-brasileira: A festa de Saída de Iaô. A noite de sábado três vezes adiada finalmente chegou. Fomos nós três: meu marido, eu e minha vontade ansiosa por sua realização.
            Antes de prosseguir com esta narrativa devo adiantar que não sou religiosa, porém não sou ateia. Contraditório? Não. Acredito na vida além dos corpos. Vida maior, total, universal. Pra mim, somos partes desta vida além de nós. Uma nano-célula no organismo vivo do Universo.
            Chegamos, guiados pelo croqui em mãos e informações dos passantes daquelas ruas do subúrbio. Onde é o terreiro do pai Dodô? Impressione-me já na entrada. Esculturas de orixás variados. Expressões assustadoras. Tudo o que eu queria: ser surpreendida pelo o que via. Lá dentro, calor, incensos, fumaças de defumações, cigarros e cigarrilhas. Meu companheiro nessa aventura que não suporta calor, incensos, fumaças de defumações, cigarros e cigarrilhas... saia e voltava do recinto. Eu não me incomodava com esse ambiente. Faz parte do ritual, é da cultura vinda do outro lado do oceano.
            Premeditando o ritual que viria pelos toques dos ogãs nos atabaques e macumbas, lembrei-me dos versos do poeta-brincante Mário Pirata “... toda alma quando solta/ toda alma quando livre/ é percussiva.” A liberdade me vinha aos poucos através dos sorrisos de bem-vindas, abraços, reconhecimento sem nunca ter se conhecido, indumentárias multicoloridas e monocolores. Cores representativas dos orixás, explicou-me meu marido. Não me importava. Só queria aquilo. Esse ambiente onde cabem todos. Ninguém ali traz consigo seu sobrenome, profissão, nem condição social, sexual, ideológica, política... são apenas pessoas na sua condição humana imperfeita.
            Minha alma teve mais liberdade quando o Pai Dodô, mulato velho de estatura mediana, vestido de branco da cabeça aos pés, deu início aos trabalhos com rezas católicas, demonstrando o sincretismo religioso daquela sessão. Acompanhado de seu braço direito, ajudante direto, creio, com uma toga que parecida ter mais cores que o próprio arco-íris. Traziam atrás deles, uma dança circular e cânticos, ora em português cabloco, ora em orumbá.
            Saiu de dentro de um pequeno quarto, que mais tarde fiquei sabendo se chamar roncó, a colega de meu marido com vestido vermelho de cigana, cigarrilha e uma taça de champanhe nas mãos. Era a personificação da cigana Jurema, uma das pombas-gira. Séria e compenetrada, a cigana puxava o cortejo com muita alegria nos cânticos de letras maliciosas e de dúbio sentido. Tudo era uma grande brincadeira. Mulheres e homens mudavam de repente de expressão e simplesmente caiam e eram levantados pelos mestres e voltavam-se cavalos de alguma entidade do mundo dos espíritos. Dartanhã achava assustador, teatro dos horrores, disse, eu achava uma bela e significativa representação antropológica. Jurema gritava palavras chulas, próprias do mundano ambiente de cabarés. A todos ofereceu do seu champanhe e cigarrinha. Sem mais beber e nunca ter fumado, bebi e fumei. Dartanhã, decepcionado comigo, retira-se do recinto resentido. Não me importo. Queria ver onde aquilo tudo iria dar.
            Intervalo. Teria a segunda sessão para outra iniciação da agora também minha amiga. Uns vinte minutos depois, veio ela, ou melhor, ele, o seu Zé Pilintra. Vestido de fraque e cartola sobre a cabeça da mulher-cavalo de coques nos cabelos. Essa entidade é um preto cachaceiro, dado a farra. Bebia cachaça Jureminha (homenagem à cigana?) e fumava charuto. Abraçava a todos com afeto, soprava fumaça em toda a cabeça de quem era a vez e perguntava o que queria lhe perguntar. Bebi da sua cachaça e fumei do seu charuto sem tragar. Ele foi com minha cara e me tirou pra dançar.
Habeas corpus. Ganhei liberdade de corpo e alma, dançando e gargalhando com o meu novo amigo, o malandro Zé Pilintra.
Meia-noite. Hora do táxi-abóbora chamado por meu marido chegar. Chegou. Demorei nas despedidas do apaixonado Pilintra. Voltamos pra casa discutindo com discórdia o ambiente visitado. Só sei que a partir dessa noite, nada foi como era antes. Separamo-nos porque isso se tornou o ônus imposto pelo o que diferentemente experimentamos. A separação aconteceu após nossa experiência com os mistérios do culto afro; para o bem ou para o mal, como apregoa minha família, não saberei dizer. 


Sérgio Janma – 12.05.2012     


             

sábado, 5 de maio de 2012

Morrer é fácil; Difícil é se enterrar



Morreu no hospital naquela manhã. Morte conhecida e esperada, sem chegar a acordar para o novo dia. Não precisou de autópsia. Se precisasse a dificuldade seria grande. A autópsia seria trabalhosa pela grandeza corporal daquele homem. Teriam muita massa pra serrar e tecido adiposo pra queimar. Trabalho ele deu à família, ou melhor, a uma amiga de longa data, quase irmã. Os parentes, apesar de serem muitos, não eram dados às intimidades dos toques físicos, ainda mais numa situação dessas, tocar um ente querido defuntado. Sobraram pra a amiga sempre solícita e aos auxiliares de enfermagem e maqueiros as árduas tarefas do derradeiro banho e o de vestir aquele volumoso corpo pesado de gorduras. Metros acima, abaixo e lateralmente, o homem era grande horizontal e verticalmente. Três auxiliares, dois maqueiros e a pobre frágil mulher não conseguiam levantá-lo daquela cama de ferro. Decidiram, então, rolá-lo para a maca estrategicamente colocada ao lado e o conduziram ao frigorífico daquele hospital.
A liberação daquele corpo ainda mole pelo IML não foi demorada. Isso, talvez, por ser ele uma pessoa notória e popular naquela cidade. Bem nascido no berço de uma família tradicional, tinha situação financeira contrária ao status social herdado. Demora teve em se encontrar algum caixão que lhe servisse bem, deixando-o confortável para todo o sempre. Assim como existem lojas de vestuários para pessoas de corpos avantajados, a família descobriu (depois de um tempo de pesquisa no Google) que havia na cidade uma casa funerária especializada em oferecer produtos desta natureza, ou seja, caixão que daria pra uma família de sem teto morar.
No meio da tarde do mesmo dia, o defunto devidamente trajado de terno e gravata estava instalado em seu berço definitivo a contemplar a eternidade do seu fim. Alguns familiares e amigas íntimas beijavam aquele rosto de constante sorriso duro, maquiado com pó de mármore. Não era mais corpo de gente. Parecia um tétrico boneco. A cara de pau beijada sem nojo pelos que o amavam. Um dos amigos mais íntimo vaticinou em uma roda de poucos amigos que aquela condição das carnes do rosto do falecido, era a concretização do que ele era em vida: um grande cara de pau! Homem de gargalhada fácil, fanfarrão, decidido a viver só o que lhe desse prazer da maneira mais egoísta. Filhos, ele os tinha, mas não os queria, era muita responsabilidade e perda de liberdade. Sua vida financeira era instável. Com sua potente voz rouca fazia alguns shows aqui, música ao vivo em um barzinho acolá, em sua casa e nas casas dos amigos também cantava. Naqueles tempos até ganhava um bom dinheiro, mas nas vacas-magras, sua mulher, professora,  segurava as pontas.
Já se aproximava o horário do enterro tratado com a administração do cemitério público da cidade e nada de chegar o seu melhor amigo que, de férias, viajava de carro por outro estado, quilômetros e quilômetros de distância. A um amigo em comum coube a desconcertante missão de avisa-lo da morte. Ao atender o celular a notícia lançou-se sem nenhum Oi sequer: O Bola morreu! O quê?! Me liga daqui um minuto. Vou parar o carro no acostamento. 
E o amigo nada de atender mais o celular. Bateu e pegou fogo o carro que dirigia chocado com a notícia à queima-roupa? Sabe-se que nas estradas mineiras é onde se registram o maior número de acidentes. A mãe do amigo enfim tranquilizou a todos dizendo que ele ligou informando já estar na Bahia. Implorou que o guardassem, era necessário o seu último olhar, último beijo, últimas lágrimas. Já se aproximava das 19:00h de um enterro previsto para às 16:00h e nada do amigo aguardado chegar para a despedida. Passada mais meia hora ele chega, cumprindo o ritual esperado em uma situação dessa, não esperada. E o caixão enfim foi erguido pelos seus quatro filhos presentes e mais dois irmãos. Outros dois irmãos não compareceram, uma irmã, a Luisa que estava no Canadá e o caçula, com quem ele não se dava muito bem. O cortejo iniciou-se em adiantada hora e seguiu pelas ruas de uma cidade escurecida pela noite sem lua e mal iluminada pelos postes públicos.
Os portões do cemitério ainda se mantinham abertos às 20:00h dada a importância para a cidade daquela personalidade morta. A cova era cavada devagar, próxima a alguns metros do portão principal do cemitério, na passarela central. Endereço privilegiado daqueles que são da elite. Os dois coveiros não tinham pressa, queriam aproveitar os seus 15 minutos de fama, percebendo os holofotes das tevês, flashes dos repórteres e as presenças ilustres das autoridades locais. Tempo suficiente para a mãe do morto, já idosa, gritar aos prantos coisas do tipo: Deus, por que não levou a mim?! Por quê ele, meu filho mais querido?! Bola, meu Bolinha, volta! Volta!!! Deus, me leva junto! E jogava-se teatral para cima do imenso caixão.
Caixão e seu conteúdo içado e depois arriado como um cargueiro de velas aportando no cais. Cova profunda que guardaria pra eternidade um corpo sem mais sentido e sentimento, terno, roupas elegantes e calçados de couro fino. As flores e lágrimas jogadas por cima da terra que há de comer. Os coveiros ajustaram a tampa da cova e cimentaram o fim da vida, das velas e do velório. Funeral findo. Choro em silêncio por aquele inerte produto final de uma vida que agora viaja na Barca da Morte, guiada por rezas e regras. 

Sérgio Janma – 05/05/2012

*Tema do Clube do Conto para esta data.


domingo, 22 de abril de 2012

Contra Senso

Não acredito no destino...
nem no acaso.
Não por acaso do destino,
casual(mente) creio no ato.

Pra contrariar,
minha vida
é um rio seguindo pro seu mar.


Sergio Janma